Colagem
Diante dos maus assombros deste clima semi-vertiginoso nos trópicos emocionais, não houve meios para ignorar a tirania adimensional que invade minha personalidade. Ninguém põe flores na tumba da flor, cantou T.Waits no momento que apenas existiu porque a tarde e suas luzes labirínticas invadiram as frestas da janela daquele apartamento no centro da terra, ninguém viu, ninguém mesmo, mas o breu não era no quarto. Era no coração, que como toda brasa vira carvão, não há meios de percorrer esta estrada com tranqüilidade. Vai doer, e eu pensarei sobre o assunto apenas quando estiver morto e sepultado no asfalto sujo desta humanidade medíocre, que bela apenas de verdades efêmeras, de nomes na areia e de virtudes alheias. Minha vida não é só minha, para o desequilíbrio de meu egoísmo cristalino, vejam só meus amigos. Odeiem-me, não contem comigo, eu reabro as feridas mais purulentas para salvar-vos de qualquer movimento de aproximação da minha pessoa. Odeiem-me, poupem suas meias-patacas, comigo não há boas ilusões, nem paciências, nem compaixões. Não sou capaz de ir muito além de minhas vontades, estas seguidas à risca do tempo, por suposto não espero para agir e defecar sobre as horas de quem quer que seja. Infelizmente, devo ainda frisar minha dificuldade com personalidades essencialmente misteriosas, como as mulheres, por exemplo, ou os gatos. Tal categoria de comportamento me entedia pela impressão de ser contida por demasiado, eis a questão. "Se conter não é tão bom Pra viver, pra morrer" diz um verso de Colagem, canção cuja porta-voz foi Elis Regina, moça que juntou os pedaços do que vem a ser um grande alívio nesta vida . Não estou sozinho .
Colagem
Se você com muita calma usar sua raça Vai surpreender A surpresa para muitos é uma arma Pra se esconder
Se esconder não é tão bom Pra viver, pra morrer Se você lembrar que tudo é relativo Vai compreender
E a compreensão por vezes tão sensata Vai lhe conter Se conter não é tão bom Pra viver, pra morrer Pra viver, pra morrer
Se você tentar despir essa colagem Vai se perder E a perda de si próprio é quase um passo Pra conceder
Conceder não é tão bom Pra viver, pra morrer, pra nascer Somos homens sem lugar Homens velhos com raça
À espera de algum descuido E com cuidado gozamos paz Somos homens bons demais Sufocados pelo mal
Só queremos acreditar Que isso tudo Pode acabar
(letra:Cláudio Lucci)
Escrito por Camile Spring às 01h14
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