MySpace
     Mata Adentro
     Avenida de Escândalo
     Embolex
     Cyber Tupy
     Viuva Porcina
     Amarelo Ainda
     Gustavo Guimarães
     Petra Schwarz
     Bianca Barbato
     Fernanda Couto
     Devaneios & Realismos
     O Impostor
     Blog do Guaci
     Marcos Vilas Boas
     Bocada Forte
     Colecionador de Pedras
     Radiola Urbana
     Selo Instituto
     Lost Art
     Zeitgeist, o filme





    Desconstruir a Existência


    Alocromatia

     

    Ad paenitendum properat

             cito qui iudicat 


    Já são vinte para as quatro e ninguém chegou.

    É hora de chegar, ei, é hora de chegar. É hora de, enfim, apertar as brasas no peito das mãos e sentir o cheiro da carne escurecer a visão, enquanto um pai morre no quarto vazio ao lado. Saberá ele, enquanto morre, que meu cavalo negro galopa em direção ao jamais? Meu animal solitário, que na chuva chora e dispara contra a escuridão das matas selvagens e molhadas. Não. Ele não sabe e nem nunca saberá. Ele morre sem nem mesmo saber que está morrendo. A vida lhe escorre sem fracassos, apenas com um coração murcho, apertado entre memórias quase póstumas. Memórias frias, rígidas como a própria fuga da vida. Sabe, estes animais enrolados em plásticos desconhecidos e enlameados pelas estradas de terra do Brasil, afogados. Vocês sentem melancolia. Mas é vida, ora. Melancolia é não ficar de quatro e nunca haver se arrastado até o fim da estrada para sentir a beleza destes animais bem de perto. Alí, quando se aproxima de suas narinas e não há o sopro quente de vida, apenas paz. Pois a violência e a melancolia se manifestam intensamente naqueles que mais as repudiam, estes, que vivem a acreditar que estão seguros dentro da carcaça polida e courada. Estes, que fogem da natureza dos sentimentos a estancar as dores com a ignorância da razão. Estes, que se riem frente às regalias da beleza, mas se chocam e se enchem de intolerância e ausência quando a vida rebenta. Analisemos pelo esforço, o fracasso não é próprio de quem não se dá, mas de quem não se dispõe a olhar com franqueza. Arruina-se. Mala suerte? No. Malos ojos. Alocromatia, moléstia que perturba o senso das cores.

    Já é hora de chegada. Pode pensar que não estou bem, e fique à vontade. O ato não anula o fato, e duas pessoas só se encontram de verdade quando sem expectativas possuem algo uma da outra. E consequentemente, uma para a outra. Estar bem é um estado ordinário e uma condição social. Só se está bem para os outros, e mesmo quando se está forte ou amando, a prosperar o volume do espírito, o estar bem não faz jus às almas despertas. 

     

    ad partus ovium

    noscuntur pondera ventrum  



    Escrito por Camile Spring às 00h40
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]