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    Desconstruir a Existência


    Um sopro qualquer

     

    Viver é fazer que o absurdo viva. Fazê-lo viver é, antes de mais nada, contemplá-lo (...) Uma das poucas posturas filosóficas coerentes é a revolta, o confronto perpétuo com sua própria escuridão. Ela é a exigência de uma transparência impossível e questiona o mundo a cada segundo (...) Essa revolta é apenas a certeza de um destino esmagador, sem a resignação que deveria acompanhá-la. (Albert Camus em O Mito de Sísifo)

     

     

    Dizem que eu caí.

    Não me lembro onde, pode haver sido no canto do salão, mas não há dúvidas; as marcas que ficaram são côncavas, extremas. Posso ter caído de um céu estridente e agora ser o silêncio das aves migratórias solitárias que percorrem muitos países sem parar, em estado de urgência. E que de cima vêem os abismos, a formação dos furacões, as deserções da terra. E desaparecem por entre nuvens cinzas cor-de-rosas sem jamais serem vistas. 

     

    Ouço o som das paredes, dos cantos das paredes que abraçam um corpo de mulher que franze a sobrancelha e grita pra dentro. Do outro quarto, ouvem-se rugidos. Não, não é um bicho; é o som de trompas de falópio rígidas, dentro de um vasto vazio pulsante chamado mulher. Aquela moça ali queria viver pra dançar, mas o fato é que tem dançado pra viver. E acreditado em muitas mentiras pra sobreviver. 

     

    Naquele dia, quando o pianista subia as escadas e ela esperava do outro lado da porta, viu duas moscas dessas pequeninas na parede. Com dois dedos, esmagou calmamente o casal. Quando ele tocou a campainha, ela chorava sem poder se controlar, esfregando os dedos na parede. Não pôde abrir a porta por um longo instante. Ele, quieto, ouvia ela chorar. Nunca mais se viram. 

     

    Mas para onde vão os tigres depois que já se foi a tempestade, quando o sol desponta tímido com seus raios benevolentes para secar as lágrimas dos secos; dos que não se molharam na chuva. Podres dos que não se deixam levar pela tempestade, podres dos que acreditam na misericórdia do tempo em colheitas emergentes. A vida covarde depende do medo, e o medo é sempre o medo de morrer. O medo é o poder dos fracos, e a morte, a conquista mesquinha dos fortes. E a vida, a vida o que é?

     

    A vida é a mancha negra

     

    com os restos das moscas

     

    na parede que ficou

     

     

    Ryuichi Sakamoto - Amore

     

     

     

    img/CamileSproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 18h23
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