Racionais X Irracionais
A caminhada do Largo do Paissandu à Praça da Sé, na Virada Cultural, foi brilhante. Ver as ruas do centro finalmente povoadas às 02h50 da manhã, horário que consegui correr do Skol Beast, foi a glória. Na companhia de um amigo, passei pelo palco de dança lotado, com direito à aplausos e gritos para a dupla de tango que acabara de sair de cena. Em meio ao calor insuportável do fuzuê trance, atravessamos a rua do Comércio aos risos, comparando o evento ao carnaval do Recife e parando pra conversar com desconhecidos que estavam por ali. Chegamos no palco da Sé umas 03h15, caímos na galera pelo lado direito e subimos até dar pra se mexer e ver alguma coisa do palco. Tinha muita gente: famílias, manos, tias gordas, crianças, mendigos, playbas, meninas, velhos... Diversão garantida pra todos, “até que enfim”, pensava eu.
Na maior interação com a mulecada que nos cercava, vimos o começo do show na maior tranqüilidade praticamente embaixo da banca onde tudo começou. Pelo contrário do que as reportagens que estampavam as capas dos tablóides afirmaram, as pessoas não estavam nervosas pelo atraso. Quem se dispõe a ir ao show dos Racionais na Praça da Sé às 03h da manhã sabe que os caras atrasam sempre, já é tradição. E tudo bem, as pessoas estavam felizes.
A primeira vez que vimos uma galera subindo na banca achamos graça e ficamos tirando onda. Da segunda, a banca estava com muito nego em cima, eu comecei a ficar preocupada se os meninos caíssem. Da terceira, vimos que as pessoas estavam subindo no parapeito do prédio ao lado. Uma pergunta básica: porque os policiais militares não contiveram o pessoal e cercaram a banca da primeira vez que alguém subiu, como em qualquer outro lugar do mundo um policial decente faria? Eis a questão.
Da quarta vez, só vi pessoas caindo à cacetadas no chão. Os polícias já estavam descontrolados dando surra nos muleques. É óbvio que a multidão que viu ficou irada e começou a atirar garrafas de plástico em direção aos policiais que agrediam a população. Mas esse foi apenas o começo.
Nesse momento, fiquei assustada e perguntei ao companheiro se ele não topava adentrar a multidão. Pronto, depois de um suado rolê estávamos no canto direito colados no palco. Depois de 10 minutos, a multidão caiu em cima de nós, pedíamos “calma”, mas a galera entrou em pânico quando saiu o primeiro tiro. Com centenas de pessoas empurrando, demos de costas para os ferros que guardavam a área restrita do palco, que caíram e eu definitivamente fiquei com medo: “cara, fodeu de verdade”, “não fodeu”, “fodeu sim”. Não conseguia ouvir nada que o Brown falava, só ouvia o barulho dos ferros caindo, bombas e tiros. Olhei pro lado e pensei que se empurrássemos mais, o andaime com as caixas iriam cair, e daí sim teríamos uma carnificina.
Pulamos os destroços numa verdadeira barricada e corremos pra Igreja da Sé, onde já havia uma galera bem nervosa. Daí em diante, os tiros e bombas se agravaram e eu perdi o chão. “Quero um táxi, vambora agora, preciso de um táxi”, meu fiel amigo a essas alturas já dava ombreadas, barrigadas e pontapés na porta da igreja, no saudosismo da proteção dos padres na época da ditadura militar “vamo invadir a igreja! Vamo entrá na igreja!”. Mas a porta nem se moveu. Quem nos acalmou foi alguém que pela familiaridade ao caos, estava tranqüilo. “Calma aí, minha gente, daqui a pouco passa, nada de táxi, os arredores agora são o inferno”.
CENA: como um oásis no meio do inferno, o palco onde se apresentava o Racionais MCs abrigou grande parte do público. De onde estávamos, víamos os lustres antigos da Sé, Mano Brown cantando em meio ao caos. Ao redor, tiros, bombas e gás lacrimogêneo. Gritos e choro. A polícia militar contra o povo, mais uma vez. Parou o som. Depois de um tempo, aplaudimos os policiais, que obtiveram sucesso em seu objetivo principal: acabar com a alegria de milhares de pessoas, mostrar poder contra o povo, ferir as pessoas e ainda sair como “herói” nas reportagens contra os “baderneiros”. E as pessoas ainda acreditam nisso. Se fosse qualquer outra banda seria outra história, a PM precisava de qualquer motivo pra atacar. Bastou uma mulecagem.
Conseguimos deixar a porta da igreja sob a tontura e mal estar lacrimogêneo, subimos correndo em direção ao bar estadão com centenas de pessoas. Nas ruas, muita gente com raiva e confusão. Raiva de não poder ser gente, de não poder se divertir. Aí quebram tudo, como resposta às agressões da polícia. Não é difícil de entender.
Mas a tristeza que fica é de querer sumir, com tanta superficialidade, incompreensão e distorção da imprensa. Pra quem tava lá na roda foi tudo muito injusto, os policiais nunca poderiam ter encostado no povão. Daí todo mundo se indigna com um PCC da vida... Tudo errado.
Mais aqui: http://ponteaereasp.nominimo.com.br/?p=506
Escrito por Camile Spring às 18h39
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