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Desconstruir a Existência


Flor vermelha e verde pras água funda do mar

 

           

 

No profundo das areias daquela praia, uma fumaça carrega o cheiro de mar. Mas não é vento, nem maresia. Sob a lua, dois pescadores arrancam a terra em busca daquele cheiro. Eu não entendo o que está por vir, mas fico hipnotizada com as águas prateadas em contraste à areia escura, como nunca visto antes. Nada me disseram, mas sei que aquela terra negra guarda uma densa fumaça, e que aqueles dois homens enormes cavam com tanta vontade para libertá-la. Estou só. Entendo que por uma questão de respeito levo apenas uma larga saia branca rendada e quatro colares de contas, dois vermelhos e dois verdes, que protegem meu peito até o umbigo. Pancadas do mar chamam meus olhos, que se fecham durante muito tempo até uma senhora muito negra e gorda, vestida como eu, mas com todos os colares brancos, pôr as duas mãos nos meus ombros. Lamentações em versos de ciranda começam a ser proclamados pela velha, que se apresenta como Lia de Itamaracá e me sorri como uma mãe. Começamos a rodar na areia. Batucadas muito pesadas começam a soar e eu olho rápido para o chão com convicção, como se já soubesse de tudo. Dona Lia não pára de cantar e eu agora estou aos gritos junto a ela.

 

Janaína vem vê, Janaína vem cá, receber esta flor que eu vou te ofertar

 Iema mãe, Iemanjá

Filha de Exú aqui está!

Iema mãe, Iemanjá

leva ela /  pro fundo do mar!

Pancada do mar /  vem ajudá / filha de Exú aqui está!

Ajude mamãe rainha Iemanjá

Filha de Exú / vai se casar

Lia na ciranda / vai te ofertar

Flor vermelha e verde / pras água funda do mar!

Casa essa menina / verde doida em seu reino

Iema mãe, Iemanjá

Leva ela / pro fundo do mar!

Pancada do mar / vem ajudá /

filha de Exú aqui já se vá!

 

Acordo cantando.



Escrito por Camile Spring às 17h30
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Canção sem letra, a voz usada como instrumento.

      

 

Salva-me a perda de noção do tempo,

salva-me braços que atam o dia nas asas do leito.

 

Quero dizer não por signos, como horizontes do domingo que podem ser vistos se não pelo telescópio de lençóis. Risadinha-filme-sanduba, livro-beijo-corrida maluca. Sons do sono, sonhos sonoros compartidos. Fotos que conspiram um amor da porra na mesa do boteco. Um ensaio à mulherzice quem sabe, uma ode aos passos originários de um caminho sem volta.

Ou vice-versa, não importa.

 

Elvis pós-inferno, cores que rodam minha saia no jukeboxx dos teus óculos. Chavela Vargas Volver-Volver, vida esa que me sabe leyer em freestyle a las siete de la mañana en el cielo del suelo.

 

Mudança na temperatura da vida segue as pegadas da cama que anda apressada entre nossos abismos, oxi.



Escrito por Camile Spring às 12h30
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