Retalhos
Vi-me azul cinzenta à beira de estrada estreita. Eu menina macenta, menina boa de fugir aos gritos que não alastram som. Esgoto-me em pequenos grãos de sal que flutuam flutuam, assim, não me podes lamber e cuspir e beijar e morder, se morres. Tens que ser aqui, meu estrangeiro. Meu trigueiro homem. Olhe, escolho as suas mãos rudes sem horas no pulso fino. Sem conveniência, estes olhos romenos à cavalo.

Deita aqui um pouco. Vem. Sabe, a vida, essa vida que vemos nos céus cravejados e estradas de terra, não é nada que ultrapasse os segundos da decisão. A decisão minha. A tua. As miudezas, os alfinetes, as merdas de vaca devem ser degustadas devagar, bem digeridas, pois somos dois monstros em busca de paz. Vá-te embora qualquer dia de si, se lasque fora e veja de cima esta sua cara. Veja quanta água, e depois olhe ao redor. Eu serei então o contorno dos sacis perdidos na densa mata, o sopro escuro e decisivo que arranca as folhas no outono. Eu serei então o fulgor arrebatador de um doce lar em chamas, como bem enxergas. E tu, maluco, que me pegues caprichoso. Que me pegues por inteiro, por todos os lados e buracos, que me faças livre de ti, em ti mesmo. Sabe, parado assim, olhando pro teto de sobrancelhas tensas e desamparadas, eu ali, grudada no teu peito, cheirando teus pelos de olhos fechados. O fogo da lareira estala e então levantas e me beijas. E te sugo até que vires um pedaço quente de seda. Veja de cima, estrangeiro, veja então se a vida é mais do que fogo e seda, a vida é o quê? As pessoas querem quê de algo, qual, alí, naquela rua, alí, naquele edifício distante calculado. Sem vontade de fumar, fumas, sem vontade de beber, bebes. Que me sento na velha cadeira elétrica das lembranças, já não sei morrer. Quando vejo aquele lago enorme tinindo a luz do sol através de gotas de luz, estou só. E permaneço quieta, como em qualquer manhã, depois de acordar. O retorno no peso do sono, dos confins da alma, o despertar despacio e cauteloso da consciência. Eu, calada. Eu, quem. Eu, animal. Não. Eu, pétala caída esfacelada, daninha, sem singeleza para exprimir-me, herética. Localização, triste aqui essa ponte enterrada dos desejos, triste lá o atraso dos anos que se foram demasiado rápido, sem dar trela às estruturas. Sem pestanejar. Mal sabia nós dos ligamentos; diz, vou ser só, vou flanar de solidão, vou chafurdar no egoísmo, vou autoemitir a permissão para ser triste. Assumo a demência. Não apoiarei-me em pulsos finos? cá estou com meus, a queixar-me da boa vida. De mãos cheias, de seios inchados. O ventre livre. E ainda, caro estrangeiro, te vejo montado assustado no rabo das sujas cadelas que muito latem, vejo o carretel delicado dos teus pensamentos desfeito em nós, dependurado por entre as ruínas de um corpo. Um ossario de boi. He boi. He boi. Passa, fio, vá-te rápido, faz-me o favor. Esses som de ausência vem dos trigais, olhe, se uma espiga de trigo emitisse algum som ao se despedaçar em chamas este seria o som da tua ausência. E quando apareces, sou toda luto, aquele que se faz com a bagaceira da uva. Luto alcoólico de meias rendadas, a cinta-liga que prende a respiração alheia e me destrói. Vês agora um corpo entumescido de mulher amódita, que contempla a falta de ar embaixo das areias negras daquela velha praia. A luz que te entrecorta os olhos quando me vês entrar na cachoeira é filtrada. Gameleiras, plumerias, jasmins. As pedras se calam quentes sob seus pés. E olhe, então, estamos inteiramente vivos, foragidos um no outro, encobertos pela fúria da natureza. img//Camile Sproesser
Escrito por Camile Spring às 18h52
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