Nós só de Nós
Ele sabe que esse momento é egoísta, ele olha para um ponto perdido enquanto eu durmo pesadamente ao seu lado, depois se enrosca todo em mim, eu vou para o canto da cama, ele me puxa de volta como um consolo para essa vida besta e acalma meus sonhos entorpecidos. Ele acorda, vai ler o jornal na sala e sente de lá minha barriga roncando, volta pra cama, me invade com seus olhos brincalhões, me faz uns agrados e depois resmunga o que eu quero comer. Ele fecha o zíper do meu vestido, mas antes olha com minúcias para minhas costas, fotografa. Ele dá o braço e me leva para passear sob o crepúsculo, leves palavras e risos abertos acompanham seus passos até uma cantina que toca música alta para espantar o ensurdecedor silêncio do domingo. Ele me alimenta e me conta histórias fantásticas de seu eterno exílio da existência, ele põe sua mão sob a minha e observa as duas por um minuto sem medo de nossa rápida ausência de palavras. Depois ele me faz rir e compreender todas as nossas chagas. Ele guarda meus olhos como um bravo cavaleiro babilônico, que nunca deixou escapar uma lágrima sequer. Ele me conforta e diz que tudo vai passar muito rápido.
Rolamos mundos no chão, andamos descalças como o Moisés da Barra Funda, deitamos sob camas de faquir, surfamos até o paraíso sob pranchas de ácido, aprendemos a pronunciar a linguagem de nossos corpos, já dissemos coisas muito feias um para o outro. Aceitamos seguir a vida como dois mulambos, conseguimos fazer jantares na entediante semana parecerem adoráveis picnics à beira do Capibaribe ou de qualquer outro canto.
Assim costuramos nós em nossas vidas. Nós, que nunca tivemos absolutamente nada e sempre tivemos tudo. Nós de marujo, um que rema enquanto o outro tira a água que invade com um baldinho.
Nós nunca afundamos.
Escrito por Camile Spring às 18h31
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