Revoluteio

Após as graves investidas aos subterrâneos da noite e as incansáveis visitas ao fundo de minas escuras, submergi indiferente e suja às sarjetas desta vida comprida. Foram me buscar em seguida, e no entanto já havia dito que não sei rezar, apenas ajoelho em qualquer formigueiro e sigo torta cortando os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos e dos receios, além de dizer Adeus (mais uma vez), dar as costas e caminhar, decidida, pela estrada que ao final vai dar em nada, nada, nada, nada e nada que eu pensava encontrar. Mesmo assim me trouxeram de volta, na tristonha companhia dos limites físicos, que pungentes se riam da minha condição de questionar esta existência dia após dia, o que, depois de algum tempo, me fez perder a linha de uma vez por todas (mas esta é outra história). Com efeito, continuava eu sentada com minhas pernas abertas, fixada na melodia que saía da sombra refletida numa das curvas da parede, minhas mãos não se mexiam e percebi que estava sozinha. Todas as memórias haviam sumido - eis então a verdadeira solidão. Estava amarrada, mas sem medo, como se meu vilão não me fosse digno de respeito suficiente para qualquer temor. Aí então, livre de qualquer saudade, lembrança, aperto ou receio, fechei os olhos e entrei pelo vento no trem azul, fui-me embora com o sol na cabeça. Na próxima parada, saí para tomar ar já que os cigarros não podiam fazer mais nada por mim, o dia estava fresco na montanha, sentei na beira de um velho banco de madeira ouvindo as coisas que ficaram muito tempo por dizer e que na canção do vento não se cansam de voar. Assim fiquei durante os próximos dois anos, o sol na cabeça. Hoje estou de volta, mais uma vez, ávida por não destruir tudo tão rápido. Sem mistérios (como todas as minhas amigas), continuo indiferente sem entender que diabos estou fazendo aqui.
Escrito por Camile Spring às 15h36
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