Intempestivo Tempestade (le printemps)
Abacaxis da Paraíba, suco de abacaxi pérola, abacaxi de qualidade, prova o abacaxi, abacaxi bem doce, vai experimentar, abacaxi pérola genuíno, abacaxi da roça, abacaxis, abacaxis.
Primavera pela rua até os interiores dos lares, alguém se senta a ouvir os seletos abacaxis brasileiros e seus caminhos tropicais. Um dia normal na vida de uma garota e o efêmero frio ensolarado que chega e parte rápido no ritmo atrasado do inverno em São Paulo são bons motivos para viver de tarde, no aprés-midi da existência. Mas é no aprés-matin e um pouco antes do almoço que na rua lhe cai titica de passarinho no pulôver. Titica vermelha de passarinho que come amora. Olha imediatamente para o lado e diz preocupada:
– deve ser amor.
Quem foi mesmo que definiu e qual o termo para as respostas encontradas depois do momento das grandes questões.
A bola quica e eu ... não rebato.
Das desavenças e a devida rapidez para formular boas frases no exato segundo. O atraso das soluções do pensamento, as imagens antes da linguagem, o tempo, o tempo. O ‘eu devia ter falado isso’ e o rastejo arrependido e inocente do olhar que não viu a tempo. Em Concorrência Desleal, filme de Ettore Scola, naquela parte em que ela diz irritada pra ele que não adianta mais ele saber o que falar, que o tempo já passou, e que --------- chama isso de --------. Acho que é Nietzsche?
E no entanto, eis a definição de impunidade
im.pu.ni.da.de sf (lat impunitate) 1 Estado de impune.
im.pu.ne adj (lat impune) 1 Que ficou sem castigo. 2 Que não foi reprimido.
Da negatividade quanto a não ser reprimido, a considerar a sorte. Se houvesse em algum lugar alguém impune pela vida (e não pela lei), alguns diriam sortudo, bom pra ele, ruim pros outros que são punidos. Outros diriam bom para os outros que são punidos, pois não carregam a obrigatoriedade de permanecerem “especiais” por que são impunes. Ruim pra ele, pois ele tem a tela, tem as cores, e agora precisa ser mais genial do que Velásquez e suas meninas.
Pois a sorte calculada pela vida teria influência da presença física e espiritual do bem afortunado? Que exercem poder psicológico pelo porte assim como os tiranos, já teria alertado Kafka em Carta ao Pai, creio eu. Ora, a repressão é dada pelos que pedem, dizem os reacionários. Ora, a repressão não há de ser justa, pois o homem deve permanecer livre frente às escolhas que faz e as conseqüências que estas implicam, entretanto a vida é justa, e a repressão dada por esta também deve ser. Ou seja, a repressão dada pelos homens pode ser injusta, enquanto os infortúnios ditos ‘naturais’, se é que estes existem, são sempre justos frente aos erros. Mas se os erros não fossem de natureza maldosa ou prejudicial, apenas de valores que desmerecem o esforço de outras pessoas, de quem é o erro, daquele que concede a impunidade ou do impune?
O que representa a obra de Godard na sua vida pode ser uma pergunta abertamente estúpida para uma sala de aula e a única resposta é “o único francês que me interessa no momento é Truffaut”. Vê-se aqui um exemplo claro de ---------, definido por ---------, quem creio ser Nietzsche, pois a resposta em questão foi ‘não vou falar sobre isso’. Então respondo agora a todos que não são a pessoa que me perguntou, que de fato o único francês que me interessa no momento é François Truffaut, a considerar o humor justaposto ao drama amoroso e a autonomia de mulheres lindas e espertalhonas com alguns homens sensíveis, diretos, nervosos, bem humorados e que não apenas andam, mas correm pelas ruas, como Antoine Doinel e a saideira L'amour en Fuite. Isso sim me interessa e não responde a nenhuma pergunta.
Godard teve razão quanto ao trunfo do imperialismo estético em decorrência ao econômico. Eu peço um lápis, alguém aparece com um cinzeiro, eu tenho vinho e peço água, me sirvo escondido de vinho no copo de água vazio. Alguém diz que o bar está fechando. A água está fechada, o bar está vazio. Vasculho a bolsa e acho o lápis, viro de uma vez o copo com vinho, apago o cigarro no cinzeiro e escrevo na parede
VOILÀ LE PRINTEMPS
Img// George Barbier
Escrito por Camile Spring às 19h35
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Coma Me
Encontramos deitados ao sol os corpos de um homem e de uma mulher. O homem, que estava deitado sobre o corpo da mulher, tem suas pernas entre as dela, e atrás de sua orelha o buraco da bala com sangue coagulado. Na têmpora da mulher, havia uma ferida igual, feita pela arma que ela ainda empunhava. A mulher estava deitada de costas, com as pernas abertas, e a saia levantada permitia ver a parte de cima de suas coxas. A cabeça estava virada para a janela que dá para o jardim. A morte foi instantânea, e deve ter acontecido por volta das 05:30. Considerando a posição de seus corpos, devem ter mantido relações sexuais logo antes de morrerem. (François Truffaut. La Femme d'à côté)

Das tardes, quem enxerga as linhas horizontais distantes que separam os amores difíceis, aqueles que não permitem aproximação, nem ausência completa. Os amores desmaiados, em coma, devem permanecer impassíveis após implantar secretamente um corpo estranho verdadeiramente incômodo na coronária circunflexa esquerda. São poucos os homens significativos, mas espalhafatosos, corpulentos, estancados nos sonhos de toda noite. Benditos sejam os sonhos que gritam. Malditos sejam os fatos que calam. Deveria haver o tempo passado por aqui, mas onde se encaixa, onde se encaixa?
Onde se encaixarão em mim, agora, os homens que vivem sem mim, mas que em algum lugar da história, sem mim não viveriam. Onde devo deixá-los, se o que se esgotou não foi o amor, mas as possibilidades inerentes à realidade. Será que a saudade será para sempre companheira dos anos e anos que disparam impiedosamente. Dos nossos dias não há meio de sentir falta, das andanças, aquelas danças no solo de taco-taco. O sol apino e o dia seguinte completamente desnecessário à existência. Mas os dias de hoje correm com mais força, com a minha.
Sozinha pelas notas agudinhas do piano me viro a mirar os seres ceifados, e por agonia três batidas em um mês, todos em mim. Andarei eu distraída e alheios os carros porram nas minhas laterais porque. Para onde tantas pessoas vão sem você. O esquecimento é uma saída sem volta e fica guardado na gaveta de emergência. A convivência é impraticável. Para os dois homens que amei demais, o coma é inevitável.
Coma advindo de traumatismo emocional, daquele tipo que não volta nunca mais, mas abre os olhos em resposta a um chamado, pronuncia palavras inapropriadas e possui flexão anormal e estímulos dolorosos. Especificamente, nível 3 na escala de coma de Glasgow, que define como coma profundo, 85% de probabilidade de morte; estado vegetativo. Mesmo se quem te ame esteja sempre presente. Antes de você. Antes de conhecer você. Mesmo porque só é possível gostar assim, depois de tanta, quando não faz mais sentido, quando o Adeus já foi dito e este coma vígil é irreversível,amém.
img// stephanie towell
Escrito por Camile Spring às 00h39
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