Alocromatia
Ad paenitendum properat cito qui iudicat
Já são vinte para as quatro e ninguém chegou. É hora de chegar, ei, é hora de chegar. É hora de, enfim, apertar as brasas no peito das mãos e sentir o cheiro da carne escurecer a visão, enquanto um pai morre no quarto vazio ao lado. Saberá ele, enquanto morre, que meu cavalo negro galopa em direção ao jamais? Meu animal solitário, que na chuva chora e dispara contra a escuridão das matas selvagens e molhadas. Não. Ele não sabe e nem nunca saberá. Ele morre sem nem mesmo saber que está morrendo. A vida lhe escorre sem fracassos, apenas com um coração murcho, apertado entre memórias quase póstumas. Memórias frias, rígidas como a própria fuga da vida. Sabe, estes animais enrolados em plásticos desconhecidos e enlameados pelas estradas de terra do Brasil, afogados. Vocês sentem melancolia. Mas é vida, ora. Melancolia é não ficar de quatro e nunca haver se arrastado até o fim da estrada para sentir a beleza destes animais bem de perto. Alí, quando se aproxima de suas narinas e não há o sopro quente de vida, apenas paz. Pois a violência e a melancolia se manifestam intensamente naqueles que mais as repudiam, estes, que vivem a acreditar que estão seguros dentro da carcaça polida e courada. Estes, que fogem da natureza dos sentimentos a estancar as dores com a ignorância da razão. Estes, que se riem frente às regalias da beleza, mas se chocam e se enchem de intolerância e ausência quando a vida rebenta. Analisemos pelo esforço, o fracasso não é próprio de quem não se dá, mas de quem não se dispõe a olhar com franqueza. Arruina-se. Mala suerte? No. Malos ojos. Alocromatia, moléstia que perturba o senso das cores. Já é hora de chegada. Pode pensar que não estou bem, e fique à vontade. O ato não anula o fato, e duas pessoas só se encontram de verdade quando sem expectativas possuem algo uma da outra. E consequentemente, uma para a outra. Estar bem é um estado ordinário e uma condição social. Só se está bem para os outros, e mesmo quando se está forte ou amando, a prosperar o volume do espírito, o estar bem não faz jus às almas despertas. ad partus ovium
noscuntur pondera ventrum
Escrito por Camile Spring às 00h40
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