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Desconstruir a Existência


Vulva lacrimae

O ditongo decrescente dói enlaça suas rendas agudas ao redor destas coxas como cinta-liga, último respiro da tarde na ponta dos dedos, Billie Holiday “too soon, too soon”. Absorta em vazios imaginários, penso em deitar-me com alguém rápido, e quanto mais penso, menos vontade tenho eu de olhar pro lado, caras, sapatos. Olhares sorrateiros cheios de tarifas altas a serem debitadas no brevíssimo futuro pós-coito, estará mesmo na hora de molhar o biscoito? Com efeito, há um intervalo invisível tragicômico entre estes lábios mal-beijados, de baixo, entrecortados, e o gosto de pêlos novos em carne, como virgens lânguidas e obviamente, atemporais. Ali pelo meio estremecem letras avulsas no líquido viscoso que jorra em barragens, delicadas cartilagens. Rosáceas as linhas de dentro, e tão sensíveis!

 

              

 

Laurets no país dos Baurets faz-me sorrir e ir além com tal brinquedo regalado às pressas na rua, e adquirido com louvor na ilustre Erótika Fair, yeah, amigo fino esse. E dizem por aí que o ano em questão não foi para a grande fornalha, está cru. Aqui, as antigas fórmulas matemáticas da ilusão não funcionam mais, de repente, estamos todos a sós, ainda que junto e misturado uns aos outros. Aqui, enxergamos de longe os frenéticos espasmos das verdades a nós tão relativas, e na maioria do tempo nos sentimos muito a vontade com o que se tornou o passar dos dias.  

 

Os desencontros vocálicos desfilaram furtivamente pelo caminho das lágrimas nas águas de março, peregrinação epidérmica por entre lamurias pluviais, sinais da cruz  e pernas de sorvete. Eis o mês que pereci verbalmente, calei-me em algum vão do teto com a parede, pequenina feito um atomozinho cansado de emitir energia para outros átomos bobalhões. Zanguei-me, fiz bico e cruzei os braços. Mas vejam vocês, meus íntimos leitores, que em virtude de haver uma confortável saleta nos interiores destes botões – com lareira, jaizz, almofadas coloridas, vinho branco gelado e amigos fanfarrões – sou só o entusiasmo de ir até o fundo do poço no baldinho. Porque alguém há de me puxar com a minha força, e as mãos, segundo Guayasamim, são sagradas. Permito-me, com a intensidade de mil fodas.

 

De volvida jazo bem aqui, pós silenzio pós marzo.

 

As águas me levaram pra longe, e pelo caminho das lágrimas fechamos o verão.

 

 

 

Img//Sylvia Ji 



Escrito por Camile Spring às 01h24
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