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    Desconstruir a Existência


    Abatedouro

     

    O dia em que não voltei à casa jamais.

    Não me safo do momento em que olhei para o céu e prendi a respiração. Tombei. Quando despertei, estava em rua deserta, amuada em um canto sem luz. Os pensamentos não vinham, e com a mente silenciosa, quedei-me paralisada sem olhar para meu próprio corpo de cores. Não senti pavor, não senti frio nem calor. Senti-me numa bolha invisível a mim e a todos, alheia à tudo que ocorrera desde que estivera neste estado vivo da matéria. Não movia um milímetro em mim, posso sentir a não-respiração dos meus sacros pulmões amordaçados agora, agora que estou longe em definitivo das ratazanas de biblioteca. Em definitivo, não respiro mais. Tornei-me segadura do tempo, envergada para os lados perdidos de um campo secreto. Meu corpo endureceu, e sou tocada por ninguém em absoluto. Meus pequenos seios são hoje como cinzentos sopros gélidos de um eterno escravo espiritual, uma sombra amorfa e sem gosto que paira sobre o que foi abatido do meu peito. Da minha cintura escorrem lavas malditas que abrem rombos na pele macia de outrora. Sou mais nada que um vergalho pesado com resquícios pestilentos de fêmea desfeita. Sou nojenta como a verdade e cega como os vermes do poder. Revirei-me na sarjeta do passado, mordi o asfalto e perdi os dentes. E então, mortificada, recordei-me de que haveria em meus bolsos fundos d’alma, os dentes fortes do cavalo negro do tempo que dis-pa-ra lento e me faz extraviada. Delata-me, sou crime e lástimas por inteiro. Prostra-me, és miséria, és anêmico. Combalida e furiosa, venho de amores tempestuosos, naufragados em cais remoto e impossível. Pairo em miragens, sou toda deserto submerso em águas barrentas das costas da lama. Sublevo-me para cortar todos os cabelos da vaidade que ainda me restam.  Imoderada, peço equilíbrio aos recalcados musguentos da ilusão e da morte. 

     

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    Escrito por Camile Spring às 02h25
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    Sem Título ou Koyaanisqatsi

     

    Ia dizer.

    Mas tenho água viva encalacrada na garganta e ela, se move, lentamente. Não abro os olhos então. Eles fechados vêem mais. Com acento. Vêem tentáculos coloridos e brilhantes da água viva que me cala e sorri. E eu choro sem abri-los. Lá fora é doido demais, culéga, quer brincar de viver? pra morrer? Dizem que Iemanjá abre e Exu fecha, e eu digo sim. Prefiro assim. Deleito-me no cálido coletivo humano, as intimidades costuradas pelo riso de um lobo. Upa, meus amados amigos taberneiros do coração. Em época de mulher inteira, encrespada pela própria respiração, o hobemgondemborâdeo quer pular corda. Quer viver triste pra morrer bem, permanecer na penumbra tribunalística dos machos perdidos S/A? ômodeus, aiuto. Uma reposição de verdades, uma contenção nas envergaduras da macheza, uma paz.  Aiuto, porque a maldade latente soa como o motor de um automóvel novo. E furam-me os pneus. E roubam-me a fechadura de um jeito todo especial, que me faz ter de entrar en el coche pela porta do co-piloto. É uma verdadeira festa no asfalto. Os olhares esguios, as aceleradas furtivas. Eu grito. E eis que lá no fundo vejo que a lembrancinha desta algazarra toda é um certeiro tiro na cara. Move-te água viva. Cala-me. Faz-me viva mais um tiquinho assim, quentinha no seio divinal da pazciência. Ó céus da boca. Ó Chauncey Gardiner, Kaspar Hauser. Ó Caldinhas minha, que pulsa la vida en las tripas, vá-te lá, ver pra saber. Ser pra escolher. E traz o marzão no bolso pra enxugar estes olhos ciganos da tempestade, mulher rara.

    Ensuite toujours ici avec nous. 


    Irregulares somos perfeitos, não em ângulo como as representações geométricas da existência, mas em méritos outros, escondidos em pequenas caixas pintadas à mão de mãe. Na palma da mão, olhar bem de perto, focar, enxergar bolhas de sabão embaçadas no resto do campo de visão. Tem alguém aqui?, além de Loris Lambys gigantes que caminham famintas por entre prédios neoclássicos neon, a achar graça de tanta destruição e imundíce. Las focas prateadas morrem morrem todos os dias, inconsciência coletiva. Vem comigo, mas só se for pra cair de rir e levantar pra chorar, e ser e estar, e como uma ratazana velha, engolir à exaustão. Mas que cara feia é essa que te põe triste mal comido quiçás, um ahhhf.

    Deito quente, somos tronco. Quem mesmo? 

    E viva Santo Antônio. 

     

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    Escrito por Camile Spring às 07h33
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