Às Monções
“Às vezes, você fica ali, dentro dela, durante a noite inteira, para estar pronto se por acaso, graças a um movimento involuntário da parte dela ou da tua, lhe viesse o desejo de tê-la de novo, de fartá-la mais uma vez e de gozar apenas o gozo como sempre cego de lágrimas.” (Marguerite Duras, A Doença da Morte) Nunca gostei de garagens. Os subsolos, baldios, abrigam quê de medo e susto, um ser cego a espreitar no rastejo a entrada e saída dos moradores do Edifício La Spezia. Corro depois de fechar a porta do automóvel, corro para as escadas sem dar chance para ele me pegar, se esperasse distraída o elevador na garagem. E quando chego no térreo, cerro aliviada a porta das escadas com as costas, abro os olhos. Aprumo os sentidos, aperto o botão que me levará rápido pra longe de qualquer lugar que não seja eu. Os canos, o solo cinzento, as baratas e os carros. Com eles, as ruas que abrigam mortos dilatados no asfalto. São Paulo. Lá embaixo é frio e solitário, e, num pulsar de vida, tudo é diferente e nada mais importa. Alguém nasce, e eu vou morrendo por não ser muito menos. Muito menos. Pouco tempo foi suficiente, amor, oh tristeza em cima da mesa, essa que faz querer sumir, essa que faz subir um gélido sopro no peito. E aperta. Mas quem se importa com algo que é de ninguém, onde logo se vê, tudo é festa, e depois de ter um homem, se queda aliviada por haver sido vista de verdade. E basta. Mas nem tudo é festa, coração. O conforto está no passar dos dias, nas tarefas que escolhemos como propriedade e o resto é lucro nas conformes configurações. Devo então desacreditar completamente, amor não basta. E não basta. E não basta. Lamento-me nas paredes, escrevo ya no te quiero más, corto os cabelos, vou pras ruas, os anos passam e quando deito todas as noites te encontro passeando por mim. Agarro-me a teus cabelos macios, beijo a tua face cansada e adormeço com doçura. Mentira. No te perdono jamás si no estés conmigo, que lo sepas. Bien sientes que fuerte és lo que tenemos aunque no construimos nada. Das la cuenta y no seas tan despacio, si nos encontramos otra vez después de todo és tan lindo como natural que la vida se cambie. Quedate solo si quieres, pero libre para respirar el aire como un hombre de verdad. E assopra a neblina pra clarear. E adormece fundo pra despertar, seja. Põe-me em meu lugar real e não neste sítio frio e culposo e eterno onde estou, calada e receosa como se de estar viva eu ofendesse. A ofensa, não nos olvidemos, é o efeito embaraçoso e covarde de um estado de reconhecimento, apropriação daquilo que nos acusam. E, no presente caso, quem acusa é um sonho visível, é uma vontade contínua, é a pulsação da própria vida. Adentramos-nos ali, não lamentes. Não há culpa que te permaneças longe de mim. Nem regues uma planta seca com lágrimas culposas por haver estado pleno sem. Arrivam-se finalmente nossas monções. 
Hoje, aqui, te permaneço como nunca.
Escrito por Camile Spring às 15h21
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