El Muerto
especial Día de Los Muertos
De onde o corvo acuado num galho pútrido pode nada, olha fixo e cisma, para a desgraça da criança sentada embaixo da árvore do cemitério. Quem jamais foi respeitado por uma mulher, meu caro defunto, não há de compreender as notas aliteradas do respeito, isto, efetivamente, não é para todos. Vai, dissolve na cerveja choca que rege teus dias mais felizes o gozo pleno da menina nos teus inferiores, vai, você sabe como é baby, o vagabundo sou eu.

‘Morreu Tarde Demais’. Eis as tuas derradeiras palavras, gravadas na lápide incendiada à gargalhadas, enfim estou viva! Tocou-me pouco tempo para constatar que eres tão ruim quanto o inimigo, mas um pequeno detalhe me escapuliu! Oh, quando olhei pro lado, a obviedade melancólica que entupia tuas intenções me reviraram o estômago, surpresa surpresa! Pessoas me contam fatos inflamados, pessoas me chamam louca, mas estas pessoas morais danam-se sempre! Eu, lá de baixo, logo vi O Estorvo – e muito além de tu, homem-diamante que inspira paz desde longe das crostas peçonhentas da Paulicéia – mas não fugi.
Ali, pérolas ao porco foi, como sempre, meu barato maior. Ah, arrodilhada eu, rodas, rodilhas rodadas no xiqueiro febril onde, antes de morrer, nos montamos no leito, depois da histérica simplicidade de curtir uma noite juntos, cachorro-quente, coca-cola e O Circo, de Chaplin. E que circo pra se morrer em preto e branco, gangrenado pelos vermes da terra que mastigaram seu corpo de velho antes mesmo de você estar finado, desde sempre, decomposição precoce. Morreste tarde, meu querido, morreste tarde e sem respeito, só o meu que levaste junto a ti.
Img// Stephan Doitschinoff
Escrito por Camile Spring às 17h23
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Manifesto da Antropofagia periférica

Sérgio Vaz
A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula. Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.
A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar. Do teatro que não vem do “ter ou não ter...”. Do cinema real que transmite ilusão. Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras. Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Da Música que não embala os adormecidos. Da Literatura das ruas despertando nas calçadas. A Periferia unida, no centro de todas as coisas.
Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala. Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala. É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução. Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural. Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles ? “Me ame pra nós!”. Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.
É TUDO NOSSO!
Sérgio Vaz Cooperifa
Sérgio Vaz é http://www.colecionadordepedras.blogspot.com/
Escrito por Camile Spring às 23h46
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