O Mastodonte
Do alto, o vento rosna como cão enviesado e cala a noite adentro, céus, quanta gente pelas ruas a falar a rir a cair a tapar os agurreros do ego, o cego, enxergaria algo fora do eixo pastoso cefálico nasal que jamais cala. Jamais, pessoas da salá de jantar muito ocupadas em nascer e morrer na melhor cidade damérica do sul, pois não. Será este sono denso regido pela precipitação atmosférica de início de fim de ano, pancadas pluviais nos trópicos do peito, lusco-fusco fresco à beira do leito, meteorologia dos sonhos que me projeta pra longe da capital. Hoje, recordei-me. Antes de boiar neste oceano holográfico de mastodonte manso, porém faminto, não estava acompanhada do cramulhão monstro-amor que me arranca as pétalas, mas me resguarda feito anjo da guarda.

Sim, eu átomo, eu célula, eu pêlos nas axilas de fêmea-bicho, eu frágil como bala de revólver, eu acordada penso em dormir. Corro perigos, corro deitada, corro de quem me quer. Quer o quê mesmo, quer o que eu não dou porque se tive algo foi dar dor. E não me venha com esse quebra-cabeça estúpido de querer juntar meus pedaços. Deixe-me quieta, deixe-me deitar sem enxergar as três bestas na parede, não me chame, não me chame, e não pense assim, tanto em mim, se provado já está que me podes bloquear. Apenas não entendo teus motivos, mas veja só, meu apego à tua luz é amor, amor à ogrice que me livrou da egrégora vampiresca que há algum tempo me violenta. Hoje, recordei-me. Antes de boiar neste oceano holográfico de mastodonte dócil, porém faminto, o lar de madeira desabou sob meus tornozelos e deixou destroços de meus cãezinhos semi-abandonados, todos meus pequenos filhotes mortos baixo os escombros da minha desordem. Agora, posso senti-los correr no gramado vasto de algum sonho de criança.
Img// Silvia Ji
Escrito por Camile Spring às 22h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|