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    Desconstruir a Existência


    No prado

    Escorriam-se cadavéricas as formigas por aquele pano velho molhado, e com sorriso trêmulo de mulher apocalíptica, suas águas lavaram a mesa, o doce, o cinzeiro. O cigarro, enganchado encharcado nos lábios semicerrados, machucados, denunciava o teor da vida em animação suspensa pelos próprios lábios. Lábios esses, plenos de segredos escondidos por entre glândulas, veias, lençóis. Ali há uma pedra, ali há uma mulher de costas, suada, inebriada pelas dimensões que saem das paredes piramidais que ninguém enxerga jamais. A mulher sopra com a boca donde se revolteam furiosos ventos que destroem o gesso maligno das perdas estancadas atrás das cadeiras. As perdas de verdade, como uma estrada, uma escada, sem retorno, sem fim. Como tudo que há de mais profundo, simples assim. Te sentas ali, e observas durante horas a parede, ali atrás, onde há tudo de menos óbvio, onde as respostas saltam ao ar, inflamadas, exauridas. O presente chegou e gritou para os confins de um poço fundo, o passado acordou. 

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo.

    Ninguém vai saber mais que ela, com a crina presa num coque alto, a mirar através das montanhas enfumaçadas da memória, que o tempo, amor, é um cavalo maldito que dis-pa-ra lento. E de onde estás vivo, se vives deveras, o encontras. A luta é árdua e infinita, mas o fim é descaradamente justo.

    Eis o epílogo da vida bandida.

    Eis-me o amor.


    (…)

    É nos braços da tua irmã que vai chorar, e que vai ser sempre uma criatura sem nada além de si. Mesmo sua irmã longe, mesmo sua irmã além do horizonte. Ela está aqui, como sempre estará. Não te ressintas como o cavalo do tempo, que justo e furioso, dá coice na vida, e bota tudo pra baixo. Sinta a força da natureza e fique só por horas, quieta, sem dormir, sem querer absolutamente nada. Quem não quer nada sabe muito. Sabe tudo. Minha querida, ouça, assim, as gymnopédies e gnossiennes de Satie, deixe a janela aberta, apague todas as luzes e cale-se. Mande todos os seus pensamentos, dos encantadores aos mais medíocres, pro diabo. Desligue máquinas, desplugue-se de tomadas, e fique assim, alheia dos seres e quereres e caralhos da existência. E seja feliz, enfim, e confie no vento e neste cavalo maluco do tempo. Você ama o suficiente para se calar, à julgar pela força que ainda está por vir, concentrada e bem direcionada. Ânimo,  observe com calma tuas novas pérolas, e ame muito este grande homem, teu homem sempre.

     



    Escrito por Camile Spring às 01h06
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