La Garta Tamborina
Dos lados juntados, dos pontos distantes e das curvas que separam os nós no horizonte, nos ângulos mais oblíquos e improváveis hoje é tempo de amor, hoje é tempo de dor em mim, eu vim de longe já não sei de onde é que eu vim, tudo é só amor, em mim, com estas barragens translúcidas de papel em branco, o eu, o ego, o ele, e o engenho criativo transfigurado em linhas infinitas no céu da boca, no mar da língua, nas cavidades listradas de um fígado cansado, nas cartilagens atentas, rígidas e rosadas nos aurículos que detém o poder auditivo de viver pra ouvir, ouvir e deixar as coxas se abrirem devagarzinho, desde a boca do estômago onde voam quantas borboletas vermelhas, que giram feito catavento, que pousam e fazem cócegas no seu nariz, que colorem os instrumentos de uma roda de samba das vontades sob os cuidados do dia seguinte, desde os tubos mágicos por onde transita a carne e o sangre alheio, que nos transporta a birita de cada dia, que absorve o amarguinho adocicado da ostia sagrada, o cipó, a folha e as águas escuras dos três rios, a coroa verde e vermelha, a larga bandeira, os dias mais verdes e triviais, eu vou só, eu vim só, de onde é que eu vim, foi de um tamborim

foi de um tamborim assim, menina, dança tamborina, de fita colorida, de morte e vida dançarina, nas manhãs que despencam do céu espanhol em algum pueblo cerca a Torres del Rio, Navarra, tabuleiro de Santiago, cem anos de solidão na melhor companhia, a ausência de gentes na fotografia, autofagia, passos preguiçosos pós fanfarra por entre pontes escuras e medievais, o vinho na bota, o sanfonar eterno de galegas grandes de tetas fartas e de sombras engraçadas, adiante a estrada holográfica conduz à vacas belas demais e seus sinos preguiçosos em cima do meu corpo que descansa no pasto verde, abraçado aos cogumelos, a fazer fumaça de olhinhos fechados, sussurando sonhos no compasso dos barulhinhos que balangam a existência paciente de uma bovina tamborina, a sidra dos deuses do leite, até o eu protozoária no deserto escuro dos teus lençóis onde me reviro e te procuro feito cão magro perdido
em caminhão de mudança, menina tamborina, os fantasmas de cavalinhos no meu peito correm livres e crescem fortes como a própria liberdade, saudade-brutalidade, mas são estes meus dois tornozelos queimados pelo sol brusco da faixa litorânea dentro da tua barriga que me conduz aos espirais labirínticos psicodélicos onde unicórnios roxos e dromedários verdes se escondem no jardim de artérias conforme minhas pernas se movem, o pisca-pisca breu luminoso não permite enxergar os espelhos de prata antigos demais, apenas os olhos vermelhos das corujas que um dia você desenhou e de repente, eu respiro.

Estou a caminhar descalça pelos glóbulos quentinhos da tua aorta, deito e rolo, me lambuzo nas poças verde água cor-de-rosa que abundantes me relaxam quando alegam pensamentos docinhos como caldas de amora, aqui estou eu, torpe andarilha, nega tamborina dos cabelos que voam na direção norteña, salve os algodões multicoloridos da Bahia, mas não me espere, eu chego lá, e os teus unicórnios assustados estão a sorrir ao meu lado, sou só, vim só, irei sempre só, só com você enquanto os dromedários acordarem cálidos e seguros para encontrar meus cavalos malucões quadriculados que correm pelo quarto desta rodada, pela praia enluarada, pelos orifícios escondidos do meu travesseiro que guardam longas-metragens no inconsciente do meu peito, aqui estou eu, de borboletas vermelhinhas na güela do estômago, as vacas e os sinos a tinir no céu bifocal que ilumina a revoada dos meus cavalos vestidos de camisa xadrez, no galope, abrem caminho na madrugada fosforescente de verão enquanto a lagarta se revira no traço da bêbada equilibrista que caminha agarrada à sanfona da zona apical à veia cava superior,

fui
Imgs//Nicoletta Ceccoli
Escrito por Camile Spring às 03h32
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