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    Desconstruir a Existência


    Fragmentos de um pulmão

     

    De respiração arrastada, a mulher de vermelho ainda existe. 

    Possui frêmitos brônquicos, lhe falta ar, lhe falta água. Sua vida é um punhado de fios cortados, espalhados pela floresta. Fios cirúrgicos usados, ensanguentados. Sangue-de-bicho. 

    Ao revirar os pulsos na cara, ela aperta os olhos com tanta vontade que é capaz de engoli-los. A mulher de vermelho é uma forma amorfa com nove orifícios em uso constante. Ela deseja tapá-los com cimento. Ela gostaria de abster-se da consciência de que os orifícios estão unidos pela manutenção sagrada da vida. Mete-lhe os punhos cerrados dentro da boca com força para destruir seu maxilar. Ela sabe que se fosse matéria maleável, suas mãos poderiam passear entre carne e osso. Suas mãos poderiam tapar-lhe de vez a respiração pelos canais turvos que lhe obstruem o ar. Suas mãos poderiam segurar a massa fecal na região final de seu cólon frágil e pleno de memórias. 

    A mulher de vermelho reclina seu rosto lentamente nas águas negras turvadas em concavidades nos chãos imundos, imundos, da noite. Refestela-se sempre só. É rudimentar, é bicho. Não há pessoa no mundo que lhe possa cuidar, deve para sempre ser só. Seu sexo está coberto com as nuvens cinzentas da tempestade e do caos, já não há homem para penetrar-lhe. Ela inundaria. 

     



    Como se algo a lhe doer permanentemente, vive a contorcer as faces, a mulher de vermelho. Invariavelmente, franze as sobrancelhas, permanece distante. Move-se como alga submersa em mar tranquilo. Ela não é mar tranquilo. Apenas não possui controle sob seu corpo para quedar-se estática. 

    Para todos, não é presença. Sem conveniências, não é simpática, nem muito educada, embora acredite ser. Não possui esperanças, e torna-se arrogante frente a crenças. É antiga, a mulher de vermelho. Possui a aura carregada dos velhos tempos em seus ombros, sua cintura. Não vive em tempo linear. Esta velha mulher de vermelho não carrega anos, mas ressacas. Uma mente brutalmente nebulosa, à mercê de um passado que sucumbiu nos aros do esquecimento, do desapego aos mais valiosos momentos. Eis as memórias apagadas no cinzeiro da mulher de vermelho. Ela fuma feito uma puta nojenta e consciente: seus macrófagos bóiam esverdeados, mortos nas cavidades negras de seu órgão insuficiente. 

    Ela quer matar alguém. Ela sabe que vai morrer. Ela quer assistir o rebentar da vida em olhos alheios, se não por amor, por ausência de vida. Suas pernas se movem com ressalvas, como se estivesse contrariada entre o desprezo completo e a busca desesperada por socorro. Por amor. Grita como se dentro d'água, ninguém a ouve. Ninguém a vê, quando acredita enxergar-lhe perfeitamente.   

    É bicho. Ataca-lhe a raiva própria dos cães, quando surge em sua frente o óbvio e comum controlador. Rechaça informações, a mulher de vermelho. Rasga jornais, rasga revistas, xinga, vira mesas, quebra taças. Chora até adormecer. Afoga-se.


    Não olhes muito para ela.

     

     

     

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    Escrito por Camile Spring às 03h26
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