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    Desconstruir a Existência


    Satangoss

    Quando se desespera, a estreiteza é uma falta de primitividade, é porque nos despojamos dela, porque, espiritualmente, nos castramos. 

    Søren Kierkegaard em O desespero humano

     

     

    Fora de onde estarei, 

    quando os olhos alcançarem a exatidão das formas terrestres eternas, quando o peito estourar enfim estarei nos brancos cantos das paredes que me prestam o sufoco confortante entre ruas e avenidas sem destino. O destino é um só, sempre o não-estar das coisas e objetos que me olham com rancor por não pertencer, o morrer é infinito e imediato, viver é estar aqui agora digitando letras letras dantes digitadas, o feito é refeito e mal acabado, as continuações são dramáticas demais, mas a casa está limpa. 

     

    As gentes ocupam seu lugar na cidade, 

     

    A gente cresce e de repente avista um sol mecânico e fosco entre prédios frios que estocam histórias de vida e me pergunto se minha vista anda turva, sou turva o sol turvo e melancólico como se pedindo socorro socorro, me tirem daqui, me dêem outra vista. Mas esse sol sou eu, que não preciso, enfim, de nada, vai passar, a dádiva está dada, a vida está bem aqui, nessa latinha que é o meu corpo, destampada, com uma granada pulsante em seu interior.

     

    O passado ocupa seu lugar no presente, 

     

    Agora estou sentada diante toda minha vida. Minha vida se confunde com muitas outras vidas, sem que todas tenham tocado efetivamente a minha. Será que, indiretamente, eu amo quem ama quem eu amo? Será que eu serei amada por simplesmente amar? Será que quando eu digo que amo alguém esse amor se dirige ao universo inteiro, aos moribundos, solitários, assassinos, milionários. E quando eu amo alguém, alguma vez serei capaz de deixar de amar, ou será o amor cumulativo, impossível morrer de verdade. 

     

    A dor ocupa seu lugar nas pessoas,

     

    As pessoas deviam dizer mais o que sentem sem medo da dor. Dor é sentir. Sentir dor, pura e simples dor, que ocupa os espaços guardados pela muralha de cada um. E se minha muralha se ergue sob o signo desesperador da verdade deverei eu penar as quedas dos trotes mais altos, o cavalgar truculento do cavalo negro da noite, 

     

    a crise da hiperconsciência que me situa efêmera em situações tão estáveis, ora, eu morrerei e tú morrerás. Não estaremos mais aqui. Essas ruas tomadas, nem rastro do que somos juntos, fomos bichos da cama da chuva na Lapa, logo debaixo das cobertas, musica e mil filmes japoneses de pés dados, filmes velhos os atores mortos eternos, eu ali naquele mar, sabe, no momento em que perdi de vez a razão estava sóbria, num raro tempo de clareza foi que perdi, quis sair como saem os eremitas tão seguros de si e vim assim, sem frio,

     

    mas com a vida tomada das saudades do dia que não mais existiremos.

     

    Arvo Part - Spiegel Im Spiegel

     

     

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    Escrito por Camile Spring às 16h50
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