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Desconstruir a Existência


A Bailarina (vivir pour dançar)

 

               Quem descerrar a cortina                           
               Da vida da bailarina                                       
               Há de ver cheio de horror


               Que no fundo do seu peito
               Abriga um sonho desfeito
               Ou a desgraça de um amor


               Os que compram o desejo
               Pagando amor a varejo
               Vão falando sem saber
               Que ela é forçada a enganar
               Não vivendo pra dançar 
               Mas dançando pra viver

 

               E ela é forçada a enganar
               Não dançando pra viver
                                                               

                                    Mas vivendo pra dançar



Escrito por Camile Spring às 03h36
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Mulher-Tigre Asiático quando a vida escorre pelas pernas

Ela acorda do sono curto, mas pesado, olha pro lado e lembra que a flatulência dos dinossauros pode haver causado sua extinção. Aperta o play no velho Blood Sugar Sex Magic, tira a calcinha, entra no chuveiro. Abaixa a cabeça e deixa a água fria escorrer pelo corpo inchado e dolorido de rua. Antenas, robôs e relógios aparecem na visão cinza e poeirenta que se forma entre os resquícios dos sonhos absurdos de sempre. Enxuga-se sem paciência e deixa o corpo cair no sofá com as canelas e ombros ainda muito molhados. Pensa em alguém que está muito longe, acende um cigarro. Tosse feito uma tuberculosa, levanta pra desligar o som, abre todas as janelas e volta ao sofá. Com as mãos sobre os olhos fechados e toda vontade de seus 21 anos, deseja que todo o mundo se foda.

 

                   

 

Feirantes, com seus falsos sorrisos e gritos da insistência oportunista; empresários, com suas planilhas, topetes e subidas na vida; meninos de rua, suas mutretas e exigências por compaixão; playbas, e o cheiro de merda que a Vila Olímpia exala com a ostentação de seus carrões e louras peitudas de boné na Faria Lima; velhinhos, com seus autoritarismos, nazismos e intolerâncias; adolescentes, a crueldade dos modismos, orkuts e rótulos; intelectuais, seus olhares repressivos e risinhos que guardam a vaidade dos leprosos; atores, e a indelicadeza de suas estapafúrdias e presenças de palco na mesa de bar; manos, com suas machezas, machismos, e estética malvada; rockstars mudernos, e o fedor do som plastificado e quadrado, misturado ao cabelo na cara, terno sujo, magreza e sotaque do sul; descolados da Augusta, e a pretensão fashion de se achar marginal; jornalistas, os interesses, mentiras e cinismos destes vermes pensantes; vendedores, a petulância de se achar íntimo e dizer que o casaco “é a sua cara!”; dealers, e o dissimulo amigável do carrasco; filhos de peixe, seus talentos inventados e a chatice de querer ser a mamãe; gravadoras, as mucamas de uma indústria cultural que estupra toda a nação.

 

Desperta assustada. Ainda no sofá, percebe o sangue escorrendo pela perna.

O inexplicável alívio de sangrar uma vida inteira pela vagina relaxa seu corpo nu.

Adormece mais uma vez, ali mesmo, em meio ao sangue e a toalha molhada embaixo de si.

 

Sonha com milhares de pipas coloridas que dançam pelo céu lilás.

Abraça o mundo.



Escrito por Camile Spring às 17h13
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Fases químicas e vestidinhos, o fim das picuinhas

“Pega uma cerveza pro seu ancião”

 

Menina-tabuleiro, calçada de passos sem jeito, calibre da carne no leito.

Frescas flores torturadas pela deformidade inevitável das palavras.

Engata a ré para volver volver – a tus brazos otra vez.

Volta, mas me conta tudo, eu preciso saber da tua vida.

 

    

 

Fases químicas de uma mistura heterogênea, você sabe,

sofisticação da intimidade, momentos de cruel ansiedade,

(sarjeta do tempo)

rompecabezas com o mais perfeito dos níveis de dificuldade.

 

Papéis rasgados pelo chão do passado,

lá no horizonte, a rotatória indica a existência como um dado.

A beleza ainda está no duvidoso,

natureza que dribla a certeza com o maior dos passes nebulosos.  

 

Um homem conversa com angústias, risa de arrrozz.

Esse mesmo homem acha pérolas sob o horror de cicatrizes.

Penas e sangre, a doce morte das perdizes.

 

Vestidinho de renúncias, que como detrito aduba saudosas visões da incompreensão.

 

Cuma?

 

Je t’aime,

(como nos convivas, plus que tout) 

 

Por isso, Where or When para mexer nossas vidas, (dotô)

sal e limão para lamber o agouro das feridas,

in vino veritas para não temer o gosto das despedidas.        

 

 



Escrito por Camile Spring às 12h58
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