Hoje é a curva
Seu Orlando morreu. Não esqueci, porque destas coisas a gente não esquece. Não eram férias de julho, mas de janeiro, quando a gente ia dormir ansioso pra acordar logo e nadar, jogar taco, jogar bola e brincar mais nos dias quentes e longos dos verões com gosto de pastel e suco de maracujá do Décio que não voltam nunca mais. O Vale das Vertentes é cercado de mata fechada, é banhado por um lago e as flores, os pássaros e os bichos daqui sempre me pareceram pré-históricos de tão vigorosos. Que diga os insetos. Este lado de Serra Negra sempre teve energia toda especial. Meus avós construíram essa casa no fim dos anos 60, e desde então nossas vidas florescem e se transformam dentro dela. Da mesma forma que minha mãe e minhas duas tias gêmeas cresceram aqui, eu, minha irmã e meus três primos, anos depois, crescemos aqui. E o tempo passou e varreu nossos elos firmes de criança. Os segredos de estado, as picadas, os tombos, a zueira toda e a intimidade. Hoje nos trombamos pelas ruas e mal nos reconhecemos. Mas essa é outra história, e fica pra quando eu estiver forte pra contar das perdas fatais, irreversíveis. Hoje estou com o coração nas mãos sob o mesmo céu azul exuberante do Vale das Vertentes. E quando coração fica na mão é sinal que se perdeu feio algo de valor inestimável, mas há em algum outro porto um navio escondido que fortalece, a solidão fortalece. E essa mísera consciência de solidão aperta forte, e dói. Podia ser segunda, sexta ou domingo, todos os dias eram iguais. De bermuda, camiseta e boné, saímos eu e minha prima Bruna com todos nossos oito anos de existência sob as rodas velozes e cor-de-rosas de nossas bicis envenenadas ladeirão abaixo. A enorme rampa de terra que guarda minha casa quadrada faz uma curvona quando chega no lago, e foi bem ali que a animadíssima perseguição chegou ao fim. Eu tava ganhando até aquela curva, mas essa curva aqui curvou os ares, o sol ardido. Trapaça feia, a roda dela raspou na minha e eu, curisco magricela, voei. Voei pro chão, minha barriga entrou no guidão e então o sol sugou todo ar da atmosfera e as pedrinhas enterraram minha boca seca. Quando abri os olhos cheios de terra vi cheiro de sangue nas mãos da cabeça branca do seu Orlando. Ele me pegou com asas de anjo, e voou com sua berlinda até minha mãe, que desceu correndo com a cara muito vermelha tremelicando a rampa da garagem de tão aflita que ficou com os gritos do seu Orlando. E então mais uma vez estávamos todos lá, na Santa Casa, esperando eu, a boneca dismilingüida, estar concertada. Seu Orlando me salvou a vida,e hoje ele perdeu a sua, e eu estou aqui sentada, olhando aquela curva. Hoje eu queria falar com a minha mãe, e dizer que não sou assim, tão ruim. Ninguém é tão ruim assim. Que as vidas se atrelam com o tempo, e o tempo atrela as vidas. Eu sou atrelada, mesmo deitada sozinha na grama do campão, olhando a gente jogar bola. Hoje levo pouco mais de oito anos de existência sob as rodas velozes do tempo, mas sou exatamente a mesma menininha. E eu preciso muito das pessoas que me são atreladas, porque muitas delas se desatrelaram sem minha permissão, no susto, nas outras curvas que a vida dá e te derruba, e o anjo não vem, e de repente, quem é sangue da gente permanece completamente alheio e não te quer mais, nunca mais, Fievel. E as perdas reais dos vivos se consumam com as desistências de quem não lida com a válvula com que se constrói as histórias de vida, a valiosa intimidade. Esses problemas que transformam a identidade de uma família, tolerância quando amor não basta, fragmentos, fragmentos de uma vida inteira. E assim perecemos, desatrelados à fraqueza de algum integrante da tripulação que comeu pouco feijão e abandonou o barco. E desse barco eu não saio jamais. Hoje é a curva, e eu não caio mais. Quem perdeu hoje, de verdade, foi Dona Terezinha, esposa de Seu Orlando. Hoje vou acender minhas velas por eles, que hão de se encontrar diante outro vale, outras veredas. Eu hoje vou rezar na mata, e agradecer por ter no sangue três mulheres, mãe, avó e irmã, fortes demais, que não têm pouca história, nem pouco amor pra dar. Nem pouco nada. E vou agradecer pela vida, que sempre me dá tanto, sem que eu precise perder tudo de verdade pra acordar. Adeus ano velho, porque hoje é a curva, curva essa que chegou junto à da Maria Letícia, Coringa que me guia no karmanghia da existência, parabéns pelos 31 de ripa fina, mulher. Hoje é a curva, e daqui em diante vou tentar ser apenas o que eu faço do que fizeram comigo. E vou errar feio, mas ninguém é tão ruim assim. Vou ser minha versão incorrigível de mim mesma, assumidamente humana e adepta aos acertos e equívocos, assim como sou, eu protozoária, eu, filhote de labrador. Agora eu sento na ladeira e olho a curva. O anjo está ali, e se despede nos reflexos do lago.
Escrito por Camile Spring às 21h39
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