Desvio

Mesmo que você estivesse aqui para ouvir, é difícil refletir em pensamento o que é ferida viva, eu, vulnerável, você sabe como são esses momentos em que olhares se cruzam e os dias passam nus sem distração, você sabe o que é acordar e não levantar jamais. E essa carne viva não cicatriza, sento-me em algum canto e minha cabeça começa a pesar pra baixo, sempre tem alguém falando algo que realmente não importa e eu, de olhos fechados, não consigo levantar mais, e nem dizer qualquer coisa. Estou absorta e nula em alguma camada dentro de mim, e sinceramente odeio subestimar qualquer pessoa, mas veja, porque todos falam sem parar? E mesmo assim, com tantas palavras altas e corpulentas, a humanidade não funciona. E porque, depois de anos de luta, o mundo sucumbe para viver na superfície retangular entre limites impostos por poderes ultrapassados, engessados em interesses ilusórios de uma essência meramente estética. Estética de riqueza, estética de bondade, estética de arte, estética de maldade, estética de felicidade, estética de loucura, de feiúra, estética de miséria, estética de certo e errado. Estética de rua. Estética de fidelidade. Estética da fuga. Estética de liberdade.  Você não está aqui para ouvir, e creio que nunca estará. Tal ofício apenas funcionaria se eu acreditasse em manchetes que estampam as páginas do ego de uma espinha dorsal ignorante e manipuladora da sociedade brasileira desviada. Como não acredito, o jornalismo não funciona. Haveria ainda a possibilidade de usar as ferramentas da paciência e do conforto para driblar o semblante clichê reacionário e criar um personagem representativo da boemia-média trabalhadora e pensante de uma classe livre e moderna. Isso pagaria as contas, a birita e minha destruição, ainda que meu ego estivesse nutrido. Não acredito em veículos de comunicação, como não confio em pessoas que não conheço bem demais. Faltam falsas crenças para seguir na indústria da (falha de) comunicação no Brasil, onde ninguém coloca realmente o que pensa, onde ninguém se arrisca a dizer palabrotas descascadas do medinho da firma que lhes representa, e onde intelectuais sufocados pelos nós de suas gravatas milionárias se orgulham de dar as graças nas mesmas páginas que bonecos infláveis – que enchem, enchem e estouram em nossas cabeças quando decidem incomodar e publicar suas picuinhas óbvias representantes da síndrome de down do high society.  Abaixo às páginas queimadas do jornal brasileiro, verdadeiro hospital, porta-voz do bangue bangue, da polícia central. Onde o que importa é mostrar camadas de realidade cada vez mais longínquas do problema, o desvio, a constatação alucinógena da barreira geográfica entre pobres e ricos, a ilusão de felicidade instantânea da fama, das capas de revistas que subestimam nossa inteligência, dos felas-da-puta marombados em seus carrões barulhentos e efêmeros, como seus músculos. O desgraçado do apresentador que dá mil reais pra quem acertar a bola no arco, humano-macaco. Bomba nele, bomba no Rolex dele, pra ver se aprende os diversos tipos de diversão além de tirar onda da cara do povo. Você não vai saber, mas queimei a largada, tédio, minhas amigas que assistem novela, o eu mais radical que os meus 22 anos comportam no fervor da minha testa. O que fizeram com as pessoas? Pra que elas sintonizem seus rádios no trânsito desgovernado da cidade e se atenham a escutar produtos grotescos de uma indústria musical semi-falida, essa música não é pra pessoas, e nem para animais. O que fizeram com as pessoas para que elas finjam não ver uma agressão na rua a ponto de passar reto, é medo ou covardia a passividade da população perante a violência? AYUDA JUSTICIERO E temos todos cara de palhaço para sucumbir aos desejos putrefatos de veículos que dirigem uma multidão sem alma ou coração, do rádio, da televisão, das revistas, dos jornais que abanam a fumaça de um vulcão vivo da sociedade, do cínico desvio das veredas da realidade.

Img// Scott Tradke
Escrito por Camile Spring às 23h34
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