I - Painting the Streets in Whiiiite: O Homem-vaca e a Donzela desertora
Ela sempre pensava nele como uma enorme vaca. Uma vaca dentro de um ovo, com uma estranha criatura nas costas. Nas costas por que aquela coisa lá não poderia estar em outro lugar. A esposa era "nas costas" demais. E engraçado, sempre que eles se encontravam a rapariga tremia o monstro mal-acabado. Ó. Ela se divertia horrores com aquilo, a cara de desespero da atual trepada de seu desafeto a mulher-nas-costas. ahahahahahah. (Entre intimidades, diga-se de passagem que chegou a pensar na tal moça quando seus dedos entrelaçavam a cintura labial do mundo vermelho dentro das cobertas. Vingança de falta de sensibilidade, mesmo não acreditando nela. Queria compreender para onde havia ido a vontade que era sua.)
De atual trepada foi casar, ó meu bom Santo Antônio. Casou-se o homem. Luxo que só ele poderia dar depois de tanto amor jogado por essa mesma janela. Bizarro, esses moços. Mas não teve problema quando ele a telefonou no meio da madrugada perguntando onde estava, se estava lá naquele buteco, que queria vê-la, a enorme vaca. Ela adormecida e absolutamente sozinha naquela casa amarela lhe disse "vai pra tua mulher" e tú tú tú tú... Depois nunca mais ligou. E quem pensa que a moça não ficou braba engana-se. Ela ficou emputecida com aquele desconfortável telefonema desprevinido e desprovido de qualquer vestígio da verita beleza entre eles, dos dois filhos da puta da história, com todo respeito às tão amadas e idolatradas mães.
"Ah apedrejador de coração, safado, um dia ainda tú vai morrer aqui dentro, cacete" E morreu. Morreu, mas o maior problema era seu fantasma que de um jeito ou outro ficou presente na lembrança. Estranho. Vazio, sem preceitos nem valores.
"Fantasma sem casa, esse."
Melhor que isso, só dois disso. Segundo o grande romântico, "amor só é bom se doer", pode perguntar ao seu orixá, nego. É. Vida mais linda essa de fartura. Fartura de dor. De luz.
Tudo que ninguém sabia, nutra vontades, não faça planos e mate o fantasma. Silêncio. SHH!
Não foi a toa que ele passou na casa do irmão dela pra pegar um sossego antes da viagem de duas páscoas atrás, a vaca mereceu muito amor. Música foi culpada do encontro destas duas bestas dignas de tempo e história. Música, inferno.
Antes: A primeira entrada lá dentro dela foi ao som ensurdecedor de Jimi. A-meudeus. Que cadência. Que nascer do dia completinho.
E mais uma vez estavam ali pela música, no show com mais de 40 mil pessoas, que não foram suficientes para separar o desafeto. Foi com uma cara bem estranha, torta, meio sarcástica, que o homem reconheceu a donzela no meio da multidão - "Hein? Ah! OITUDOBOMTUDOEVC" - saiu correndo palá rápido adentrando o pogo como uma barata assustada. "Puta que pariu, até aqui nesse Guernica personificado eu dou de cara com esse bode, saco." (Bode não. Vaca, nega.) Que fatalidade infeliz, refletiu.
ahahah. Diablito: "Ele estava ansioso para esse show de merda" ahahahaha. Essa merdinha de banda americana, bando de bostas. Não acredito." - "POrra, mas também, né, quanto tempo se passou depois daquelas lágrimas no portão? O que você espera, satanás?
Camaleando a vida existe. Se não, perece.
Escrito por Camile Springui às 23h29
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