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    Desconstruir a Existência


    Nadando no escuro

    Se te pareço noturna e imperfeita / Olha-me de novo. Porque esta noite / Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. / E era como se a água / Desejasse / Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. / Te olhei. E há tanto tempo / Entendo que sou terra. Há tanto tempo / Espero / Que o teu corpo de água mais fraterno / Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta. / Olha-me de novo. Com menos altivez. / E mais atento. 

    (Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

     

     

     

    De olhos vidrados vermelhos, vejo em quadrados vazados como janelas que nunca se fecham, rotas. Um vento gelado, marcado por passos largos em ruas estorvadas de São Paulo, me faz caminhar com o tronco tenso. É sempre noite. Todas as pessoas que passam por mim são iguais, exceto pela gordura. Estou solta às nove horas da noite de uma terça-feira, sem pátria, sem igreja. Desço rápido a rua Augusta por entre desertos alheios, corações de galinha, tripas no chão. 

     

    Desço rápido demais, uma fuga de quê, no Olimpo semideuses explodem em chamas, na Espanha a velha Asunción se banha nua no escuro das grutas, em Luján morre um cavalo. Em Luján devo estar morta. E desço, e desço, e desço. Um vinho do porto ali, um livro acolá, estou suja sem amar, ninguém por aqui, um engraxate me dá um-dois, desço mais. Em São Paulo os monstros saem sem culpa de dentro de mulheres suspensas, sós, naus.

     

    Não me culpe. Meus problemas indissolúveis constituem, junto à música, o principal motivo da minha existência na terra. Sou um erro brabo. Não luto. Desapareço em nuvens frias no abandono dos próprios erros, a carne que me constitui esmorece. Desejo ser uma coruja qualquer, uma coruja são todas as corujas. Não se assuste, se dizer a verdade é de fato o melhor jeito de despistar serei um labirinto. 

     

    Dispenso controle, desprezo a vaidade calculada dos mesquinhos, lineares, dominados. A raiva é o contrário de postergar, é doce como a tosse duma mulher que está parindo. Parir é o indulto de todas as mulheres, o útero é um altar de carne, intocado. A ideia de dupla penetração me comove, é amor. Não serei de ninguém, nem ninguém será meu. Terei três filhos homens, na terra faltam bons homens educados por mães selvagens, irascíveis. 

     

    Devo ser mais señorita, segundo o bourjois. Devo não dizer, mas nestes dias de frio nos trópicos tenho andado impetuosamente real para recolher-me. Estar dentro do mar de inverno, na chuva, é transmigrar de alma por alguns instantes, metempsicose; virar luz, ter coragem.

     

    Estar aqui é ver minha própria mão escurecer, é ser alguém a cada dia, distante de realidades mais severas, 

     

    mas frágil,

     

    como uma pequena asa de borboleta em campo minado. 

     

    Philip Glass - Morning Passages


    img// Camile Sproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 17h52
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