Zero

A visão desfoque alcança apenas o amarelo desbotado do vestido daquela menina que ri no gira-gira da velha praça localizada em algum lugar do tempo que não viu passar, fala latim e chora feito cão atropelado. Um casal jovem demais não imagina que aquele distinto senhor tem predileção por mulheres gordas que falam alto e riem de suas pernas disformes todas as noites, bêbadas antes do sono curto. Sente saudades do pai enquanto caminha sozinha pela Plaza Cataluña de mochila nas costas e fones no ouvido, deita na grama, vê a tarde passar na companhia de algumas cervejas, pega o metrô uma hora atrasada e assiste ao show do Fantômas com um novo amigo que nunca teria entrado no mar se não fosse por ela. Ele curte masturbação e vez por outra pensa que as mulheres são como jardins, lindas pra quem vê, entediantes pra quem fica. Chama-se Tainá, tem a pele jambo, os ombros largos, o busto delicado e é aficionada por literatura russa, todos a desejam, homens, mulheres, porcos, macacos e girafas. Senta à mesa com dois amigos tagarelas, mas não ouve nada, observa a chuva através da vitrina e se dá conta que não ama mais o homem que acabou de casar, volta pra casa rápido, faz uma pequena mala e vai pra puta que pariu. Compra cinco papéis de cocaína e desce a Rua da Consolação de salto alto, entra no primeiro bar, senta, passa batom, levanta, vai ao banheiro, prepara a droga, atende o telefone, grita VOCÊ É O TUBO!, joga o celular na privada, cheira o pó, dá descarga e sai daquele lugar nojento. Jorge dá um tapa ardido na cara de sua amiga Clara, que tem um ataque de pânico ao encontrá-lo aos beijos com seu filho mais velho na Alameda Franca, às 02h36 da manhã de uma segunda-feira. Pedro manteve relações sexuais com a vizinha durante sete anos, quando ela morreu, ele se separou da mulher.
Escrito por Camile Spring às 18h52
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