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Desconstruir a Existência


Mulher-cão (mujer perra)

A geladeira onde estou fica onde? Não me lembro de tê-la visto em sua cintura de homem descoberto, muito menos nos caminhos labirínticos das tuas costas. Nem no reflexo dos fios grisalhos enquanto dormias, sem a mínima chance de saber o quanto lhe cai bem a velhice. Velhice-infantil, nossas pipas completamente soltas no céu de anil. Mas veja, os homens mais interessantes que já me ocorreram não passam de criancinhas saborosas e travessas que adoram brincar de viver. E se mostrar. Ou se esconder. Conto até doze e me encubro entre as curvas da estrada de Santos. Mas ele sempre me acha, e com a astúcia característica de um menino de oito anos, aos quarenta e tantos, me devora como a um algodão doce de 1,73 m. Sensacional. Además, por homem bom não se chora, se ri. Por homem bom não se fecha, se abre. Do homem bom não se cobra, se dá. Com homem bom não se irrita, se brinca. Homem bom não se teme, se enrosca. Mulherzismos e chatices ficam pra trás com estes belos rapazes de trinta e poucos anos, prontos para olhar no fundão dos teus olhos e dizer qualquer besteira despretensiosa (e até ingênua) para te arrancar um sorriso. No momento, precisamos de um impulso maior do que o tedioso conforto de uma relação duradoura.

 

                 

 

Somos mulheres-cão e não mulheres-gato. Não miamos, mordemos. Não nos escondemos, estamos sempre por ali a abanar os rabos, instigadas por uma passeada que nos renda cerveja gelada e um bom papo-cabeça, sem esperanças. A esperança é o ideal de um futuro almejado no presente, furada, é hoje. Somos as melhores amigas dos homens, o que não lhes dá direito de nos tratar como homens. Somos vira-latas, não usamos relógio, suamos na pista até a derrocada física de nossas coxas cubanas, e dormimos tão bem sozinhas! Somos mansinhas em tempo integral, mas cuidado, lembre-se do instinto violento que move o animal na hora de abater a cabeça dos ratos. Somos distraídas e desajeitadas, perdemos nossos ossos em qualquer buraco, mas sentimos de longe o cheiro do invasor. Somos justas, fugimos de casa apenas quando nos sentimos livres o suficiente para isso. Somos leais, sobretudo à nossas próprias ganas, orgulho de não haver qualquer mistério em nosso olhar canino.

 

 

Img// Paula Rego 



Escrito por Camile Spring às 18h21
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