Adoración
Ladrões de verdade não invadem tua casa com galochas coloridas nos pés, borracha faz barulho. Como diz a morena colombiana dos largos olhos, que quiero de la vida, yo quiero vivir a la playa con mis amigas, los perritos y uma casita de palititos. Sendo assim, as ramificações mais latentes de uma vida podem ser vistas do quintal ensolarado de qualquer realidade brusca. E feia, e cruel, e mentirosa. Por dois segundos de cada dia, os olhos cansados de mulher-cosmopolita-é-o-caralho, vêem o mundo sob a sagaz ingenuidade de uma menininha de oito anos, emburrada e de tiara vermelha nos cabelos. Emburrada porque a vida de gente grande não funciona, não funciona e também porque os homens se tornaram muito tímidos ou muito metidos, ou mesmo proibidos, e as mulheres somos cada dia mui... Não, errei, perdão, há um oceano fúcsia de água morninha onde habitam fêmeas sensitivamente cruas e, em sua maioria de cabelos encaracolados e escuros, estas me fazem acordar feliz na maioria das manhãs . E assim o mais novo ano será festejado em Vênus, com negas que preferem a cor ao branco ranzinza do revéille du vieux.

Cotton Beach, algodões molhadinhos que aliviam a conjuntivite que insiste em avermelhar o salto torto e trôpego das noites arrestadas, não arretadas. Não acreditem quando dizem que é difícil, principalmente porque todos os azulejos velhos e estampadinhos de um sentimento são essencialmente interessantes, assim como a mentalidade de um homem que nunca cresceu. Não importa, eu tomo as doze saideiras na companhia que me empurra no balancinho azul claro do bar vazio que toca Michael Jackson por Miles Davis, as luzinhas verdes e vermelhas que piscam nos lábios macios de quem tem muita história pra contar. E conta até dez quando dança salsa, de bigodes divertidos e camisa xadrez véia. É o meu cunhado que vai ser papai, e eu titia cara de formiguinha, irei joga bola descarça na grama todos os dias, conforme o prometido, eu serei o arroto no fim do almoço do domingo, o palabrão mais grosseiro e proibido nos caminhos secretos do vídeo game de pijamas nas tardes entediarias das segundas. Adoración, Thilie, adoración, minha irmã, soeur, hermana, sista-brotha que sempre me arranca suspiros.
(Ay que bonito és volar, y a las dos de la mañana y a las dos de la mañana, y ay que bonito és volar ay mamá, volar y dejarse caer en los brazos de tu hermana, y en los brazos de tu hermana, Y hasta quisiera llorar.)
Img//CSproesser
Escrito por Camile Spring às 04h19
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Casal Garcia
(para Maria bonita L Zioni)
Sabem os cavalos soltos da liberdade, e o ciclo das orquídeas que abrem a boca e dizem tanto sobre as dimensões da eternidade. De dentro não voam adagas, ali, as mágoas se tornam pequenas teclas de piano que só falam quando meus dedos as tocam, e a melodia é bela, e assusta. As perguntas formuladas por gentes que sempre perguntam são banais, o costume veste bem a humanidade, mas o experimento da vulnerabilidade emocional, mesmo peligroso, é estimulante e vale esta vida. E desperta muitos amores. Os fantasminhas de filhotes de cavalo habitam meu quarto, não são pôneis, são muito amorosos, mas estão no período de se erguer, tremedeira nas patitas, o que de fato é muito engraçado e me faz sentir feliz, enquanto Siena e Bianca cantam embaladas por uma grande harpa. No teto, o céu mostra caminhos cor-de-rosa e azul fosforescente, período em que o uso das lâmpadas é arbitrariamente proibido chez moi.

Para sempre estarei ao lado de Maria, posição onde finco os pés – na grama orvalhada das eternas madrugadas que nos abraça aos risos, sarros, e passinhos de dança engraçadinhos. Aqueles passarinhos nunca abandonam o farelo colorido em cima da pia, docinho, o sol chega sempre tão completo, e as sombras da manhã são avulsas, difíceis de descrever. Porque mesmo quando você ta tristinha, ou calma demais, eu ao teu lado enxergo Maria, eu enxergo teus pensamentos de mulher que ama e sente dor. E tem pernas longas de dona de casa e de coração, de sede gostosa que morre com a cerveja gelada de alguma esquina da pompéia, esquina mutante da cidade, onde você senta com sua berma de perna aberta princesa, rainha. Árvores... as árvores ouvem tudo tranquilamente, e depois olham-se entre si com a sensação caseira que em tarde satisfeita, limpa os sapatos do marido sorrindo pensando como é gostosa a comida feita pelas mãos que refogam o tédio do domingo com uma careta musical, os pequenos cavalos estão levantando. Eles são fortes, e querem correr pela casa inteira! Meia-noite, o futuro carregamos na carcaça da saia, vai Maria, dança com a parede que eu te entendo. Nega, olhe nega, eu seria a tua mulher, mas sou tua mulher, tua confabulosa formiga que carrega a folhinha nas costas quentes e abertas, é quase meia-noite, eu vou na cozinha e faço teu sanduba, eu ponho a água pra ferver, eu ponho mostarda francesa, eu pego o prato e ponho na bandeja, Casal Garcia gelado na tua costela em forma de taça, você dominhoca precisa só esticar o braço e mastigar... Eu, ao lado, devaneio deitadinha na lua clara, excitadinha, vivendo intensamente no mundo dos sonhos mais legais que ocorrem vez por outra. Não guardo teu sono, porque ele guardado é vermelho, e o semáforo em questão está sempre no verde, lembra dos cavalos que não trotam, mas galopam desgovernados pela terra batida de uma estrada erma erma erma. E eu amo que você seja alguém que me diz coisas, ninguém me diz praticamente nada, você Maria, me dá a letra. E você, Maria Bonita, eu, Lampião, mulher peba emocional, menina-cão no trilho do trem azul, o sol na cabeça na mira de teus olhinhos sinceros a piscar piscar, pisca nega, sangra, vive, vem. Vem cá depois do susto, eu to aqui, do teu lado, deitada de barriga pra cima olhando tuas pintinhas de mulher de 30 anos. 30 anos de Maria, cangaço casal garcia, trinta de Maria.
maria vê isso aqui
Img//Yuka Yamaguchi
Escrito por Camile Spring às 08h09
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