Karma Chameleon (I cum and go, I cum and go)
Evapora-se o turquesa nos oceanos, quando tudo o que há nesta praia são cascas de banana que fazem mal, mas muito mal. Hum, mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco. O bode é meu, a vaca sou eu, e não estou, não estou em nenhuma esquina de Truffaut, em nenhuma cama de Almodóvar, nem mesmo em algum céu de Kurosawa. Não estou dormindo, não estou nos bares quando pareço estar, em algum canto fora do campo de visão talvez esteja, não completamente sozinha porque agora há um incômodo, uma tensão sexual, um objeto ruim de pegar.

Agora há Paris, o Mario-que-me-come-atrás-do-armário e suas sinfonias clássicas nas madrugas de Sampow meu, a gente se encontra na hora do último vinho e se beija sem boca, e conversa com ninguém juntos, e depois bebe cerveja tcheca pra enganar as vontades chocas. Ele não me diz a idade pra eu não dizer a verdade, eu não digo, provavelmente, nada que preste nem pra rir, nem pra nada. Ele é mesmo um grande galã do trance. E não importa, porque eu não estou presente, eu não estou passado e muito menos futuro. Estou fora de temporada, fora de cartaz por tempo indeterminado, descascando, dançando em pirâmides nos subsolos de alguma cidade que nunca existiu na puta que pariu, ouvindo o Dalto cantar cuidabemdemiiiim então misture tudo dentrodenós, de pijamas, rendida, pronta pra ir embora de qualquer lugar a francesa, dando tiro de espingarda na lâmpada acesa. A vaca faz pliê, e agora eu preciso dormir e descansar meus sacos cheios de ar, inchados de vazio, sonhar com os aspectos mundanos das abstrações e dos homens farofas que são muito mais interessantes quando você não vê tão de perto. Ahn não! Chega de briga, estas reivindicações malacafentas de quem se nutre dos maus agouros alheios, das amigas, das fofocas. Chega de Paris na madruga, chega de inventar homens em peles de banana, eu não estou, não estou em nenhum tubo de ensaio no lab dos Paulistas Idiotas LTDA.
E chega de ficar na praia sem protetor solar.
Img//CamileSproesser
Escrito por Camile Spring às 13h09
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Dreamy Weather

É esta cidade e a maneira que ela se move diante nossos corpos de carne crua. E como acreditamos no que não sentimos de jeito nenhum, acreditamos em coisa demais. A noite entrevada mostra apenas uma luz acesa, que aqui da janela me faz querer constituir família e fazer sexo sem parar durante quatro horas com meu marido de dez anos, depois que as crianças finalmente pegaram no sono pesado. O ódio do sono, o famoso ódio do sono que dá nos bebês ansiosos para acordarem logo e observarem um pouco mais da existência. Um pouco mais das maçanetas, dos vãos geladinhos e confortáveis que só as crianças são capazes de desfrutar. Observar a cara de besta dos adultos que a essas hora já se esqueceram de tudo. As cores dos coelhos e girafas de pelúcia, o barulho da janela que se entreabre e briga com o vento a uivar lá fora. A risada alta dos pais enquanto jantam e ouvem algum disco velho do Erasmo. O cheiro da chuva nas primeiras horas do dia e o abraço apertado quase sufocante da sua mãe quando você começa a vida escolar. E a hora da preguiça no sofá, ainda com o uniforme, lendo um livro ou vendo desenho animado antigo, pescando de sono. Os lápis de cor e as canetinhas, o pé descalça o dia inteiro brincando de panelinha no quintal, a imaginação, a imaginação, os irmãos, os primos, os cachorros, as viagens, os esguichos, os lanchinhos e as pequenas cagadas e desastres inevitáveis aos descobridores do mundo. As broncas, os chiliques, o tédio, a ansiedade e os aspectos mais confusos dos primeiros tempos de vida em que se cruza o braço, faz bico e fica emburrada pra aprender que não se controla nadica, e o seu jeito não é o mais apropriado. As quedas, ahh, as quedas! Os joelhos eternamente machucados de menina fogueteira, o vestido todo sujo, minha mãe a perguntar todos os dias “…mas filha, você rola no chão?”, a cara preta da mão suja e suada no cabelo, na empadinha. As aventuras de Calvin e Hobbes, eternos heróis, o astronauta Spiff e os monstros escondidos pelo quarto. Fugir pelo menos três noites por semana para a cama da irmã de medo dos monstros nas prateleiras e de seu habitat natural, embaixo da cama, e ser recebida por resmungos “hha..nham...tá,dorme logo..hh” com abração quentinho de irmã mais velha. As adivinhações verborrágicas das músicas em inglês, verdadeira essência de Elton John nas longas estradas de agitação no banco de trás, ora rindo, ora chorando, ora cantando, ora sonhando. E a falta de noção geográfica “que cidade é essa?” no meio da rodovia, “faltam quantos minutos pra chegar?”de dez em dez minutos, e assim por diante nesse longo galope pela estrada colorida. A noite entrevada agora se ilumina apenas pela lua cheia, aquela luzinha já se apagou.
Eis a cidade que se movimenta devagar diante nossas almas de algodão doce, e esse clima sonhandinho…
Escrito por Camile Spring às 04h10
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Serra Negra, março de 1982

Dizem por aí que as formigas andam morrendo sem motivo aparente, dizem por aí que os olhos sucumbiram à formula e o coração à mente, dizem por aí que as garrafas de água foram afogadas porque, dizem por aí que a rua Augusta é o local mais gostoso para ver a vida passar, dizem por aí que as pessoas não têm mais a capacidade de permanecerem juntas, dizem por aí que esse cheiro de queimado na rua é da chuva, dizem por aí que as estradas litorâneas estão demolidas pelo cansaço dos jovens paulistas, dizem por aí que o lixo ácido matou o unicórnio que morava em saturno, dizem por aí que o pânico é o mal do século, dizem por aí que é incrível levantar da cama todos os dias, dizem por aí que as coisas que ficaram muito tempo por dizer na canção do vento não se cansam de voar, dizem por aí que arte contemporânea é sentida através de um curriculum vitae, dizem por aí que de repente algumas mocinhas ficaram chatas demais, dizem por aí que de repente alguns homens não têm medo coisa nenhuma, dizem por aí que os passarinhos andam caindo do céu, dizem por aí que as pílulas são o bem do século, dizem por aí que os telephones estão a venda na farmácia, dizem por aí que a anestesia emocional é a melhor parte, dizem por aí que os livros viraram enfeite na estante, dizem por aí que não existe mais tempo para revelar as fotos, dizem por aí que as famílias se desintegram desintegram, dizem por aí que os iates de South Beach estão a navegar no Arapiuns, dizem por aí que dor de amor quando não passa é porque o amor valeu, dizem por aí que a memoria é curta mas se controla o que acontece entre as gerações, dizem por aí que os cavalos estão chorando e não comem mais, dizem por aí que os alimentos não alimentam mais, Dizem por aí que você pega o trem azul, o sol na cabeça, dizem por aí que a infância é a única esperança da alegria, dizem por aí que os alunos roncam e sonham com fotografia, dizem por aí que desse jeito não dá pra seguir a vida, dizem por aí que o melhor mesmo é ser antiga.
Escrito por Camile Spring às 01h39
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Homem turquesa

Poderia ficar acordado assim, quieto, de olhos abertos. O tom torquoise daqueles olhos castanhos em algum ponto perdido da atmosfera aberta e livre, assim como as sanfonas que gritam a existência com o ar. Doces são as escadinhas daquela toca, aquela toca que ilumina os sonhos pelas frestas do céu, aquela toca que conversa comigo enquanto ele toma banho e pensa que eu não vou acordar nunca mais. Homem-fogueira põe fogo, faz fogo e toma vinho de capuz, não pára de falar, anda pra lá. Parte mais madeira com o tênis, ri, faz mais e mais fogo, me olha de longe e sorri e se senta ao meu lado e se levanta e me conta sobre dias fortes do passado, memórias guardadas há séculos em alguma gaveta esquecida no coração. Agora parece um menino de oito anos, agitadinho com a piromania que retorna depois dos anos que se passaram sem fogo, se cala. Sente o fio quente das transformações lhe percorrer a espinha, por onde começar? Onde estará seu balão, onde estarão as maçãs que caem todo santo dia. As cores, eu disse, eu sei que disse porque é assim, meu ampliador não possui filtros. Depois eu recuo dentro de mim mesma, dentro da minha cama negra, eu caço palavras que escaparam sem meu consentimento. Eu caço momentos de estranhamento entre os olhos fechados, entre os azuis e laranjas rosados que se abraçam na cama. Eu caço as sardas de homem do mar que se perde entre os portos e não sabe mais chegar em lugar algum. Mas vá, garota, recomece o sábado em algum canto mudo da cidade alta, de vista privilegiada para as calúnias emocionais, o discurso da abiogênese amorosa, o somos-amigos-que-delícia-beijar-seu-corpo-inteiro e etc... Aqui necessito ser antiquada, Let’s just kiss and say goodbye, mafriend. São essas tardes a la Barry White pra aliviar a ressaca sentimental e me fazer lembrar que entre nós há o tipo de relacionamento inviável a meus pulmões.
Escrito por Camile Spring às 14h21
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