Flor vermelha e verde pras água funda do mar

No profundo das areias daquela praia, uma fumaça carrega o cheiro de mar. Mas não é vento, nem maresia. Sob a lua, dois pescadores arrancam a terra em busca daquele cheiro. Eu não entendo o que está por vir, mas fico hipnotizada com as águas prateadas em contraste à areia escura, como nunca visto antes. Nada me disseram, mas sei que aquela terra negra guarda uma densa fumaça, e que aqueles dois homens enormes cavam com tanta vontade para libertá-la. Estou só. Entendo que por uma questão de respeito levo apenas uma larga saia branca rendada e quatro colares de contas, dois vermelhos e dois verdes, que protegem meu peito até o umbigo. Pancadas do mar chamam meus olhos, que se fecham durante muito tempo até uma senhora muito negra e gorda, vestida como eu, mas com todos os colares brancos, pôr as duas mãos nos meus ombros. Lamentações em versos de ciranda começam a ser proclamados pela velha, que se apresenta como Lia de Itamaracá e me sorri como uma mãe. Começamos a rodar na areia. Batucadas muito pesadas começam a soar e eu olho rápido para o chão com convicção, como se já soubesse de tudo. Dona Lia não pára de cantar e eu agora estou aos gritos junto a ela.
Janaína vem vê, Janaína vem cá, receber esta flor que eu vou te ofertar
Iema mãe, Iemanjá
Filha de Exú aqui está!
Iema mãe, Iemanjá
leva ela / pro fundo do mar!
Pancada do mar / vem ajudá / filha de Exú aqui está!
Ajude mamãe rainha Iemanjá
Filha de Exú / vai se casar
Lia na ciranda / vai te ofertar
Flor vermelha e verde / pras água funda do mar!
Casa essa menina / verde doida em seu reino
Iema mãe, Iemanjá
Leva ela / pro fundo do mar!
Pancada do mar / vem ajudá /
filha de Exú aqui já se vá!
Acordo cantando.
Escrito por Camile Spring às 17h30
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