Circa Merita

Contar até dez, conter o quê, conter por que, se a sentença final de qualquer baralho é uma só. Embaralha vai, embaralha bem baby, faz maço, tenta me enganar. Eu ali me sento de perna aberta e de rabo de cavalo, bem ali, no meu eterno trono de pedras duras e neandertais. Ah sim, e sorrindo pra ti, assim como as formigas que comem as baratas e depois, operárias satisfeitas, constroem castelos e calabouços. Tsc, tsc, viemos, vimos e até viríamos, mas dúvida não nos resta, meu senhor. Junto veremos jamais as ventanas abertas às sinceras brisas que movem as ondas do mar e marcam o compasso sísmico das placas tectônicas do coração.

Tsc, tsc, rogo-lhe pela última vez, sem a lacuna da tua presença, sem ultrapassar as cúpulas barrentas e tristonhas que guardam tua alma, sem tuas carolas miradas aos meus ombros largos e caídos, entorpecidos pelo baixo astral constante das tuas palavras decifradas em segredo. Rogo assim, baixinho – este barulhento silêncio emitido pelos calos de minhas cordas vocais, este sim é a sua salvação. Prometo silenciar, prometo sair de qualquer lugar, prometo ser o vácuo na convenção dos olhares encontrados.

Mas hoje, com veemência, creio em não recorrer às redundantes ampulhetas da elucidação. Veja bem, não abrasemos ainda mais nosso tempo, não há o que ser dito. Eu hoje, com veemência, firmo o contrato da tua omissão, validado pela tua desonra e consolidado formalmente pelas tintas coloridas do infinito. Tsc, tsc, devoção é o meu caralho latejante, esta bronca vívida que arrastas pelas sarjetas superficiais da tua eternidade em frangalhos, sabemos tanto! Eu, você e os fios imaginários dos esgotados telefones móveis, pela última vez, não me invada com esta combinação de algarismos apagados, nunca mais, deixe-me dormir em paz.

Esquartejei-me as pernas de plástico que cambaleavam na estrada que, entre outros embustes, me encaminhavam ao teu peito. Daqui em diante, bem aqui no tronco que sustenta minha árvore, sou solamente coxas, sobre-coxas, joelhos, panturrilhas, tornozelos, ligamentos e sangue, muito sangue. Hoje eu ando, e respiro muito mais. Hoje ainda não me contenho, mas seguro a onda e a liberto apenas no sol tinindo trincando as cores de alguma capelinha recém enfeitada nos confins da Bahia.
Img// Jennybird Alcantara
Escrito por Camile Spring às 16h16
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