Flores horizontais, escuras flores puras, putas, suicidas, sentimentais
No pogo, digo que te fodas.
“saia do meu carro e não me procure nunca mais”.
Falsetes nos pneus, arranco na manhã chuvosa que às pressas se arreganhou depois de extravagâncias, jangadas furadas e muita cachaça. Como um perro, me mando aos soluços pro velho hall, sarjeta suja do coração. Toco a campainha e caio como um rio no abate do tempo. Nada.
Inclino os pés nus para colorir a campainha de carvão, soa besta, como um lamento. Nada de novo. Pego o telefone e digo-lhe que venha logo, por favor. Adormeço babando no jornal de vestido branco, laço azul e coroa de princesa.

Rodrigo Bueno: http://mataadentro.com.br
Desperto com uma mão nos meus cabelos, entre nuvens amarelas originárias das fronteiras da desfalecência. Encontro olhos de um bandido, sorrio. Arrasta-me como boneca, me deita, me desamarra a fita, me tira o vestido, abre a janela e roga ao ar que entre em nossas vidas. Como criança, deita ao meu lado, observa minhas lúcidas aperreações e me abraça. Adormece dentro de mim, num mundo de sonhos distantes. Ali me ama, caralho.
Meses depois acordo sem mãos no cabelo, sem os olhos de um bandido. Ao meu lado, a fresta da janela pinta luzinhas no meu rosto com um belo dia de sol. Cura emocional, vôos panorâmicos sobre os caminhos labirínticos do coração. Um gigante coração, onde se esconde assustado um filho de Iemanjá.
Flores ao mar, flores horizontais,
Já muito distantes do cais.
Escrito por Camile Spring às 15h29
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Respeito é Pra Quem Tem
Nota publicada no trampo
Feriadão prolongado, muitos rolês, shows e críticas a serem feitas. Primeiro, na quarta-feira o show dos Racionais foi vetado pela polícia, o festival que acontece todo ano em homenagem ao falecido Sabotage simplesmente não rolou. Uma pena. Segui para o centro, lá no Vale do Anhangabaú tava rolando o show do SP Funk e depois do Z’Afrika Brasil. Apresentações classe A, mas com pouco público... Aí fico matutando se isso se deve à falta de divulgação ou medo que a galera tem de rua. Outra pena.

No dia seguinte a chuvinha caiu caiu, mas não atrapalhou os shows de comemoração ao aniver de Sampa. O que atrapalhou mesmo foi a profunda falta de respeito e educação dos policiais militares que revistaram, empurraram e meteram a mão na galera que pairava nas quilométricas filas para entrar no parque público da Independência, uma vergonha. Não tinha cerveja, nem rango... Compreende-se o medo que o poderio tem da multidão, mas existe uma regrinha básica de tratamento com o povo que surpreendentemente funciona. É só tratar bem, com dignidade e respeito para conseguir que as pessoas fiquem na boa, sem o stress causado pela violência ostentada pela PM.
Nós não somos animais.
Mas se nos tratarem como tal.
Reagiremos como tal.
Isso pôde ser aliviado graças aos batidões abençoados da Nação Zumbi, pela maestria despachada e ácida do Tom Zé e pelas boas sensações de ver ao vivo os clássicos dos Mutantes, mesmo com a distância épica que a nova formação se encontra dos originals. Vale refletir que toda grande obra tem começo, meio e fim, e se isso fosse respeitado talvez outras obras poderiam nascer com mais freqüência.
Escrito por Camile Spring às 15h20
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