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    Desconstruir a Existência


    Nubelosa

    I know the bottom, she says. I know it with my great tap root; / It is what you fear. / I do not fear it: I have been there. / Is it the sea you hear in me, / Its dissatisfactions? / Or the voice of nothing, that was you madness? / Love is a shadow. / How you lie and cry after it. / Listen: these are its hooves: it has gone off, like a horse. / All night I shall gallup thus, impetuously, / Till your head is a stone, your pillow a little turf, / Echoing, echoing... 

     

    (Início de Elm, poema de Sylvia Plath em Ariel)

     

     

    Agora que o vento da noite inunda o mundo e quem o habita desigualmente desordenadamente com os olhos me calo embaixo de um pequeno caule amarelado. 

     

    Dizer coisas duras deixou de ser simples. 

     

    Nada que de mim se transforma em palavras me agrada, nem as vírgulas me parecem justas ou os pontos finais, sinceros como antes. Dizer qualquer coisa não digo quando poderia dizer, fico por não escrever, a tardinha de chuva e chá se transforma em coisa morta. Perco meu direito de escrever, assim. 

     

    Na lapa as ruas barulhentas tão vazias, há cães e pessoas e árvores e tão vazias. Sento-me na praça de camisola branca e leio um poema de Plath. Chama-se Elm, nunca hei de ter visto uma árvore dessas. Mas já estive lá. 

     

    Plath, Plath, Plath. Você deve mesmo ter sido uma mulher difícil de viver, um peixe colorido ofuscado pela própria cor. Inundada pelos segredos do ser. Saturada de tanto saber de si. E ainda tão triste. 

     

    As plantas da rua revoluteiam ao vento conforme atravesso para entrar em casa. De volta, deito no chão frio da cozinha, sinto o gelado nos pêlos, na lombar. Umas baladas de Chopin ecoam, ecoam. São o que eu tenho no momento. Chopin e meus cães. Um homem. Dias comuns que passam notáveis pela sua pureza. Seus silêncios e refeições. A bondade dos bichos deitados ao sol; uma estranha que corresponde ao sorriso que deixei escapar no metrô; o conforto de vislumbrar a luz quente vinda de alguma varanda suspensa ao longe. 

     

    Nesses momentos, sou tudo e todos. Vivo completa por todas as almas líricas que habitam o vento noturno, os bichos puros e os impuros, os loucos, as vítimas, as putas, as mães, os amores antigos, as ex, as atuais, os canibais, os garçons e até as esculturas. Sou o brilho no saco de lixo que guarda os pertences daquela mulher sem dentes na soleira da Estação da Luz. Sou tudo o que vejo, o que não gosto e o que não posso. Sou minha avó que escorre pelos meus dedos. Sou as pedras que carrego. 

     

    As palavras duras que me escapam.  

     

     

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    Escrito por Camile Spring às 01h45
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