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    Desconstruir a Existência


    O Vapor

    E que eu me ponha em mim. Eu me tiro demais.                                                                          

    Abestalhando-se, besourinho? Sim. E depois nunca vai se lembrar das palavras, e dos gestos, e da vida. É só assim, é mesmo assim, te reclamo porque canso, ganso. Monstra, lontra gorda que se arrasta nas calçadas feito o patéta atleta da disneilândia do que cuidadosamente não importa. Pra mim e para mim, o que importa é exportar pra cá, nessa miudíce egoísta maravilha o que importei das camadas, transformar em palavras. Das calçadas desses econômicos, escassos, sulfúricos furiosos, infinitos dos adeuses – deuses  demoníacos do amor.                                                                                                                            

    Adeus, amor. Nem que seja só pra dizer. Adeus.                                                                                              

    Como vai você? Eu vou assim, ando a estar em tudo que é tão meu, apenas meu. Ou seja, eu. Você está longe? Se sente assim? Entendo, benzinho. Perto de um ponto sumário, imaginário fora dos eixos da terra? É exatamente assim que se gere, sugere dor, suor, piano. A noite adentra o quarto, lembra? Eu suspiro quando lembro dos abraços que não demos. Tem? É, eu concordo que devo ter destampado problemas demais de uma só mão. Minha mão anda queimada, sim, o vapor. Me cutuquei? Sim, desta vez como nunca. Cada um faz o que pode e como pode e quando pode porque somos tão absolutamente solitários e burros feito jiló de molho.                                                                                                              

    Poupe elogio, bem.                                                                                                                                                

    Você acreditava? Eu acreditava, embora nunca houvesse, de verdade no duro, sabido. Talvez jamais saberei. Mas fico comovidamente honrada que você acreditou em nossos erros gramaticais. Eu erro tão feio comiga. Fico sem miga. Não. Não. Fico assim, com migalhas de mim, e me rôo feito esquilo magro faminto de si.                                                                        

    Ma enfim, coração, não há de ser nada... Não quero mais te aperrear, precioso, hei de ir nessa. Eu também amo, sim. Relaxe. Deixe que minhas mãos ardam, até daqui uns estalos do tempo soarem e, lentamente, força surgir pra tapar essa panela quente e brilhante de barro a fervilhar alguns eus.                                

    Não te preocupe, bem.                                                                                                                                            

    Eu dou mesmo muita risada, mas ainda não enlouqueci pelo menos por completo. Onde queima? O vapor queima neorônios e partes sagradas do coração. Queima, dói, mas entende, amor, não me esvai com o torpor do calor, como a lenha, ou a pele de um animal atropelado.                                                            

    Solda-me feito aço.                      

    Mulher de lata? Não, bestinha. Aço molenga, molhado, vermelho. Mulhér, benzinho, você sente como é?

    É carne, muita carne e sangue. E chuva. Torrencial, o sangue e a chuva. E degraus de costela, degraus que guardam um oráculo infinito pequenino que pulsa forte, em cotidiana demasia, e dá choque, e nunca se cala, e pisca, assim, feito passarinho prestes a morrer perto do sol. E aí, coração, você deve estar livre, desentupido, para chorar muito. Na rua, no avião, na escola, no celeiro, na festa, no outono, no elevador, no metrô, e de preferência no chuveiro. Ou melhor no meio do mato. Vida, bem.                                                                        

    É um pouco assim. Mas é também amar demais, tem jeito não. Você sabe melhor que todos. Vivo, logo amo. Amo, e rebento.                                                        

    Amo, e acordar, esticar a carcaça do hemisfério norte ao sul e gritar FUNCIONA BRASIL!                

    Dormir solta dentro de mim. Com gavetas se abrindo e tudo voando aos brilhos, essas mágicas de estar vivo, de estar bem aqui.                                                                                                                                              

    Se ainda sinto a velha aflição de não entender e não conseguir formular a grande questão? O não-pertencer? Claro que sinto!  

    Eu ainda não consigo, só tenho ausências relâmpago, e de repente não ligo os cabos e não sei o que somos, digo, a forma humana, não entendo o que é isso tudo aqui, e como viemos parar, enfim, aqui.  E então aquela mania de ficar olhando fixo pra minha mão durante tanto tempo né… Os arrepios. Você estranhou, né, coração. Viu, passou. Quando eu era muito pequena acontecia todo dia, eu ficava fora sem qualquer noção do que somos, isso é, não entendia a forma humana de existência, era muito, sensacionalmente, estranho. 

    Agora só acontece voluntariamente. É. eu passei a cultivar a sensação. Como eu faço? Tenho que começar a olhar minhas mãos durante algum tempo. Depois vem a grande incompreensão, mas dura pouco. Uma pena.                                      

    Bom, bem, quero ir dormir. Preciso sonhar com umas paradas que andam surgindo por aí, nesse porto magnético das sortes, dos pensamentos, tentar entender pelo outro lado, meditar. É danado. Sim, eu preciso meditar. Nos vemos loguinho, sim?

     

    Vem, me abraça forte e respira, traga o vapor quente do meu corpo inteiro.

    Adeus, amor.

     

    Cuida.

     

     

     

     



    Escrito por Camile Spring às 04h30
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