O moinho
Resistindo na boca da noite um gosto de sol. E não é mesmo que nada será como antes amanhã. Sem dormir, andei por muito tempo e parei certa hora, certa hora que um guarda chuva quebrado chorava, e não chovia, mas chorava, o choro do guarda chuva é a chuva ou são as lágrimas da rua que matam os ratos. E que matam os domingos quando choramingo sensível à morte eminente que é o amor, risos, óbvio que sim. E qualquer dia a gente se vê. Sei eu o quando tu odeias de verdade o descaso do qualquer dia. Mas hoje sei que nada será como antes amanhã, e nem pior, mas eu sinto sua falta. É talvez porque invento o cais, invento o mar, virei apenas alegria. Alegria macabra, quiçás sarcástica, doente, mas mesmo assim eu ando, eu ando pela rua, e olho os carros tristes, os carros, baby, são tão tristes.

Hoje eu lembrei, hoje sua mãe veio na minha casa. Ela veio e disse que mesmo correndo eu to mais gordinha. Eu ri, eu ri triste, porque sei que peixe bom dá no riacho, orgulhoso, camarada. Triste, porque ela me olhou com uma certa frieza que só o tempo carrega, a distância, os nós frouxos. Você some longe no trenzinho ao Deus dará. E eu, comigo rindo choro, eu sorrio andando por essas ruas iluminadas pelo céu lacrimoso que grita a anulação de quem perdido se arrasta e espera. A anulação dos homens que tristes, agarram o câmbio e a direção solitária de um carro nos retornos da vida. Nas curvas e equívocos no asfalto, ao longe me sinto no lugar, meus olhos perdidos em alguma gotícula nas nuvens chorosas de sãopaulo, eu estou no lugar, na contramão, meu lugar. E então estávamos embaixo de uma árvore encravada na sarjeta da Mourato Coelho, parados, rindo da rua. Apontei para a abertura da árvore que dividia seus galhos secos e eis que em sua dobra um guarda chuva nos observava assim, meio abandonado, meio bêbado, entorpecido como nós às sete horas da madruga. Naquele instante não pude sentir os limites geográficos do meu corpo, o que são minhas extremidades, o meu coração deve.
Minha paixão se instala nas pessoas e então me transformo numa adoradora de pessoas e cachorros. E sei a dor de me conter. Mas para quem quer se soltar, se soltar, invento o amor, invento em mim, o sonha dor. E talvez drogas menos prejudiciais que as tão a nós cotidianas. A droga de levantar, a droga de pisar num chão frio e oco todas as manhas porque existe um vazio imaginário que nos comanda. E comanda que levantemos. E comanda que olhemos para todos cantos menos nossas próprias mãos nas flores em volta dessa mesa no meio da rua. E essa rua não existe, porque não existe. E ponto. E quanto mais você anda, mais você anda e envelhece, a palavra é inacreditável. Não falo, como nossos pais, que hoje eu tenho que chorar. Porque choro na batida sísmica de todas as memórias a mim tão pedregosas, pois, segundo questionamentos que precedem minha existência, digo, vou fechar o meu pranto, vou querer me matar. E eu não quero ir andando pela vida me esquecendo de você. Pois isso minha mãe já fez. Minha mãe quis. Ela, ela quis, já não sei onde estamos. E hoje faço do meu braço o meu viver. E olha só, veja bem meu patrão, pra se soltar há de não mais pisar no chão, é, assim, a pensar, temos nós todos, contemporâneos da solidão mais generosa da história, acho que é amor.
As drogas nos encaminham a possível consciência de um vazio imaginário por mais concreto que seja, o concreto é de fato as memórias que tentamos anular durante anos! Durante anos eu soube que o amor é uma coisa boa e que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa. E pode estar lá, no quadro que dói mais, no museu soterrado nos encontramos, paramos, nos olhamos. Depois de quase quatro anos de amor ao passado e destruição, necessito desdobrar meu rosto indignado, porque o guarda-chuva da vez está no lixo e chora porque eu não escondo os sentimentos. E caminho pela manhã sem haver dormido a ouvir que o mundo é um moinho porque preciso ver a vida cair um pouco a cada esquina, e prestar atenção que o abismo notável a mim eu própria cavei com os pés. Então pergunto ao passarinho black bird o que se faz? Black bird me responde o passado nunca mais. Passado onde, dentro de mim, dentro de mim, existem buracos sem fim, e que na verdade findam onde não entendo mais nada, no respeito às imagens do inconsciente, a essa gripe sarnenta que me põe deitada a ver navios.
Img//Kelsey Brooks
Escrito por Camile Spring às 16h34
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Vulva lacrimae
O ditongo decrescente dói enlaça suas rendas agudas ao redor destas coxas como cinta-liga, último respiro da tarde na ponta dos dedos, Billie Holiday “too soon, too soon”. Absorta em vazios imaginários, penso em deitar-me com alguém rápido, e quanto mais penso, menos vontade tenho eu de olhar pro lado, caras, sapatos. Olhares sorrateiros cheios de tarifas altas a serem debitadas no brevíssimo futuro pós-coito, estará mesmo na hora de molhar o biscoito? Com efeito, há um intervalo invisível tragicômico entre estes lábios mal-beijados, de baixo, entrecortados, e o gosto de pêlos novos em carne, como virgens lânguidas e obviamente, atemporais. Ali pelo meio estremecem letras avulsas no líquido viscoso que jorra em barragens, delicadas cartilagens. Rosáceas as linhas de dentro, e tão sensíveis!

Laurets no país dos Baurets faz-me sorrir e ir além com tal brinquedo regalado às pressas na rua, e adquirido com louvor na ilustre Erótika Fair, yeah, amigo fino esse. E dizem por aí que o ano em questão não foi para a grande fornalha, está cru. Aqui, as antigas fórmulas matemáticas da ilusão não funcionam mais, de repente, estamos todos a sós, ainda que junto e misturado uns aos outros. Aqui, enxergamos de longe os frenéticos espasmos das verdades a nós tão relativas, e na maioria do tempo nos sentimos muito a vontade com o que se tornou o passar dos dias.
Os desencontros vocálicos desfilaram furtivamente pelo caminho das lágrimas nas águas de março, peregrinação epidérmica por entre lamurias pluviais, sinais da cruz e pernas de sorvete. Eis o mês que pereci verbalmente, calei-me em algum vão do teto com a parede, pequenina feito um atomozinho cansado de emitir energia para outros átomos bobalhões. Zanguei-me, fiz bico e cruzei os braços. Mas vejam vocês, meus íntimos leitores, que em virtude de haver uma confortável saleta nos interiores destes botões – com lareira, jaizz, almofadas coloridas, vinho branco gelado e amigos fanfarrões – sou só o entusiasmo de ir até o fundo do poço no baldinho. Porque alguém há de me puxar com a minha força, e as mãos, segundo Guayasamim, são sagradas. Permito-me, com a intensidade de mil fodas.
De volvida jazo bem aqui, pós silenzio pós marzo.
As águas me levaram pra longe, e pelo caminho das lágrimas fechamos o verão.
Img//Sylvia Ji
Escrito por Camile Spring às 01h24
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
El Mar Frodita

Em ruínas, os edifícios erguidos pelo sopro precoce de ares malditos garantem ligeiros estalos no hemisfério direito do cérebro, ali, pico papéis coloridos e com cola construo uma nova cidade de monstros divertidos. Nuvens masculinas regem a lua nestas curvas, por isso simplesmente fui-me embora ao despertar, sem te acordar, sem te tocar. 13h15, todavia envolvida pelas rédeas soltinhas dos goles de outrora, dirigi cantarolando por poucos quarteirões da pompéia, onde, como um nadador profissional dos anos 50, o grande barão Gustav von Biscat de Mongaguá aguardava de box listrada e uma regata não menos graciosa que seu olhar atmosférico de quem ainda há pouco estava a bailar. Faminta como quem não manja nada, devorei o banquete, e, inquieta, degustei tal bebida borbulhante atendida vulgarmente por champa. Foi então que a verdade se revelou, todas as pessoas que me dizem respeito haviam efetivamente se embriagado na noite anterior e estavam, naquele minuto, deitadas a imaginar
garçascorrendofrenéticamentepelasruas-práticasrupestresdeacasalamentoesquimó-humanosgordosecoloridosavoarquenembalãodegás-vocêcorrendoatrásdeemasassustadas-gostosasmontandoporcosselvagensnoquintal-opapadecalçolasrolandonagrama-e-obviamente-pigmeushemarfroditasfãsdaalcionegritandoNÃODEIXAOSAMBAMORRREEÊdemeiasapenas
É quando Maria Delícia dá as caras com a melhor bola de basquete de rua do mundo embaixo do braço, bermudão nas canela e regata agarradinha."Wow gostosa!", penso, absolutamente absorvida pela fugaz paixão que a moça despertara, terceira taça de champa.
Arrancame de lá, arrancame la vida e me leva passear no parque Villa Lobos com as meninas Nilds e Éca, jogar basquete, queimar, paquerar os mais improváveis rapazes e imaginar furadas geniais de seu pai, Clovis Eduardo Tadeu Gomes. No caminho, três guardinhas passam em suas bikes, e não há mais sombra de dúvidas...
Trata-se de indefectíveis bonecos infláveis, com suas largas camisas pra dentro da calça e o vento soprando e enchendo o plástico viscoso e purulento que envolve sua forma secular. Exemplares idênticos a seres humanos, conversam, disfarçam, chamam a atenção das bikes que trafegam erroneamente com o grito “PISTA!”, comem barras de cereais, cospem e olham para as nádegas saltitantes de cada moça adepta à corrida, um esporte deveras eficiente.
Retornamos relativamente caladas ao carro, um pouco assustadas com o caso em questão. Mas o que não é derme há de aquietar-se, pois como tudo que é sólido desmancha no ar, a carne trêmula geme solitária quando o vácuo é experimentado ao som sacana do Lovage. “I’m totally into porn baby”, visto como a Gestalt foi ultrapassada há tempos pré-pós-modernos, mas o intuito é analisar os equívocos dos glóbulos oculares, que por diversas vezes se enganam e não acham graça em pornografia, oras bolas.
Img//Gregory Jacobsen
Escrito por Camile Spring às 18h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
La Ursa
A juntar os sulcos dos sonhos e encher o açude se for por você, e as pontes da juventude, de Algodões pra Carneiros, carne dendê, que o homem foi feito direito como fosse pra ser, e o homem de partida na curva da vida, ele vê, sabe que a moça vai fundo vai fundo vai fundo vai fundo se for por você, e tapar os buracos do mundo se for pra não ver, o caminho não é sozinho, mesmo quando há de esconder. São os coqueiros estelares de uma fotografia antiga no teto do quarto, a rede aberta no contorno das coxas preguiçosas e esticadas em direção ao mar tranqüilo em tempestade. Barulhentas, eis que as folhas imitam a chuva no mundo dos sonhos e das lembranças fresquinhas, fartas de festas fantásticas ao pé do ouvido.

Monstrinha ao teu dispor, assim se acompanhas o bicho solto de uma gaiola estilhaçada pelas veredas verdejantes de uma vida vulgarmente feliz, vez por outra feia, feia feliz, com as graças de poder ignorar a conotação francesa de felicidade. Digamos não ser este o estado de espírito para cavalgarmos toda noite por uma estrada colorida, usar os beijos como açoite, sem te perder de madrugada pra encontrar no meu abraço. Ei, como a madrugada, deite no meu cansaço sem se importar com os doces labores notívagos da carne, mais uma vez, venha cá. Estes braços pintados me bastam quando descansam enlaçados a esta cintura silenciosa... E sei de rodas gigantes multicoloridas em povoados remotos dentro do peito, vi gigantes girando dentro de mim como dervishes de saia de chita, eu sóbria, eu de olhos bem fechados. Mais uma vez cai sem roupas na água, fui afogada de tanto rir nas águas do Pina, e digo mais. O bairro de Afogados, zona sul de Recife, abriga um casal de namorados juntos há catorze anos, que possui como quem coça a mão esquerda, um carrinho vermelho de cachorro-quente, e Fátima/Rose ou Cremilda sorri leve com a certeza azul do amanhã ao lado de Antoine, que olha pro mar e arruma a gavetinha do milho. Neste momento, o disc-jocker de cuecas, mãos enormes, drinks coloridos e disposição pra se perder entre a água, as ondas e meus ombros, pisca devagarinho. Pega minha mão e me leva pro fundo. No entanto sabemos, em Recife não podemos ir muito longe, mesmo dentro d’água ou ainda mais dentro d’água. Mas fomos, sempre vamos. Asi como la macorina, ponme la mano aqui macorina, que me muero, ponme la mano aqui macorina, que estoy loco en el água de tus brazos, que me muero em ti. (suspiros) (suspiros)
Da ladeira da Misericórdia sambando em Olinda às terras ermas dos lençóis zebrados cor-de-rosa desta cama, água gelada, ora Clara Nunes, ora Chavela Vargas, ora Edu Lobo e Tom Jobim. Ao lado, duas vastas edições de Calvin e Hobbes e os volumes bukowskianos Ereções, Ejaculações e Exibicionismos. Cá jaz a volta, após me levar passear ao longo dos últimos 5 anos, e por outras estradas a encontrar a vida. Sono, imaginação, labuta e muito descanso nos próximos.
Img//Souther Salazar
Escrito por Camile Spring às 01h51
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Bamba Bebê
Desde o carrossel secreto por onde giram pensamentos codificados entre pequenas nuvens lilás, onde me sentei e vi de binóculos outro dia, são inúmeros os insignes que flutuam na vista em telas úmidas e sem fim de olhos castanhos demais. E a argúcia enfant il confunde o amor prático, embora sejam as proezas laborais as maiores prejudicadas pelo que chamam inteligência.
Serei eu então uma pseudo-astronauta com vontades móveis rodopiarias em pequenos planetinhas escondidos, jamais imaginados pelo prepotente batente destes homenzinhos que acreditam em realidades tão certas encaixotadas na medida de alfaiataria. Tediozinho. Vou-me embora pular corda em saturno, onde é sempre saturdei, bamboleio bamboleia porche’ mi vida iola prefie’ vivir asi, rebolante gipsy queen, movida de anéis coloridos na cintura inquieta.

Desistem da descontinuação dos deveres, desistem desta dura demanda dos débitos débitos, correspondências. Multas, cheques, caixas, ratinhos eternamente famintos que rangem dentes de ouro, podres, por detrás de barulhentas máquinas registradoras, João e o Pé de Feijão. Perdoa o descuido, mãe florzinha, mas os atos do inconsciente vivo semi-anárquico infantil e muito inconseqüente sussuram que “uma multa fechada é mais legal que uma multa aberta”, daí a incapacidade brutal de abrir qualquer espécime de papel dobrado que invade a soleira de casa, sorrateiramente, com números que não reconheço e palavras que nunca dizem nada de interessante. Chatice cotidiana, as correspondências. Mas relax, a certeza de qualquer crença incerteza trará, é claro que não. O velhinho que molhava plantas mortas nas manhãs de agosto de 1985, mãe, na crueza da urbe invernal, vive sozinho nestes dias quentes, mortas, plantas secas e molhadas pela esperança de ocupar um espaço fragmentado nas esquinas da alma um velhinho longe, protegido das mágoas por um guarda-chuva mágico. Tragédia nada, a tragédia é acreditar em plástico, gentes em série, fabricadas passo a passo pela maquinaria quebrada dos veículos e seus pequenos endiplomados com clamor. No momento, ela caminha indor fora da casinha, muito quieta, dentro e aberta para o universo imaginário das cores e dos quereres. Pensa em estrutura, sem a mínima. Olha pra cima, nunca se irrita. Eis os Dias de glória, mesmo com o estômago latindo, mesmo com a cobradora consciência das coisas normais, e logo, das muito anormais, mesmo óbvio que isso tudo não existe. 13 dias para o carnaval.
img//shawn barber
Escrito por Camile Spring às 04h49
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
La Garta Tamborina
Dos lados juntados, dos pontos distantes e das curvas que separam os nós no horizonte, nos ângulos mais oblíquos e improváveis hoje é tempo de amor, hoje é tempo de dor em mim, eu vim de longe já não sei de onde é que eu vim, tudo é só amor, em mim, com estas barragens translúcidas de papel em branco, o eu, o ego, o ele, e o engenho criativo transfigurado em linhas infinitas no céu da boca, no mar da língua, nas cavidades listradas de um fígado cansado, nas cartilagens atentas, rígidas e rosadas nos aurículos que detém o poder auditivo de viver pra ouvir, ouvir e deixar as coxas se abrirem devagarzinho, desde a boca do estômago onde voam quantas borboletas vermelhas, que giram feito catavento, que pousam e fazem cócegas no seu nariz, que colorem os instrumentos de uma roda de samba das vontades sob os cuidados do dia seguinte, desde os tubos mágicos por onde transita a carne e o sangre alheio, que nos transporta a birita de cada dia, que absorve o amarguinho adocicado da ostia sagrada, o cipó, a folha e as águas escuras dos três rios, a coroa verde e vermelha, a larga bandeira, os dias mais verdes e triviais, eu vou só, eu vim só, de onde é que eu vim, foi de um tamborim

foi de um tamborim assim, menina, dança tamborina, de fita colorida, de morte e vida dançarina, nas manhãs que despencam do céu espanhol em algum pueblo cerca a Torres del Rio, Navarra, tabuleiro de Santiago, cem anos de solidão na melhor companhia, a ausência de gentes na fotografia, autofagia, passos preguiçosos pós fanfarra por entre pontes escuras e medievais, o vinho na bota, o sanfonar eterno de galegas grandes de tetas fartas e de sombras engraçadas, adiante a estrada holográfica conduz à vacas belas demais e seus sinos preguiçosos em cima do meu corpo que descansa no pasto verde, abraçado aos cogumelos, a fazer fumaça de olhinhos fechados, sussurando sonhos no compasso dos barulhinhos que balangam a existência paciente de uma bovina tamborina, a sidra dos deuses do leite, até o eu protozoária no deserto escuro dos teus lençóis onde me reviro e te procuro feito cão magro perdido
em caminhão de mudança, menina tamborina, os fantasmas de cavalinhos no meu peito correm livres e crescem fortes como a própria liberdade, saudade-brutalidade, mas são estes meus dois tornozelos queimados pelo sol brusco da faixa litorânea dentro da tua barriga que me conduz aos espirais labirínticos psicodélicos onde unicórnios roxos e dromedários verdes se escondem no jardim de artérias conforme minhas pernas se movem, o pisca-pisca breu luminoso não permite enxergar os espelhos de prata antigos demais, apenas os olhos vermelhos das corujas que um dia você desenhou e de repente, eu respiro.

Estou a caminhar descalça pelos glóbulos quentinhos da tua aorta, deito e rolo, me lambuzo nas poças verde água cor-de-rosa que abundantes me relaxam quando alegam pensamentos docinhos como caldas de amora, aqui estou eu, torpe andarilha, nega tamborina dos cabelos que voam na direção norteña, salve os algodões multicoloridos da Bahia, mas não me espere, eu chego lá, e os teus unicórnios assustados estão a sorrir ao meu lado, sou só, vim só, irei sempre só, só com você enquanto os dromedários acordarem cálidos e seguros para encontrar meus cavalos malucões quadriculados que correm pelo quarto desta rodada, pela praia enluarada, pelos orifícios escondidos do meu travesseiro que guardam longas-metragens no inconsciente do meu peito, aqui estou eu, de borboletas vermelhinhas na güela do estômago, as vacas e os sinos a tinir no céu bifocal que ilumina a revoada dos meus cavalos vestidos de camisa xadrez, no galope, abrem caminho na madrugada fosforescente de verão enquanto a lagarta se revira no traço da bêbada equilibrista que caminha agarrada à sanfona da zona apical à veia cava superior,

fui
Imgs//Nicoletta Ceccoli
Escrito por Camile Spring às 03h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
XXVIII
Triangulares, pedaços de carne viva reluzente voam soltos embaixo da pele molhada, coagulada, largada nos lençóis zebrados das sombras refletidas em erros lentos e precoces. Eu gosto dos erros dos que gostam, eu erro quando gosto em excesso e gosto dos excessos dos que erram. Excedo-me, convido-lhe a passear na garagem 28, sinta-se na porta da tua casa, de fora pra dentro vê-se nada, as gotículas da expiração são perfeitas e embaçam qualquer tentativa de nos enxergar. Agora somos invisíveis. E devemos nos manter aqui dentro, inspirando um ao outro até a derrocada líquida da vida, o desmaiar levinho, no barquinho pelo mar que desliza sem parar...
Cara pintada de satisfação, enxerga de longe o corpo franzino de homem que sente saudades e sorri timidamente através das paredes de vidro do aeroporto. Duas noites atrás, Camile havia se assustado pela dimensão descontrolada que os fatores emocionais haviam tomado, e por isso estava com ares avergonzados de menina com medinho de se foder. Assim que depois de cerca de meia-hora, mais precisamente 28 minutos, a mania insuportável de jamais calar os sentimentos com a maior sinceridade que há nesta vida, ela começou a contar-lhe sobre os mais hilariantes buracos lapidados pela cruel milimetragem do tempo e seus valetes.
Junto ao disco de café-da-manhã às duas da tarde, entregou-lhe um envelope azul marinho escrito “vinte e oito”, sem que o número tivesse algo que ver com idade ou datas celebrativas. Complete Bitches Brew session, e como de costume juvenil, suas mãos curvadas na cintura feito açucareiro e o vestidinho balançando de um lado para o outro, de um lado para o outro. En dois segundos, ele enlaçaçava seus braços ágeis naquela cintura para arrancar-lhe o vestido pela cabeça, o cabelo mais solto do que nunca, os lábios envolvidos na brincadeira matinal dos dias mais facinhos, easygoluv, amorbrisa 2008 embalado por Miles Davis, vinho branco gelado, frutos secos e um farto baseado.
Img//Jennifer Sanchez
Escrito por Camile Spring às 18h30
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Adoración
Ladrões de verdade não invadem tua casa com galochas coloridas nos pés, borracha faz barulho. Como diz a morena colombiana dos largos olhos, que quiero de la vida, yo quiero vivir a la playa con mis amigas, los perritos y uma casita de palititos. Sendo assim, as ramificações mais latentes de uma vida podem ser vistas do quintal ensolarado de qualquer realidade brusca. E feia, e cruel, e mentirosa. Por dois segundos de cada dia, os olhos cansados de mulher-cosmopolita-é-o-caralho, vêem o mundo sob a sagaz ingenuidade de uma menininha de oito anos, emburrada e de tiara vermelha nos cabelos. Emburrada porque a vida de gente grande não funciona, não funciona e também porque os homens se tornaram muito tímidos ou muito metidos, ou mesmo proibidos, e as mulheres somos cada dia mui... Não, errei, perdão, há um oceano fúcsia de água morninha onde habitam fêmeas sensitivamente cruas e, em sua maioria de cabelos encaracolados e escuros, estas me fazem acordar feliz na maioria das manhãs . E assim o mais novo ano será festejado em Vênus, com negas que preferem a cor ao branco ranzinza do revéille du vieux.

Cotton Beach, algodões molhadinhos que aliviam a conjuntivite que insiste em avermelhar o salto torto e trôpego das noites arrestadas, não arretadas. Não acreditem quando dizem que é difícil, principalmente porque todos os azulejos velhos e estampadinhos de um sentimento são essencialmente interessantes, assim como a mentalidade de um homem que nunca cresceu. Não importa, eu tomo as doze saideiras na companhia que me empurra no balancinho azul claro do bar vazio que toca Michael Jackson por Miles Davis, as luzinhas verdes e vermelhas que piscam nos lábios macios de quem tem muita história pra contar. E conta até dez quando dança salsa, de bigodes divertidos e camisa xadrez véia. É o meu cunhado que vai ser papai, e eu titia cara de formiguinha, irei joga bola descarça na grama todos os dias, conforme o prometido, eu serei o arroto no fim do almoço do domingo, o palabrão mais grosseiro e proibido nos caminhos secretos do vídeo game de pijamas nas tardes entediarias das segundas. Adoración, Thilie, adoración, minha irmã, soeur, hermana, sista-brotha que sempre me arranca suspiros.
(Ay que bonito és volar, y a las dos de la mañana y a las dos de la mañana, y ay que bonito és volar ay mamá, volar y dejarse caer en los brazos de tu hermana, y en los brazos de tu hermana, Y hasta quisiera llorar.)
Img//CSproesser
Escrito por Camile Spring às 04h19
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Casal Garcia
(para Maria bonita L Zioni)
Sabem os cavalos soltos da liberdade, e o ciclo das orquídeas que abrem a boca e dizem tanto sobre as dimensões da eternidade. De dentro não voam adagas, ali, as mágoas se tornam pequenas teclas de piano que só falam quando meus dedos as tocam, e a melodia é bela, e assusta. As perguntas formuladas por gentes que sempre perguntam são banais, o costume veste bem a humanidade, mas o experimento da vulnerabilidade emocional, mesmo peligroso, é estimulante e vale esta vida. E desperta muitos amores. Os fantasminhas de filhotes de cavalo habitam meu quarto, não são pôneis, são muito amorosos, mas estão no período de se erguer, tremedeira nas patitas, o que de fato é muito engraçado e me faz sentir feliz, enquanto Siena e Bianca cantam embaladas por uma grande harpa. No teto, o céu mostra caminhos cor-de-rosa e azul fosforescente, período em que o uso das lâmpadas é arbitrariamente proibido chez moi.

Para sempre estarei ao lado de Maria, posição onde finco os pés – na grama orvalhada das eternas madrugadas que nos abraça aos risos, sarros, e passinhos de dança engraçadinhos. Aqueles passarinhos nunca abandonam o farelo colorido em cima da pia, docinho, o sol chega sempre tão completo, e as sombras da manhã são avulsas, difíceis de descrever. Porque mesmo quando você ta tristinha, ou calma demais, eu ao teu lado enxergo Maria, eu enxergo teus pensamentos de mulher que ama e sente dor. E tem pernas longas de dona de casa e de coração, de sede gostosa que morre com a cerveja gelada de alguma esquina da pompéia, esquina mutante da cidade, onde você senta com sua berma de perna aberta princesa, rainha. Árvores... as árvores ouvem tudo tranquilamente, e depois olham-se entre si com a sensação caseira que em tarde satisfeita, limpa os sapatos do marido sorrindo pensando como é gostosa a comida feita pelas mãos que refogam o tédio do domingo com uma careta musical, os pequenos cavalos estão levantando. Eles são fortes, e querem correr pela casa inteira! Meia-noite, o futuro carregamos na carcaça da saia, vai Maria, dança com a parede que eu te entendo. Nega, olhe nega, eu seria a tua mulher, mas sou tua mulher, tua confabulosa formiga que carrega a folhinha nas costas quentes e abertas, é quase meia-noite, eu vou na cozinha e faço teu sanduba, eu ponho a água pra ferver, eu ponho mostarda francesa, eu pego o prato e ponho na bandeja, Casal Garcia gelado na tua costela em forma de taça, você dominhoca precisa só esticar o braço e mastigar... Eu, ao lado, devaneio deitadinha na lua clara, excitadinha, vivendo intensamente no mundo dos sonhos mais legais que ocorrem vez por outra. Não guardo teu sono, porque ele guardado é vermelho, e o semáforo em questão está sempre no verde, lembra dos cavalos que não trotam, mas galopam desgovernados pela terra batida de uma estrada erma erma erma. E eu amo que você seja alguém que me diz coisas, ninguém me diz praticamente nada, você Maria, me dá a letra. E você, Maria Bonita, eu, Lampião, mulher peba emocional, menina-cão no trilho do trem azul, o sol na cabeça na mira de teus olhinhos sinceros a piscar piscar, pisca nega, sangra, vive, vem. Vem cá depois do susto, eu to aqui, do teu lado, deitada de barriga pra cima olhando tuas pintinhas de mulher de 30 anos. 30 anos de Maria, cangaço casal garcia, trinta de Maria.
maria vê isso aqui
Img//Yuka Yamaguchi
Escrito por Camile Spring às 08h09
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Amorbriza (easygoluv)

Das paranóias com gosto de algodão doce, e de todas as horas que arrastaram a ansiosa tristeza de sofrer de rejeição feito menina mimada sem, finalmente, o valioso brinquedo novo. Patologia tiu, paraplegia psiquiátrica, piriri psicológico – tudo e mais um cadinho pro geriátrico espetáculo cerrar as tediosas cortinas dos equívocos. Chega ae verão, cola na parada porque as pipas hão de voar alto, que diga o meu nariz arrebitado, desta vez os olhos demandam dedicação total ao céu com a cabeleira espalhada pela grama e a língua bem pra fora dos cãezinhos que sorriem pra vida.

No beat tropical do coração, alguém por ali, a me fazer rir, descascando mexerica ou apertando uma brisa, aquela calma danada de quem tem tudo e não quer nada. Apagada há de estar esta eletricidade fúngica que incomoda, contudo, corrói a força de tração da inconseqüência e da tediosa expressão “falta de amor-próprio” – clichês fêmeos que jamais condizem exatamente com os fatos, mas que não se esquivam da zona de conforto de onde as peçonhas não costumam ausentar-se. Mas enfim, da primavera não se maldiz, eis o adubo pras novidades veranicas que despenha-se invariavelmente na cabeça do dezembro, mês-locomotiva desgovernada e vigorosa de nuevas ganas.Que caia a ficha na vitrola DJ, solta o bamba no escurinho onde só quem enxerga são as luzes, as cruzes e as figas tortas nos dedos dos que observam sentados os desejos. Dançar agarradinho lentamente pelo teto do quarto, Verocai istaile, pescar sonhos en la concha humana, cochilinho baby, fiança quitada pelo inverno ranheta que rendeu um passado recente de dívidas gratuitas e logo, impagáveis. Impagáveis, mas adiante, as dois mil e sete pegadas pela areia movediça hão de desembocar num oásis tranqüilo, de água translúcida e silenciosa por onde as linhas do tempo desenham devagar o horizonte, sublime, dançante. E o pandeiro ainda a tictaquear suas rodelas ferráqueas que mexem as ancas de um país inteiro, dormirei gostoso na transversal das brisas musicais que chegam quentes, muito quentes.
Img// Frank Stockton
Escrito por Camile Spring às 06h48
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
A pomba
A sombra das muralhas cinzentas que resguardam esta passagem se refletiu entre (the!) pernas abertas numa manhã ensolarada, vide solidão desconcentrada. Como diz o amigo das baquetas, mulheres vulgares são indistintamente insossas; te mordem o braço, te puxam a camisa, te lambem o queixo, sem nem ao menos mais despertar o instante em que os sonhos, misturados aos cabelos tortos de menina-cão, se curvam distantes sob o peito silencioso de um homem perdido, mas sincero. A água há de correr morninha pelos canos sujos por onde deslizaste nestas férias, tu, moleque, não és a Tieta do Agreste – nem mesmo quando em solo tupiniquim arrebata o coroné. E ainda que a mentira dita se sobreponha à verdade vista pelas costas, a menina dança, e dentro da menina, ainda dança, e se você fecha o olho, a menina ainda dança.
Até o sol raiar - até o sol raiar.

Pois resulta que as rezingas a propósito de minhas palavras padecerem sob linhas duras demais dizem demais sobre os demais, nesta repeticção, sucção, abolicção de pensamentos lacrados, decodificados intransferivelmente por aqueles que de alguma forma já passearam nesta montanha russa que respira, e vos diz. Por toda ela quebrável, a estrutura de ossos banhados em sangue exposto aos vampirescos se encontra hoje fechada pra balanço. Pelo que restou na cachola sóbria de mulher lombrada, nos foi guardado um espasmo tímido de quem começou a refeição devorando os talheres. Que dirá F.Couto, ponha meus pés no chão à força mi hermana, e taque merda na cruz da intimidade – que depois nóis come pastér morreno de rir, mylordy. E mesmo na discórdia dos fatos reais fidedignos de tão amalucada noites-quentes, fiquei até o fim. Esperei por uma pomba em pose de rato, lapso de memória, nós, lado a lado, monstros do dilúculo urbano desbotado do céu de Sampow pow pow.
Img//Eric Bailey
Escrito por Camile Spring às 04h30
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Circa Merita

Contar até dez, conter o quê, conter por que, se a sentença final de qualquer baralho é uma só. Embaralha vai, embaralha bem baby, faz maço, tenta me enganar. Eu ali me sento de perna aberta e de rabo de cavalo, bem ali, no meu eterno trono de pedras duras e neandertais. Ah sim, e sorrindo pra ti, assim como as formigas que comem as baratas e depois, operárias satisfeitas, constroem castelos e calabouços. Tsc, tsc, viemos, vimos e até viríamos, mas dúvida não nos resta, meu senhor. Junto veremos jamais as ventanas abertas às sinceras brisas que movem as ondas do mar e marcam o compasso sísmico das placas tectônicas do coração.

Tsc, tsc, rogo-lhe pela última vez, sem a lacuna da tua presença, sem ultrapassar as cúpulas barrentas e tristonhas que guardam tua alma, sem tuas carolas miradas aos meus ombros largos e caídos, entorpecidos pelo baixo astral constante das tuas palavras decifradas em segredo. Rogo assim, baixinho – este barulhento silêncio emitido pelos calos de minhas cordas vocais, este sim é a sua salvação. Prometo silenciar, prometo sair de qualquer lugar, prometo ser o vácuo na convenção dos olhares encontrados.

Mas hoje, com veemência, creio em não recorrer às redundantes ampulhetas da elucidação. Veja bem, não abrasemos ainda mais nosso tempo, não há o que ser dito. Eu hoje, com veemência, firmo o contrato da tua omissão, validado pela tua desonra e consolidado formalmente pelas tintas coloridas do infinito. Tsc, tsc, devoção é o meu caralho latejante, esta bronca vívida que arrastas pelas sarjetas superficiais da tua eternidade em frangalhos, sabemos tanto! Eu, você e os fios imaginários dos esgotados telefones móveis, pela última vez, não me invada com esta combinação de algarismos apagados, nunca mais, deixe-me dormir em paz.

Esquartejei-me as pernas de plástico que cambaleavam na estrada que, entre outros embustes, me encaminhavam ao teu peito. Daqui em diante, bem aqui no tronco que sustenta minha árvore, sou solamente coxas, sobre-coxas, joelhos, panturrilhas, tornozelos, ligamentos e sangue, muito sangue. Hoje eu ando, e respiro muito mais. Hoje ainda não me contenho, mas seguro a onda e a liberto apenas no sol tinindo trincando as cores de alguma capelinha recém enfeitada nos confins da Bahia.
Img// Jennybird Alcantara
Escrito por Camile Spring às 16h16
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
O Mastodonte
Do alto, o vento rosna como cão enviesado e cala a noite adentro, céus, quanta gente pelas ruas a falar a rir a cair a tapar os agurreros do ego, o cego, enxergaria algo fora do eixo pastoso cefálico nasal que jamais cala. Jamais, pessoas da salá de jantar muito ocupadas em nascer e morrer na melhor cidade damérica do sul, pois não. Será este sono denso regido pela precipitação atmosférica de início de fim de ano, pancadas pluviais nos trópicos do peito, lusco-fusco fresco à beira do leito, meteorologia dos sonhos que me projeta pra longe da capital. Hoje, recordei-me. Antes de boiar neste oceano holográfico de mastodonte manso, porém faminto, não estava acompanhada do cramulhão monstro-amor que me arranca as pétalas, mas me resguarda feito anjo da guarda.

Sim, eu átomo, eu célula, eu pêlos nas axilas de fêmea-bicho, eu frágil como bala de revólver, eu acordada penso em dormir. Corro perigos, corro deitada, corro de quem me quer. Quer o quê mesmo, quer o que eu não dou porque se tive algo foi dar dor. E não me venha com esse quebra-cabeça estúpido de querer juntar meus pedaços. Deixe-me quieta, deixe-me deitar sem enxergar as três bestas na parede, não me chame, não me chame, e não pense assim, tanto em mim, se provado já está que me podes bloquear. Apenas não entendo teus motivos, mas veja só, meu apego à tua luz é amor, amor à ogrice que me livrou da egrégora vampiresca que há algum tempo me violenta. Hoje, recordei-me. Antes de boiar neste oceano holográfico de mastodonte dócil, porém faminto, o lar de madeira desabou sob meus tornozelos e deixou destroços de meus cãezinhos semi-abandonados, todos meus pequenos filhotes mortos baixo os escombros da minha desordem. Agora, posso senti-los correr no gramado vasto de algum sonho de criança.
Img// Silvia Ji
Escrito por Camile Spring às 22h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
El Muerto
especial Día de Los Muertos
De onde o corvo acuado num galho pútrido pode nada, olha fixo e cisma, para a desgraça da criança sentada embaixo da árvore do cemitério. Quem jamais foi respeitado por uma mulher, meu caro defunto, não há de compreender as notas aliteradas do respeito, isto, efetivamente, não é para todos. Vai, dissolve na cerveja choca que rege teus dias mais felizes o gozo pleno da menina nos teus inferiores, vai, você sabe como é baby, o vagabundo sou eu.

‘Morreu Tarde Demais’. Eis as tuas derradeiras palavras, gravadas na lápide incendiada à gargalhadas, enfim estou viva! Tocou-me pouco tempo para constatar que eres tão ruim quanto o inimigo, mas um pequeno detalhe me escapuliu! Oh, quando olhei pro lado, a obviedade melancólica que entupia tuas intenções me reviraram o estômago, surpresa surpresa! Pessoas me contam fatos inflamados, pessoas me chamam louca, mas estas pessoas morais danam-se sempre! Eu, lá de baixo, logo vi O Estorvo – e muito além de tu, homem-diamante que inspira paz desde longe das crostas peçonhentas da Paulicéia – mas não fugi.
Ali, pérolas ao porco foi, como sempre, meu barato maior. Ah, arrodilhada eu, rodas, rodilhas rodadas no xiqueiro febril onde, antes de morrer, nos montamos no leito, depois da histérica simplicidade de curtir uma noite juntos, cachorro-quente, coca-cola e O Circo, de Chaplin. E que circo pra se morrer em preto e branco, gangrenado pelos vermes da terra que mastigaram seu corpo de velho antes mesmo de você estar finado, desde sempre, decomposição precoce. Morreste tarde, meu querido, morreste tarde e sem respeito, só o meu que levaste junto a ti.
Img// Stephan Doitschinoff
Escrito por Camile Spring às 17h23
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Manifesto da Antropofagia periférica

Sérgio Vaz
A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula. Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.
A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar. Do teatro que não vem do “ter ou não ter...”. Do cinema real que transmite ilusão. Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras. Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Da Música que não embala os adormecidos. Da Literatura das ruas despertando nas calçadas. A Periferia unida, no centro de todas as coisas.
Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala. Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala. É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução. Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural. Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles ? “Me ame pra nós!”. Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra os covardes e eruditos de aquário. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.
É TUDO NOSSO!
Sérgio Vaz Cooperifa
Sérgio Vaz é http://www.colecionadordepedras.blogspot.com/
Escrito por Camile Spring às 23h46
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
[ ver mensagens anteriores ]
|
 |
|