Salgueiro Chorão

Pela falta de luz no prédio, subiu os doze lances de escada com as compras do jantar nas mãos. No momento em que virou a chave e abriu a porta, pôde observar que em sua vida nada mais importava, nem mesmo as sombras dos livros espalhados pelo chão, completamente tortos pela cerveja da madrugada anterior. “Tudo bem, eles também bebiam. Não precisam nem agradecer seus vermes letrados”. Deixou as sacolas de papelão em cima da pia de mármore branco e se atirou no sofá, enquanto lembranças incrustadas nas profundezas do tempo refletiam como retro-projetor nos enormes paredões que guardavam sua memória. Vestido vermelho de algodão, vista da enorme janela para um salgueiro chorão, olhar para trás, um homem que sorri tranqüilo quando encontra os olhos alagados daquela menina que não quer voltar. Nesse minuto, a menina limpa os olhos e foge em disparada, passa pelo homem, que se vira atormentado. Desce as escadas, empurra a porta de vime e adentra o bosque. Milhas a frente, ajoelha. Grita NÃO para as montanhas, que lhe respondem no mesmo segundo: NÃO. Grita de novo, agora repetidas vezes até perder o fôlego, NÃO. E as montanhas lhe contestam a mesma negativa. Sem saber ao certo onde está, cai na grama exausta. Fecha os olhos. Ouve palavras confusas e distantes, um longo e estridente gemido de animal. Abre os olhos. Está encharcada de suor no sofá, a luz voltou.
Escrito por Camile Spring às 00h28
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|