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    Desconstruir a Existência


    O esquecimento

    São passos marcados contra-corrente, passos trôpegos de dragão aferroado, 

     

    me deixe em paz 

    com os ouvidos atados em mandíbulas de feras cegas que gritam na escuridão de dentro de mim, no breu macilento do não querer, no vácuo, viver. 

     

    Um dia acordei e era noite, 

    isso de enfiar a cabeça em buracos errados e perder o bonde de um sono pesado pra assistir o morrer das negras nuvens se faz em estado de vigília, como faziam os romanos. Isso de gostar de quem não é capaz de gostar  produz uma substância umbrosa no ventrículo esquerdo do coração, radioativa, não raro bombeada para o corpo inteiro. Em tais circunstâncias, é de se pedir mui encarecidamente que deixem as falsas autoridades trancafiadas longe do corpo em questão: nada de bedéis, nada de seguranças, nada de polícia. Estes, afinal, estão fadados à lutar contra a desordem, ela, a única que serve de consolo nessas horas. Puro privilégio, a desordem. Para poucos e todos, juntos, eternos na desordem. 

     

    Não existe homem. Existe papel. E as mulheres são bombas uterinas enfeitadas de carne volumosa, a cinta-liga cor de rosa no vai-e-vem macio de algum desastre. 

     

    Naquela noite, quando acordou, ela contou uma linda história para ela mesma. Ergueu-se na cama, sorriu. Não quis saber de ler o jornal - o dia já se fora. Ligou o som e entrou no chuveiro. Chovia uma chuva fria. Ficou com a cabeça embaixo d'água por um longo momento, no escuro, e se deu conta que os sentimentos fortes, inventados, são simples de serem arrancados. São fugazes. Ela não queria que fosse assim, era injusto que tanto sofrimento pudesse ser estancado por vias tão ordinárias. Assustava-se com o poder do esquecimento; da consciência das próprias invenções, fantásticas, mágicas e tão puramente egoístas. 

     

    Era estranho estar só mais uma vez, desassombrada por algum desconhecido íntimo, ex-amado, ex-idolatrado. Ficou vazia, sentindo a água cair por suas costas, suas pernas, seus passos parados sobre o silencio interior. Era estranho se saber sempre só, de repente, como uma gruta deserta que às vezes abriga um fugitivo. Sintoma do esquecimento, a solidão consciente; sintoma de força.

    Ela estava pronta, 

     

    pronta pelo esquecimento,

    foi tramar a invenção de um novo amor.


     

    rabisco//camilesproesser



    Escrito por Camile Spring às 03h50
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