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    Desconstruir a Existência


    Bachiana

     

    Intensidade. Era apenas isso, tudo o que eu sabia fazer. 

    (Mora Fuentes, O Cordeiro da Casa)

     

     

    Sem enxergar muito, andar pelas ruas nebulosas da segunda à noite sozinha, trovoada, tentar voltar pra casa sem alcançar, tentar tentar, rodopiar exatamente no meio da rua vendo o cavaleiro fantasma à espera de minha deserção. Pode ir señor, vá à galope encontrar algum mundo que caiu do espaço e rolando está, silencioso, de coração em ruínas, vazio por dentro, nos ocos da cara, na carne-cara raspada pelos dentes de um garfo nas mãos de uma criança. A carne da cara do peixe. Dá igual. Serei feita do que, então? 

     

    Nervuras. 

     

    Disse-me que seu cavalo morreu, e no sonho a grávida sou eu. Sei que muitos sentem raiva e desejariam ser meus filhos, mas vejo a terra tremer, a gente morrer, morrer abraçado, de cílios dados, eternos. Não tenho medo, sei que estamos juntos no meio da geada, da nevasca, da víscera equina que bóia nas águas de Talcahuano. No meio do menino morto ali no chão. Ninguém vê? Ninguém pára. Vê? 

     

    Não vá morrer sem meu corpo ao teu lado, no verão, perto do mar. Beijarei  tua face de homem morto, teus olhos já sem brilho, tuas mãos geladas. Levarás um lindo sorriso distante, eu então sorrirei e morta contigo estarei. 

     

    Mas nessa rua ainda giro suja de vinho, giro. O fantasma já partiu em seu bretão castanho, ninguém aqui. Morremos e cá estou, viva, sem você. Sem ninguém. Um prelúdio poco animato de Villa-lobos ecoa ao longe, uma esperança, uma nesga de vida, uma insone ao piano com o velho cão que dorme tranquilo aos seus pés. De olhos fechados na escuridão, ela toca uma Bachiana tristonha, vestida com o camisão listrado de homem ausente. Sigo as notas, dou saltos de bailarina zonza pela rua, não vejo mais que um brilho ébrio. 

     

    De nervuras estou feita, vivo de vigiar o invisível tragicômico que faz o ar ser leve, meu riso surge de uma memória besta, íntima e quase imperceptível. Sei que nada é sério, embora tudo seja agudo demais. Vai ser gauche na vida, droit, gauche-droit. Emudecer, não ter ninguém. Ser a velha imunda dos 90 cães que escreve e ninguém lê. Casar-me, ser mãe de dois meninos polidos, incríveis. Mudar de país, amar uma linda mulher, não casar-me jamais. Trabalhar em trabalhos dos outros e endurecer, perder la ternura, não ter tempo pra nada. Ser a esposa de um pescador calado, suado, urgente. Viver de festa, levar a tristeza entre os homens para abafar a sua voz. Sumir; abandonar meus pais e amigos. Pegar em armas, matar políticos, muitos políticos do mundo inteiro. 

     

    A pianista finalmente dormiu. De onde estou, vejo suas costas tombadas sobre o piano. O cachorro me observa com ar de piedade. Vou correndo pra casa. Estou molhada, os cigarros molhados no bolso da calça. Acendo um, tem gosto de coisa morta. Faço um chá, tiro a camiseta, sento-me à mesa fumando. Arrasto a xícara para a beirada, mais um toque e no ar voam as linhas e os pontos que formam a xícara e o chá. O líquido se espalha, a porcelana se espatifa. Pego a garrafa de vinho aberta na geladeira, deito na cama com o gargalo na boca. Durmo. O telefone toca e o som dele invade meu sonho. 

     

    Como se espanta algo de dentro de si sem destruir-se um pouco?      





    rabisco//CamileSproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 18h38
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