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    Desconstruir a Existência


    Yatch, toujours avec mon père

    Do céu, se desdobra o intestino. A dor vem da barriga, mesmo que seja incrivelmente difícil identificar a parte física que dói. A dor não é física, mas o choro vem da barriga, de qual parte da barriga. Eu tenho uma barriga emocional. Eu tenho uma barriga emocional que arde, desdobra o intestino diante os céus, sobe para as costelas. E as costelas se abrem com força como nuvens que partem num dia de sol. Nada dói se possível agora, o agora possível é confortavelmente fresco, e o tom solene não se despega. Este tom solene poderia significar pleno descontrole sobre as palavras, sobre o espaço que me é disponível e as luzes do passado que brilham sobre o peixe e a tinta. Encontrarei então a luz perfeita para escancarar meu obturador embaixo d’água de terno, gravata. E salto alto para justapor aos leões do ano, o ano em que tudo começou.  O eu sonhandinho, eu sou quinze pras três quando ando séria, tão séria por fora, a casca dura e os pensamentos longe, quando não escrevo, quando não desenho, quando não posso fazer nada além estar viva e sentir a umidade universal e atmosférica dos olhos fechados e do silêncio das águas.

     

     

    Hei de alimentar o cão livre, o cão louco está quieto e assustado, deitado em um dos meus rins, e no momento gostaria de ajudar quem me pede, como sempre faço, mas no entanto necessito de atenção. Deu pra ouvir a tagarela impulsiva quando o objeto de atenção sou eu, não menos que atenção, é fácil estar na superfície, mas não pra mim. Pelo que consta, amizade não se cobra, se ganha com o tesão de uma tarde ao lado da pessoa mais bacana do mundo. Antes os encontros secretos eram com guarda-chuvas abandonados pelo asfalto e pelas árvores de São Paulo, eles sempre chorando me diziam barbaridades e também me faziam chorar. Os guarda-chuvas paulistanos abandonados não são tão diferentes de você, ou de mim. Agora eles sumiram, e eu sei o preço que paguei por não tê-los no caminho, ora, eles me existiam, você não vai saber. Porque as manhãs, sentada embaixo daquele moinho enorme chamado mundo se passaram, o vento girava o sonho de poder dormir sem chorar junto depois de tanta pancada na rua. As feridas abertas e o grampeador desesperado que fazia sangrar mais, mas aliviava quem já estava anestesiado. Ai ai ai, uma jovem antiga, ou de uma velha criança, algo assim me remete às músicas cantadas pelas mulheres que eu mais gosto. E as luzes que enfim se apagam, a noite cheirosa e sóbria, um vinho no máximo, e um beijo devagar. O frio na barriga de ansiedade, o sorrisão debruçado na janela desse comecinho delicioso de fim de ano. O aniversário do grande homem que me cuida, que me salva de todas as horas, saúde jovem doutor Sproesser, muita saúde.     



    Escrito por Camile Spring às 00h00
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