O moinho
Resistindo na boca da noite um gosto de sol. E não é mesmo que nada será como antes amanhã. Sem dormir, andei por muito tempo e parei certa hora, certa hora que um guarda chuva quebrado chorava, e não chovia, mas chorava, o choro do guarda chuva é a chuva ou são as lágrimas da rua que matam os ratos. E que matam os domingos quando choramingo sensível à morte iminente que é o amor, risos, óbvio que sim. E qualquer dia a gente se vê. Sei eu o quando tu odeias de verdade o descaso do qualquer dia. Mas hoje sei que nada será como antes amanhã, e nem pior, mas eu sinto sua falta. É talvez porque invento o cais, invento o mar, virei apenas alegria. Alegria macabra, quiçás sarcástica, doente, mas mesmo assim eu ando, eu ando pela rua, e olho os carros tristes, os carros, baby, são tão tristes.

Hoje eu lembrei, hoje sua mãe veio na minha casa. Ela veio e disse que mesmo correndo eu to mais gordinha. Eu ri, eu ri triste, porque sei que peixe bom dá no riacho, orgulhoso, camarada. Triste, porque ela me olhou com uma certa frieza que só o tempo carrega, a distância, os nós frouxos. Você some longe no trenzinho ao Deus dará. E eu, comigo rindo choro, eu sorrio andando por essas ruas iluminadas pelo céu lacrimoso que grita a anulação de quem perdido se arrasta e espera. A anulação dos homens que tristes, agarram o câmbio e a direção solitária de um carro nos retornos da vida. Nas curvas e equívocos no asfalto, ao longe me sinto no lugar, meus olhos perdidos em alguma gotícula nas nuvens chorosas de sãopaulo, eu estou no lugar, na contramão, meu lugar. E então estávamos embaixo de uma árvore encravada na sarjeta da Mourato Coelho, parados, rindo da rua. Apontei para a abertura da árvore que dividia seus galhos secos e eis que em sua dobra um guarda chuva nos observava assim, meio abandonado, meio bêbado, entorpecido como nós às sete horas da madruga. Naquele instante não pude sentir os limites geográficos do meu corpo, o que são minhas extremidades, o meu coração deve.
Minha paixão se instala nas pessoas e então me transformo numa adoradora de pessoas e cachorros. E sei a dor de me conter. Mas para quem quer se soltar, se soltar, invento o amor, invento em mim, o sonha dor. E talvez drogas menos prejudiciais que as tão a nós cotidianas. A droga de levantar, a droga de pisar num chão frio e oco todas as manhas porque existe um vazio imaginário que nos comanda. E comanda que levantemos. E comanda que olhemos para todos cantos menos nossas próprias mãos nas flores em volta dessa mesa no meio da rua. E essa rua não existe, porque não existe. E ponto. E quanto mais você anda, mais você anda e envelhece, a palavra é inacreditável. Não falo, como nossos pais, que hoje eu tenho que chorar. Porque choro na batida sísmica de todas as memórias a mim tão pedregosas, pois, segundo questionamentos que precedem minha existência, digo, vou fechar o meu pranto, vou querer me matar. E eu não quero ir andando pela vida me esquecendo de você. Pois isso minha mãe já fez. Minha mãe quis. Ela, ela quis, já não sei onde estamos. E hoje faço do meu braço o meu viver. E olha só, veja bem meu patrão, pra se soltar há de não mais pisar no chão, é, assim, a pensar, temos nós todos, contemporâneos da solidão mais generosa da história, acho que é amor.
As drogas nos encaminham a possível consciência de um vazio imaginário por mais concreto que seja, o concreto é de fato as memórias que tentamos anular durante anos! Durante anos eu soube que o amor é uma coisa boa e que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. E pode estar lá, no quadro que dói mais, no museu soterrado nos encontramos, paramos, nos olhamos. Depois de quase quatro anos de amor ao passado e destruição, necessito desdobrar meu rosto indignado, porque o guarda-chuva da vez está no lixo e chora porque eu não escondo os sentimentos. E caminho pela manhã sem haver dormido a ouvir que o mundo é um moinho porque preciso ver a vida cair um pouco a cada esquina, e prestar atenção que o abismo notável a mim eu própria cavei com os pés. Então pergunto ao passarinho black bird o que se faz? Black bird me responde o passado nunca mais. Passado onde, dentro de mim, dentro de mim, existem buracos sem fim, e que na verdade findam onde não entendo mais nada, no respeito às imagens do inconsciente, a essa gripe sarnenta que me põe deitada a ver navios.
Img//Kelsey Brooks
Escrito por Camile Spring às 16h34
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