Vida, a minha no pântano
Dia de sol no pântano, entra devagar na água. Molha primeiro os pezinhos nus como seu corpo, sorri como menina travessa e mergulha. Nada por entre bacopas, cabombas, hydrocotoyle leucocephalas, hygrophila corymbosas, limnophilas e mayaca fluviatilis, que massageiam sua derme macia como um animal que se finge de morto. Submersa, abre os olhos pra não enxergar, sente o musgo de uma vida queimada até a última ponta e grita muito alto. Solta dores de humanidade nas bolhas de lama.

Sirenes incessantes na Rua Teodoro Sampaio; carros entulhados no Largo do Arouche; garrafas quebradas em poça de sangue domingo de manhã na Fernando de Albuquerque; cheiro de terra diesel dos caminhões em frente à construção de prédios neoclássicos de Moema; verde-água desbotado no blusão surrado do pivete que dá um bode depois das doces alucinações da cola na tetinha, mãe da infância de rua; lembrança de dejetos que pairam sobre o Pinheiros como cenário para tantos outdoors de propaganda política, coisa linda; olhar de marrecos esverdeados de óleo do parque do Ibirapuera; lares boiando em tempestades de chuva-ácida, o surfe caótico do Santo Paulo; ar quente grudento e azedo dos metrôs, os verdadeiros ratos da cidade; queda em teia de fios elétricos e antenas telefônicas que sustentam tantos sonhos; pau duro dos cães fardados quando dão baculejo nas coxas dos meninos na Estação Ana Rosa; visão de milhões de pessoas asfixiadas em seus carros, câmaras de gás sob quatro rodas.
Emerge leve nas águas lamacentas, olha longe. Respira o alívio de não fazer parte.
Boia para os interiores da lama que nutre seu âmago.
Corpo de Hidra de Lerna, vida de flor no pântano.
Escrito por Camile Spring às 17h28
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