MySpace
     Mata Adentro
     Avenida de Escândalo
     Embolex
     Cyber Tupy
     Viuva Porcina
     Amarelo Ainda
     Gustavo Guimarães
     Petra Schwarz
     Bianca Barbato
     Fernanda Couto
     Devaneios & Realismos
     O Impostor
     Blog do Guaci
     Marcos Vilas Boas
     Bocada Forte
     Colecionador de Pedras
     Radiola Urbana
     Selo Instituto
     Lost Art
     Zeitgeist, o filme





    Desconstruir a Existência


    Abatedouro

     

    O dia em que não voltei à casa jamais.

    Não me safo do momento em que olhei para o céu e prendi a respiração. Tombei. Quando despertei, estava em rua deserta, amuada em um canto sem luz. Os pensamentos não vinham, e com a mente silenciosa, quedei-me paralisada sem olhar para meu próprio corpo de cores. Não senti pavor, não senti frio nem calor. Senti-me numa bolha invisível a mim e a todos, alheia à tudo que ocorrera desde que estivera neste estado vivo da matéria. Não movia um milímetro em mim, posso sentir a não-respiração dos meus sacros pulmões amordaçados agora, agora que estou longe em definitivo das ratazanas de biblioteca. Em definitivo, não respiro mais. Tornei-me segadura do tempo, envergada para os lados perdidos de um campo secreto. Meu corpo endureceu, e sou tocada por ninguém em absoluto. Meus pequenos seios são hoje como cinzentos sopros gélidos de um eterno escravo espiritual, uma sombra amorfa e sem gosto que paira sobre o que foi abatido do meu peito. Da minha cintura escorrem lavas malditas que abrem rombos na pele macia de outrora. Sou mais nada que um vergalho pesado com resquícios pestilentos de fêmea desfeita. Sou nojenta como a verdade e cega como os vermes do poder. Revirei-me na sarjeta do passado, mordi o asfalto e perdi os dentes. E então, mortificada, recordei-me de que haveria em meus bolsos fundos d’alma, os dentes fortes do cavalo negro do tempo que dis-pa-ra lento e me faz extraviada. Delata-me, sou crime e lástimas por inteiro. Prostra-me, és miséria, és anêmico. Combalida e furiosa, venho de amores tempestuosos, naufragados em cais remoto e impossível. Pairo em miragens, sou toda deserto submerso em águas barrentas das costas da lama. Sublevo-me para cortar todos os cabelos da vaidade que ainda me restam.  Imoderada, peço equilíbrio aos recalcados musguentos da ilusão e da morte. 

     

    img//camilesproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 02h25
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Sem Título ou Koyaanisqatsi

     

    Ia dizer.

    Mas tenho água viva encalacrada na garganta e ela, se move, lentamente. Não abro os olhos então. Eles fechados vêem mais. Com acento. Vêem tentáculos coloridos e brilhantes da água viva que me cala e sorri. E eu choro sem abri-los. Lá fora é doido demais, culéga, quer brincar de viver? pra morrer? Dizem que Iemanjá abre e Exu fecha, e eu digo sim. Prefiro assim. Deleito-me no cálido coletivo humano, as intimidades costuradas pelo riso de um lobo. Upa, meus amados amigos taberneiros do coração. Em época de mulher inteira, encrespada pela própria respiração, o hobemgondemborâdeo quer pular corda. Quer viver triste pra morrer bem, permanecer na penumbra tribunalística dos machos perdidos S/A? ômodeus, aiuto. Uma reposição de verdades, uma contenção nas envergaduras da macheza, uma paz.  Aiuto, porque a maldade latente soa como o motor de um automóvel novo. E furam-me os pneus. E roubam-me a fechadura de um jeito todo especial, que me faz ter de entrar en el coche pela porta do co-piloto. É uma verdadeira festa no asfalto. Os olhares esguios, as aceleradas furtivas. Eu grito. E eis que lá no fundo vejo que a lembrancinha desta algazarra toda é um certeiro tiro na cara. Move-te água viva. Cala-me. Faz-me viva mais um tiquinho assim, quentinha no seio divinal da pazciência. Ó céus da boca. Ó Chauncey Gardiner, Kaspar Hauser. Ó Caldinhas minha, que pulsa la vida en las tripas, vá-te lá, ver pra saber. Ser pra escolher. E traz o marzão no bolso pra enxugar estes olhos ciganos da tempestade, mulher rara.

    Ensuite toujours ici avec nous. 


    Irregulares somos perfeitos, não em ângulo como as representações geométricas da existência, mas em méritos outros, escondidos em pequenas caixas pintadas à mão de mãe. Na palma da mão, olhar bem de perto, focar, enxergar bolhas de sabão embaçadas no resto do campo de visão. Tem alguém aqui?, além de Loris Lambys gigantes que caminham famintas por entre prédios neoclássicos neon, a achar graça de tanta destruição e imundíce. Las focas prateadas morrem morrem todos os dias, inconsciência coletiva. Vem comigo, mas só se for pra cair de rir e levantar pra chorar, e ser e estar, e como uma ratazana velha, engolir à exaustão. Mas que cara feia é essa que te põe triste mal comido quiçás, um ahhhf.

    Deito quente, somos tronco. Quem mesmo? 

    E viva Santo Antônio. 

     

    img//csproess djwcjenjcejn

     



    Escrito por Camile Spring às 07h33
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Às Monções

    “Às vezes, você fica ali, dentro dela, durante a noite inteira, para estar pronto se por acaso, graças a um movimento involuntário da parte dela ou da tua, lhe viesse o desejo de tê-la de novo, de fartá-la mais uma vez e de gozar apenas o gozo como sempre cego de lágrimas.” (Marguerite Duras, A Doença da Morte)

     

    Nunca gostei de garagens.

    Os subsolos, baldios, abrigam quê de medo e susto, um ser cego a espreitar no rastejo a entrada e saída dos moradores do Edifício La Spezia. Corro depois de fechar a porta do automóvel, corro para as escadas sem dar chance para ele me pegar, se esperasse distraída o elevador na garagem. E quando chego no térreo, cerro aliviada a porta das escadas com as costas, abro os olhos. Aprumo os sentidos, aperto o botão que me levará rápido pra longe de qualquer lugar que não seja eu. Os canos, o solo cinzento, as baratas e os carros. Com eles, as ruas que abrigam mortos dilatados no asfalto. São Paulo. Lá embaixo é frio e solitário, e, num pulsar de vida, tudo é diferente e nada mais importa. Alguém nasce, e eu vou morrendo por não ser muito menos. Muito menos. Pouco tempo foi suficiente, amor, oh tristeza em cima da mesa, essa que faz querer sumir, essa que faz subir um gélido sopro no peito. E aperta. Mas quem se importa com algo que é de ninguém, onde logo se vê, tudo é festa, e depois de ter um homem, se queda aliviada por haver sido vista de verdade. E basta. Mas nem tudo é festa, coração. O conforto está no passar dos dias, nas tarefas que escolhemos como propriedade e o resto é lucro nas conformes configurações. Devo então desacreditar completamente, amor não basta. E não basta. E não basta. Lamento-me nas paredes, escrevo ya no te quiero más, corto os cabelos, vou pras ruas, os anos passam e quando deito todas as noites te encontro passeando por mim. Agarro-me a teus cabelos macios, beijo a tua face cansada e adormeço com doçura. Mentira.

    No te perdono jamás si no estés conmigo, que lo sepas. Bien sientes que fuerte és lo que tenemos aunque no construimos nada. Das la cuenta y no seas tan despacio, si nos encontramos otra vez después de todo és tan lindo como natural que la vida se cambie. Quedate solo si quieres, pero libre para respirar el aire como un hombre de verdad.  

    E assopra a neblina pra clarear.

    E adormece fundo pra despertar, seja.

    Põe-me em meu lugar real e não neste sítio frio e culposo e eterno onde estou, calada e receosa como se de estar viva eu ofendesse. A ofensa, não nos olvidemos, é o efeito embaraçoso e covarde de um estado de reconhecimento, apropriação daquilo que nos acusam. E, no presente caso, quem acusa é um sonho visível, é uma vontade contínua, é a pulsação da própria vida. Adentramos-nos ali, não lamentes. Não há culpa que te permaneças longe de mim. Nem regues uma planta seca com lágrimas culposas por haver estado pleno sem. Arrivam-se finalmente nossas monções.

    Hoje, aqui, te permaneço como nunca.   

     



    Escrito por Camile Spring às 15h21
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Retalhos

     

    Vi-me azul cinzenta à beira de estrada estreita. Eu menina macenta, menina boa de fugir aos gritos que não alastram som. Esgoto-me em pequenos grãos de sal que flutuam flutuam, assim, não me podes lamber e cuspir e beijar e morder, se morres. Tens que ser aqui, meu estrangeiro. Meu trigueiro homem. Olhe, escolho as suas mãos rudes sem horas no pulso fino. Sem conveniência, estes olhos romenos à cavalo.


     


    Deita aqui um pouco. Vem.

    Sabe, a vida, essa vida que vemos nos céus cravejados e estradas de terra, não é nada que ultrapasse os segundos da decisão. A decisão minha. A tua. As miudezas, os alfinetes, as merdas de vaca devem ser degustadas devagar, bem digeridas, pois somos dois monstros em busca de paz. Vá-te embora qualquer dia de si, se lasque fora e veja de cima esta sua cara. Veja quanta água, e depois olhe ao redor. Eu serei então o contorno dos sacis perdidos na densa mata, o sopro escuro e decisivo que arranca as folhas no outono. Eu serei então o fulgor arrebatador de um doce lar em chamas, como bem enxergas. E tu, maluco, que me pegues caprichoso. Que me pegues por inteiro, por todos os lados e buracos, que me faças livre de ti, em ti mesmo. Sabe, parado assim, olhando pro teto de sobrancelhas tensas e desamparadas, eu ali, grudada no teu peito, cheirando teus pelos de olhos fechados. O fogo da lareira estala e então levantas e me beijas. E te sugo até que vires um pedaço quente de seda. Veja de cima, estrangeiro, veja então se a vida é mais do que fogo e seda, a vida é o quê? 

    As pessoas querem quê de algo, qual, alí, naquela rua, alí, naquele edifício distante calculado. Sem vontade de fumar, fumas, sem vontade de beber, bebes. Que me sento na velha cadeira elétrica das lembranças, já não sei morrer. Quando vejo aquele lago enorme tinindo a luz do sol através de gotas de luz, estou só. E permaneço quieta, como em qualquer manhã, depois de acordar. O retorno no peso do sono, dos confins da alma, o despertar despacio e cauteloso da consciência. Eu, calada. Eu, quem. Eu, animal. Não. Eu, pétala caída esfacelada, daninha, sem singeleza para exprimir-me, herética. Localização, triste aqui essa ponte enterrada dos desejos, triste lá o atraso dos anos que se foram demasiado rápido, sem dar trela às estruturas. Sem pestanejar. Mal sabia nós dos ligamentos; diz, vou ser só, vou flanar de solidão, vou chafurdar no egoísmo, vou autoemitir a permissão para ser triste. Assumo a demência. Não apoiarei-me em pulsos finos? cá estou com meus, a queixar-me da boa vida. De mãos cheias, de seios inchados. O ventre livre. E ainda, caro estrangeiro, te vejo montado assustado no rabo das sujas cadelas que muito latem, vejo o carretel delicado dos teus pensamentos desfeito em nós, dependurado por entre as ruínas de um corpo. Um ossario de boi. He boi. He boi. Passa, fio, vá-te rápido, faz-me o favor. Esses som de ausência vem dos trigais, olhe, se uma espiga de trigo emitisse algum som ao se despedaçar em chamas este seria o som da tua ausência. E quando apareces, sou toda luto, aquele que se faz com a bagaceira da uva. Luto alcoólico de meias rendadas, a cinta-liga que prende a respiração alheia e me destrói. Vês agora um corpo entumescido de mulher amódita, que contempla a falta de ar embaixo das areias negras daquela velha praia.

    A luz que te entrecorta os olhos quando me vês entrar na cachoeira é filtrada. Gameleiras, plumerias, jasmins. As pedras se calam quentes sob seus pés. E olhe, então, estamos inteiramente vivos, foragidos um no outro, encobertos pela fúria da natureza.

     

     

    img//Camile Sproesser



    Escrito por Camile Spring às 18h52
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    No prado

    Escorriam-se cadavéricas as formigas por aquele pano velho molhado, e com sorriso trêmulo de mulher apocalíptica, suas águas lavaram a mesa, o doce, o cinzeiro. O cigarro, enganchado encharcado nos lábios semicerrados, machucados, denunciava o teor da vida em animação suspensa pelos próprios lábios. Lábios esses, plenos de segredos escondidos por entre glândulas, veias, lençóis. Ali há uma pedra, ali há uma mulher de costas, suada, inebriada pelas dimensões que saem das paredes piramidais que ninguém enxerga jamais. A mulher sopra com a boca donde se revolteam furiosos ventos que destroem o gesso maligno das perdas estancadas atrás das cadeiras. As perdas de verdade, como uma estrada, uma escada, sem retorno, sem fim. Como tudo que há de mais profundo, simples assim. Te sentas ali, e observas durante horas a parede, ali atrás, onde há tudo de menos óbvio, onde as respostas saltam ao ar, inflamadas, exauridas. O presente chegou e gritou para os confins de um poço fundo, o passado acordou. 

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo.

    Ninguém vai saber mais que ela, com a crina presa num coque alto, a mirar através das montanhas enfumaçadas da memória, que o tempo, amor, é um cavalo maldito que dis-pa-ra lento. E de onde estás vivo, se vives deveras, o encontras. A luta é árdua e infinita, mas o fim é descaradamente justo.

    Eis o epílogo da vida bandida.

    Eis-me o amor.


    (…)

    É nos braços da tua irmã que vai chorar, e que vai ser sempre uma criatura sem nada além de si. Mesmo sua irmã longe, mesmo sua irmã além do horizonte. Ela está aqui, como sempre estará. Não te ressintas como o cavalo do tempo, que justo e furioso, dá coice na vida, e bota tudo pra baixo. Sinta a força da natureza e fique só por horas, quieta, sem dormir, sem querer absolutamente nada. Quem não quer nada sabe muito. Sabe tudo. Minha querida, ouça, assim, as gymnopédies e gnossiennes de Satie, deixe a janela aberta, apague todas as luzes e cale-se. Mande todos os seus pensamentos, dos encantadores aos mais medíocres, pro diabo. Desligue máquinas, desplugue-se de tomadas, e fique assim, alheia dos seres e quereres e caralhos da existência. E seja feliz, enfim, e confie no vento e neste cavalo maluco do tempo. Você ama o suficiente para se calar, à julgar pela força que ainda está por vir, concentrada e bem direcionada. Ânimo,  observe com calma tuas novas pérolas, e ame muito este grande homem, teu homem sempre.

     



    Escrito por Camile Spring às 01h06
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Alocromatia

     

    Ad paenitendum properat

             cito qui iudicat 


    Já são vinte para as quatro e ninguém chegou.

    É hora de chegar, ei, é hora de chegar. É hora de, enfim, apertar as brasas no peito das mãos e sentir o cheiro da carne escurecer a visão, enquanto um pai morre no quarto vazio ao lado. Saberá ele, enquanto morre, que meu cavalo negro galopa em direção ao jamais? Meu animal solitário, que na chuva chora e dispara contra a escuridão das matas selvagens e molhadas. Não. Ele não sabe e nem nunca saberá. Ele morre sem nem mesmo saber que está morrendo. A vida lhe escorre sem fracassos, apenas com um coração murcho, apertado entre memórias quase póstumas. Memórias frias, rígidas como a própria fuga da vida. Sabe, estes animais enrolados em plásticos desconhecidos e enlameados pelas estradas de terra do Brasil, afogados. Vocês sentem melancolia. Mas é vida, ora. Melancolia é não ficar de quatro e nunca haver se arrastado até o fim da estrada para sentir a beleza destes animais bem de perto. Alí, quando se aproxima de suas narinas e não há o sopro quente de vida, apenas paz. Pois a violência e a melancolia se manifestam intensamente naqueles que mais as repudiam, estes, que vivem a acreditar que estão seguros dentro da carcaça polida e courada. Estes, que fogem da natureza dos sentimentos a estancar as dores com a ignorância da razão. Estes, que se riem frente às regalias da beleza, mas se chocam e se enchem de intolerância e ausência quando a vida rebenta. Analisemos pelo esforço, o fracasso não é próprio de quem não se dá, mas de quem não se dispõe a olhar com franqueza. Arruina-se. Mala suerte? No. Malos ojos. Alocromatia, moléstia que perturba o senso das cores.

    Já é hora de chegada. Pode pensar que não estou bem, e fique à vontade. O ato não anula o fato, e duas pessoas só se encontram de verdade quando sem expectativas possuem algo uma da outra. E consequentemente, uma para a outra. Estar bem é um estado ordinário e uma condição social. Só se está bem para os outros, e mesmo quando se está forte ou amando, a prosperar o volume do espírito, o estar bem não faz jus às almas despertas. 

     

    ad partus ovium

    noscuntur pondera ventrum  



    Escrito por Camile Spring às 00h40
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    O Vapor

    E que eu me ponha em mim. Eu me tiro demais.                                                                          

    Abestalhando-se, besourinho? Sim. E depois nunca vai se lembrar das palavras, e dos gestos, e da vida. É só assim, é mesmo assim, te reclamo porque canso, ganso. Monstra, lontra gorda que se arrasta nas calçadas feito o patéta atleta da disneilândia do que cuidadosamente não importa. Pra mim e para mim, o que importa é exportar pra cá, nessa miudíce egoísta maravilha o que importei das camadas, transformar em palavras. Das calçadas desses econômicos, escassos, sulfúricos furiosos, infinitos dos adeuses – deuses  demoníacos do amor.                                                                                                                            

    Adeus, amor. Nem que seja só pra dizer. Adeus.                                                                                              

    Como vai você? Eu vou assim, ando a estar em tudo que é tão meu, apenas meu. Ou seja, eu. Você está longe? Se sente assim? Entendo, benzinho. Perto de um ponto sumário, imaginário fora dos eixos da terra? É exatamente assim que se gere, sugere dor, suor, piano. A noite adentra o quarto, lembra? Eu suspiro quando lembro dos abraços que não demos. Tem? É, eu concordo que devo ter destampado problemas demais de uma só mão. Minha mão anda queimada, sim, o vapor. Me cutuquei? Sim, desta vez como nunca. Cada um faz o que pode e como pode e quando pode porque somos tão absolutamente solitários e burros feito jiló de molho.                                                                                                              

    Poupe elogio, bem.                                                                                                                                                

    Você acreditava? Eu acreditava, embora nunca houvesse, de verdade no duro, sabido. Talvez jamais saberei. Mas fico comovidamente honrada que você acreditou em nossos erros gramaticais. Eu erro tão feio comiga. Fico sem miga. Não. Não. Fico assim, com migalhas de mim, e me rôo feito esquilo magro faminto de si.                                                                        

    Ma enfim, coração, não há de ser nada... Não quero mais te aperrear, precioso, hei de ir nessa. Eu também amo, sim. Relaxe. Deixe que minhas mãos ardam, até daqui uns estalos do tempo soarem e, lentamente, força surgir pra tapar essa panela quente e brilhante de barro a fervilhar alguns eus.                                

    Não te preocupe, bem.                                                                                                                                            

    Eu dou mesmo muita risada, mas ainda não enlouqueci pelo menos por completo. Onde queima? O vapor queima neorônios e partes sagradas do coração. Queima, dói, mas entende, amor, não me esvai com o torpor do calor, como a lenha, ou a pele de um animal atropelado.                                                            

    Solda-me feito aço.                      

    Mulher de lata? Não, bestinha. Aço molenga, molhado, vermelho. Mulhér, benzinho, você sente como é?

    É carne, muita carne e sangue. E chuva. Torrencial, o sangue e a chuva. E degraus de costela, degraus que guardam um oráculo infinito pequenino que pulsa forte, em cotidiana demasia, e dá choque, e nunca se cala, e pisca, assim, feito passarinho prestes a morrer perto do sol. E aí, coração, você deve estar livre, desentupido, para chorar muito. Na rua, no avião, na escola, no celeiro, na festa, no outono, no elevador, no metrô, e de preferência no chuveiro. Ou melhor no meio do mato. Vida, bem.                                                                        

    É um pouco assim. Mas é também amar demais, tem jeito não. Você sabe melhor que todos. Vivo, logo amo. Amo, e rebento.                                                        

    Amo, e acordar, esticar a carcaça do hemisfério norte ao sul e gritar FUNCIONA BRASIL!                

    Dormir solta dentro de mim. Com gavetas se abrindo e tudo voando aos brilhos, essas mágicas de estar vivo, de estar bem aqui.                                                                                                                                              

    Se ainda sinto a velha aflição de não entender e não conseguir formular a grande questão? O não-pertencer? Claro que sinto!  

    Eu ainda não consigo, só tenho ausências relâmpago, e de repente não ligo os cabos e não sei o que somos, digo, a forma humana, não entendo o que é isso tudo aqui, e como viemos parar, enfim, aqui.  E então aquela mania de ficar olhando fixo pra minha mão durante tanto tempo né… Os arrepios. Você estranhou, né, coração. Viu, passou. Quando eu era muito pequena acontecia todo dia, eu ficava fora sem qualquer noção do que somos, isso é, não entendia a forma humana de existência, era muito, sensacionalmente, estranho. 

    Agora só acontece voluntariamente. É. eu passei a cultivar a sensação. Como eu faço? Tenho que começar a olhar minhas mãos durante algum tempo. Depois vem a grande incompreensão, mas dura pouco. Uma pena.                                      

    Bom, bem, quero ir dormir. Preciso sonhar com umas paradas que andam surgindo por aí, nesse porto magnético das sortes, dos pensamentos, tentar entender pelo outro lado, meditar. É danado. Sim, eu preciso meditar. Nos vemos loguinho, sim?

     

    Vem, me abraça forte e respira, traga o vapor quente do meu corpo inteiro.

    Adeus, amor.

     

    Cuida.

     

     

     

     



    Escrito por Camile Spring às 04h30
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Hoje é a curva

    Seu Orlando morreu.

    Não esqueci, porque destas coisas a gente não esquece.

    Não eram férias de julho, mas de janeiro, quando a gente ia dormir ansioso pra acordar logo e nadar, jogar taco, jogar bola e brincar mais nos dias quentes e longos dos verões com gosto de pastel e suco de maracujá do Décio que não voltam nunca mais.

    O Vale das Vertentes é cercado de mata fechada, é banhado por um lago e as flores, os pássaros e os bichos daqui sempre me pareceram pré-históricos de tão vigorosos. Que diga os insetos. Este lado de Serra Negra sempre teve energia toda especial.  

    Meus avós construíram essa casa no fim dos anos 60, e desde então nossas vidas florescem e se transformam dentro dela. Da mesma forma que minha mãe e minhas duas tias gêmeas cresceram aqui, eu, minha irmã e meus três primos, anos depois, crescemos aqui.

    E o tempo passou e varreu nossos elos firmes de criança. Os segredos de estado, as picadas, os tombos, a zueira toda e a intimidade. Hoje nos trombamos pelas ruas e mal nos reconhecemos. Mas essa é outra história, e fica pra quando eu estiver forte pra contar das perdas fatais, irreversíveis. Hoje estou com o coração nas mãos sob o mesmo céu azul exuberante do Vale das Vertentes. E quando coração fica na mão é sinal que se perdeu feio algo de valor inestimável, mas há em algum outro porto um navio escondido que fortalece, a solidão fortalece. E essa mísera consciência de solidão aperta forte, e dói.

    Podia ser segunda, sexta ou domingo, todos os dias eram iguais. De bermuda, camiseta e boné, saímos eu e minha prima Bruna com todos nossos oito anos de existência sob as rodas velozes e cor-de-rosas de nossas bicis envenenadas ladeirão abaixo. A enorme rampa de terra que guarda minha casa quadrada faz uma curvona quando chega no lago, e foi bem ali que a animadíssima perseguição chegou ao fim. Eu tava ganhando até aquela curva, mas essa curva aqui curvou os ares, o sol ardido. Trapaça feia, a roda dela raspou na minha e eu, curisco magricela, voei. Voei pro chão, minha barriga entrou no guidão e então o sol sugou todo ar da atmosfera e as pedrinhas enterraram minha boca seca. Quando abri os olhos cheios de terra vi cheiro de sangue nas mãos da cabeça branca do seu Orlando. Ele me pegou com asas de anjo, e voou com sua berlinda até minha mãe, que desceu correndo com a cara muito vermelha tremelicando a rampa da garagem de tão aflita que ficou com os gritos do seu Orlando. E então mais uma vez estávamos todos lá, na Santa Casa, esperando eu, a boneca dismilingüida, estar concertada.

    Seu Orlando me salvou a vida,e hoje ele perdeu a sua, e eu estou aqui sentada, olhando aquela curva. Hoje eu queria falar com a minha mãe, e dizer que não sou assim, tão ruim. Ninguém é tão ruim assim. Que as vidas se atrelam com o tempo, e o tempo atrela as vidas. Eu sou atrelada, mesmo deitada sozinha na grama do campão, olhando a gente jogar bola.

    Hoje levo pouco mais de oito anos de existência sob as rodas velozes do tempo, mas sou exatamente a mesma menininha.

    E eu preciso muito das pessoas que me são atreladas, porque muitas delas se desatrelaram sem minha permissão, no susto, nas outras curvas que a vida dá e te derruba, e o anjo não vem, e de repente, quem é sangue da gente permanece completamente alheio e não te quer mais, nunca mais, Fievel. E as perdas reais dos vivos se consumam com as desistências de quem não lida com a válvula com que se constrói as histórias de vida, a valiosa intimidade. Esses problemas que transformam a identidade de uma família, tolerância quando amor não basta, fragmentos, fragmentos de uma vida inteira. E assim perecemos, desatrelados à fraqueza de algum integrante da tripulação que comeu pouco feijão e abandonou o barco. E desse barco eu não saio jamais. 

    Hoje é a curva, e eu não caio mais.

    Quem perdeu hoje, de verdade, foi Dona Terezinha, esposa de Seu Orlando. Hoje vou acender minhas velas por eles, que hão de se encontrar diante outro vale, outras veredas. Eu hoje vou rezar na mata, e agradecer por ter no sangue três mulheres, mãe, avó e irmã, fortes demais, que não têm pouca história, nem pouco amor pra dar. Nem pouco nada. E vou agradecer pela vida, que sempre me dá tanto, sem que eu precise perder tudo de verdade pra acordar. Adeus ano velho, porque hoje é a curva, curva essa que chegou junto à da Maria Letícia, Coringa que me guia no karmanghia da existência, parabéns pelos 31 de ripa fina, mulher.

    Hoje é a curva, e daqui em diante vou tentar ser apenas o que eu faço do que fizeram comigo. E vou errar feio, mas ninguém é tão ruim assim. Vou ser minha versão incorrigível de mim mesma, assumidamente humana e adepta aos acertos e equívocos, assim como sou, eu protozoária, eu, filhote de labrador.

     Agora eu sento na ladeira e olho a curva. O anjo está ali, e se despede nos reflexos do lago. 



    Escrito por Camile Spring às 21h39
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Karma Chameleon (I cum and go, I cum and go)

    Evapora-se o turquesa nos oceanos, quando tudo o que há nesta praia são cascas de banana que fazem mal, mas muito mal. Hum, mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco. O bode é meu, a vaca sou eu, e não estou, não estou em nenhuma esquina de Truffaut, em nenhuma cama de Almodóvar, nem mesmo em algum céu de Kurosawa. Não estou dormindo, não estou nos bares quando pareço estar, em algum canto fora do campo de visão talvez esteja, não completamente sozinha porque agora há um incômodo, uma tensão sexual, um objeto ruim de pegar.

    Photobucket

    Agora há Paris, o Mario-que-me-come-atrás-do-armário e suas sinfonias clássicas nas madrugas de Sampow meu, a gente se encontra na hora do último vinho e se beija sem boca, e conversa com ninguém juntos, e depois bebe cerveja tcheca pra enganar as vontades chocas. Ele não me diz a idade pra eu não dizer a verdade, eu não digo, provavelmente, nada que preste nem pra rir, nem pra nada. Ele é mesmo um grande galã do trance. E não importa, porque eu não estou presente, eu não estou passado e muito menos futuro. Estou fora de temporada, fora de cartaz por tempo indeterminado, descascando, dançando em pirâmides nos subsolos de alguma cidade que nunca existiu na puta que pariu, ouvindo o Dalto cantar cuidabemdemiiiim então misture tudo dentrodenós, de pijamas, rendida, pronta pra ir embora de qualquer lugar a francesa, dando tiro de espingarda na lâmpada acesa. A vaca faz pliê, e agora eu preciso dormir e descansar meus sacos cheios de ar, inchados de vazio, sonhar com os aspectos mundanos das abstrações e dos homens farofas que são muito mais interessantes quando você não vê tão de perto. Ahn não! Chega de briga, estas reivindicações malacafentas de quem se nutre dos maus agouros alheios, das amigas, das fofocas. Chega de Paris na madruga, chega de inventar homens em peles de banana, eu não estou, não estou em nenhum tubo de ensaio no lab dos Paulistas Idiotas LTDA.

    E chega de ficar na praia sem protetor solar.



    Img//CamileSproesser

    Escrito por Camile Spring às 13h09
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Dreamy Weather

    Photobucket


    É esta cidade e a maneira que ela se move diante nossos corpos de carne crua. E como acreditamos no que não sentimos de jeito nenhum, acreditamos em coisa demais. A noite entrevada mostra apenas uma luz acesa, que aqui da janela me faz querer constituir família e fazer sexo sem parar durante quatro horas com meu marido de dez anos, depois que as crianças finalmente pegaram no sono pesado. O ódio do sono, o famoso ódio do sono que dá nos bebês ansiosos para acordarem logo e observarem um pouco mais da existência. Um pouco mais das maçanetas, dos vãos geladinhos e confortáveis que só as crianças são capazes de desfrutar. Observar a cara de besta dos adultos que a essas hora já se esqueceram de tudo. As cores dos coelhos e girafas de pelúcia, o barulho da janela que se entreabre e briga com o vento a uivar lá fora. A risada alta dos pais enquanto jantam e ouvem algum disco velho do Erasmo. O cheiro da chuva nas primeiras horas do dia e o abraço apertado quase sufocante da sua mãe quando você começa a vida escolar. E a hora da preguiça no sofá, ainda com o uniforme, lendo um livro ou vendo desenho animado antigo, pescando de sono. Os lápis de cor e as canetinhas, o pé descalça o dia inteiro brincando de panelinha no quintal, a imaginação, a imaginação, os irmãos, os primos, os cachorros, as viagens, os esguichos, os lanchinhos e as pequenas cagadas e desastres inevitáveis aos descobridores do mundo. As broncas, os chiliques, o tédio, a ansiedade e os aspectos mais confusos dos primeiros tempos de vida em que se cruza o braço, faz bico e fica emburrada pra aprender que não se controla nadica, e o seu jeito não é o mais apropriado. As quedas, ahh, as quedas! Os joelhos eternamente machucados de menina fogueteira, o vestido todo sujo, minha mãe a perguntar todos os dias “…mas filha, você rola no chão?”, a cara preta da mão suja e suada no cabelo, na empadinha. As aventuras de Calvin e Hobbes, eternos heróis, o astronauta Spiff e os monstros escondidos pelo quarto. Fugir pelo menos três noites por semana para a cama da irmã de medo dos monstros nas prateleiras e de seu habitat natural, embaixo da cama, e ser recebida por resmungos “hha..nham...tá,dorme logo..hh” com abração quentinho de irmã mais velha. As adivinhações verborrágicas das músicas em inglês, verdadeira essência de Elton John nas longas estradas de agitação no banco de trás, ora rindo, ora chorando, ora cantando, ora sonhando. E a falta de noção geográfica “que cidade é essa?” no meio da rodovia, “faltam quantos minutos pra chegar?”de dez em dez minutos, e assim por diante nesse longo galope pela estrada colorida. A noite entrevada agora se ilumina apenas pela lua cheia, aquela luzinha já se apagou.

    Eis a cidade que se movimenta devagar diante nossas almas de algodão doce, e esse clima sonhandinho…



    Escrito por Camile Spring às 04h10
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Serra Negra, março de 1982

    Photobucket



    Dizem por aí que as formigas andam morrendo sem motivo aparente, dizem por aí que os olhos sucumbiram à formula e o coração à mente, dizem por aí que as garrafas de água foram afogadas porque, dizem por aí que a rua Augusta é o local mais gostoso para ver a vida passar, dizem por aí que as pessoas não têm mais a capacidade de permanecerem juntas, dizem por aí que esse cheiro de queimado na rua é da chuva, dizem por aí que as estradas litorâneas estão demolidas pelo cansaço dos jovens paulistas, dizem por aí que o lixo ácido matou o unicórnio que morava em saturno, dizem por aí que o pânico é o mal do século, dizem por aí que é incrível levantar da cama todos os dias, dizem por aí que as coisas que ficaram muito tempo por dizer na canção do vento não se cansam de voar, dizem por aí que arte contemporânea é sentida através de um curriculum vitae, dizem por aí que de repente algumas mocinhas ficaram chatas demais, dizem por aí que de repente alguns homens não têm medo coisa nenhuma, dizem por aí que os passarinhos andam caindo do céu, dizem por aí que as pílulas são o bem do século, dizem por aí que os telephones estão a venda na farmácia, dizem por aí que a anestesia emocional é a melhor parte, dizem por aí que os livros viraram enfeite na estante, dizem por aí que não existe mais tempo para revelar as fotos, dizem por aí que as famílias se desintegram desintegram, dizem por aí que os iates de South Beach estão a navegar no Arapiuns, dizem por aí que dor de amor quando não passa é porque o amor valeu, dizem por aí que a memoria é curta mas se controla o que acontece entre as gerações, dizem por aí que os cavalos estão chorando e não comem mais, dizem por aí que os alimentos não alimentam mais, Dizem por aí que você pega o trem azul, o sol na cabeça, dizem por aí que a infância é a única esperança da alegria, dizem por aí que os alunos roncam e sonham com fotografia, dizem por aí que desse jeito não dá pra seguir a vida, dizem por aí que o melhor mesmo é ser antiga.


    Escrito por Camile Spring às 01h39
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Homem turquesa

    Photobucket


    Poderia ficar acordado assim, quieto, de olhos abertos. O tom torquoise daqueles olhos castanhos em algum ponto perdido da atmosfera aberta e livre, assim como as sanfonas que gritam a existência com o ar. Doces são as escadinhas daquela toca, aquela toca que ilumina os sonhos pelas frestas do céu, aquela toca que conversa comigo enquanto ele toma banho e pensa que eu não vou acordar nunca mais. Homem-fogueira põe fogo, faz fogo e toma vinho de capuz, não pára de falar, anda pra lá. Parte mais madeira com o tênis, ri, faz mais e mais fogo, me olha de longe e sorri e se senta ao meu lado e se levanta e me conta sobre dias fortes do passado, memórias guardadas há séculos em alguma gaveta esquecida no coração. Agora parece um menino de oito anos, agitadinho com a piromania que retorna depois dos anos que se passaram sem fogo, se cala. Sente o fio quente das transformações lhe percorrer a espinha, por onde começar? Onde estará seu balão, onde estarão as maçãs que caem todo santo dia. As cores, eu disse, eu sei que disse porque é assim, meu ampliador não possui filtros. Depois eu recuo dentro de mim mesma, dentro da minha cama negra, eu caço palavras que escaparam sem meu consentimento. Eu caço momentos de estranhamento entre os olhos fechados, entre os azuis e laranjas rosados que se abraçam na cama. Eu caço as sardas de homem do mar que se perde entre os portos e não sabe mais chegar em lugar algum. Mas vá, garota, recomece o sábado em algum canto mudo da cidade alta, de vista privilegiada para as calúnias emocionais, o discurso da abiogênese amorosa, o somos-amigos-que-delícia-beijar-seu-corpo-inteiro e etc... Aqui necessito ser antiquada, Let’s just kiss and say goodbye, mafriend. São essas tardes a la Barry White pra aliviar a ressaca sentimental e me fazer lembrar que entre nós há o tipo de relacionamento inviável a meus pulmões.



    Escrito por Camile Spring às 14h21
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Yatch, toujours avec mon père

    Do céu, se desdobra o intestino. A dor vem da barriga, mesmo que seja incrivelmente difícil identificar a parte física que dói. A dor não é física, mas o choro vem da barriga, de qual parte da barriga. Eu tenho uma barriga emocional. Eu tenho uma barriga emocional que arde, desdobra o intestino diante os céus, sobe para as costelas. E as costelas se abrem com força como nuvens que partem num dia de sol. Nada dói se possível agora, o agora possível é confortavelmente fresco, e o tom solene não se despega. Este tom solene poderia significar pleno descontrole sobre as palavras, sobre o espaço que me é disponível e as luzes do passado que brilham sobre o peixe e a tinta. Encontrarei então a luz perfeita para escancarar meu obturador embaixo d’água de terno, gravata. E salto alto para justapor aos leões do ano, o ano em que tudo começou.  O eu sonhandinho, eu sou quinze pras três quando ando séria, tão séria por fora, a casca dura e os pensamentos longe, quando não escrevo, quando não desenho, quando não posso fazer nada além estar viva e sentir a umidade universal e atmosférica dos olhos fechados e do silêncio das águas.

     

     

    Hei de alimentar o cão livre, o cão louco está quieto e assustado, deitado em um dos meus rins, e no momento gostaria de ajudar quem me pede, como sempre faço, mas no entanto necessito de atenção. Deu pra ouvir a tagarela impulsiva quando o objeto de atenção sou eu, não menos que atenção, é fácil estar na superfície, mas não pra mim. Pelo que consta, amizade não se cobra, se ganha com o tesão de uma tarde ao lado da pessoa mais bacana do mundo. Antes os encontros secretos eram com guarda-chuvas abandonados pelo asfalto e pelas árvores de São Paulo, eles sempre chorando me diziam barbaridades e também me faziam chorar. Os guarda-chuvas paulistanos abandonados não são tão diferentes de você, ou de mim. Agora eles sumiram, e eu sei o preço que paguei por não tê-los no caminho, ora, eles me existiam, você não vai saber. Porque as manhãs, sentada embaixo daquele moinho enorme chamado mundo se passaram, o vento girava o sonho de poder dormir sem chorar junto depois de tanta pancada na rua. As feridas abertas e o grampeador desesperado que fazia sangrar mais, mas aliviava quem já estava anestesiado. Ai ai ai, uma jovem antiga, ou de uma velha criança, algo assim me remete às músicas cantadas pelas mulheres que eu mais gosto. E as luzes que enfim se apagam, a noite cheirosa e sóbria, um vinho no máximo, e um beijo devagar. O frio na barriga de ansiedade, o sorrisão debruçado na janela desse comecinho delicioso de fim de ano. O aniversário do grande homem que me cuida, que me salva de todas as horas, saúde jovem doutor Sproesser, muita saúde.     



    Escrito por Camile Spring às 00h00
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Intempestivo Tempestade (le printemps)

      Abacaxis da Paraíba, suco de abacaxi pérola, abacaxi de qualidade, prova o abacaxi, abacaxi bem doce, vai experimentar, abacaxi pérola genuíno, abacaxi da roça, abacaxis, abacaxis.

     

    Primavera pela rua até os interiores dos lares, alguém se senta a ouvir os seletos abacaxis brasileiros e seus caminhos tropicais. Um dia normal na vida de uma garota e o efêmero frio ensolarado que chega e parte rápido no ritmo atrasado do inverno em São Paulo são bons motivos para viver de tarde, no aprés-midi da existência. Mas é no aprés-matin e um pouco antes do almoço que na rua lhe cai titica de passarinho no pulôver. Titica vermelha de passarinho que come amora. Olha imediatamente para o lado e diz preocupada:

     

    – deve ser amor.

     

    Quem foi mesmo que definiu e qual o termo para as respostas encontradas depois do momento das grandes questões.

     

    A bola quica e eu ... não rebato.

     

    Das desavenças e a devida rapidez para formular boas frases no exato segundo. O atraso das soluções do pensamento, as imagens antes da linguagem, o tempo, o tempo. O ‘eu devia ter falado isso’ e o rastejo arrependido e inocente do olhar que não viu a tempo. Em Concorrência Desleal, filme de Ettore Scola, naquela parte em que ela diz irritada pra ele que não adianta mais ele saber o que falar, que o tempo já passou, e que --------- chama isso de --------. Acho que é Nietzsche?

     

     E no entanto, eis a definição de impunidade

     

    im.pu.ni.da.de
    sf (lat impunitate) 1 Estado de impune.

     

    im.pu.ne
    adj (lat impune) 1 Que ficou sem castigo. 2 Que não foi reprimido.

     

    Da negatividade quanto a não ser reprimido, a considerar a sorte. Se houvesse em algum lugar alguém impune pela vida (e não pela lei), alguns diriam sortudo, bom pra ele, ruim pros outros que são punidos. Outros diriam bom para os outros que são punidos, pois não carregam a obrigatoriedade de permanecerem “especiais” por que são impunes. Ruim pra ele, pois ele tem a tela, tem as cores, e agora precisa ser mais genial do que Velásquez e suas meninas.

     

    Pois a sorte calculada pela vida teria influência da presença física e espiritual do bem afortunado? Que exercem poder psicológico pelo porte assim como os tiranos, já teria alertado Kafka em Carta ao Pai, creio eu. Ora, a repressão é dada pelos que pedem, dizem os reacionários. Ora, a repressão não há de ser justa, pois o homem deve permanecer livre frente às escolhas que faz e as conseqüências que estas implicam, entretanto a vida é justa, e a repressão dada por esta também deve ser. Ou seja, a repressão dada pelos homens pode ser injusta, enquanto os infortúnios ditos ‘naturais’, se é que estes existem, são sempre justos frente aos erros. Mas se os erros não fossem de natureza maldosa ou prejudicial, apenas de valores que desmerecem o esforço de outras pessoas, de quem é o erro, daquele que concede a impunidade ou do impune?    

    O que representa a obra de Godard na sua vida pode ser uma pergunta abertamente estúpida para uma sala de aula e a única resposta é “o único francês que me interessa no momento é Truffaut”. Vê-se aqui um exemplo claro de ---------, definido por ---------, quem creio ser Nietzsche, pois a resposta em questão foi ‘não vou falar sobre isso’. Então respondo agora a todos que não são a pessoa que me perguntou, que de fato o único francês que me interessa no momento é François Truffaut, a considerar o humor justaposto ao drama amoroso e a autonomia de mulheres lindas e espertalhonas com alguns homens sensíveis, diretos, nervosos, bem humorados e que não apenas andam, mas correm pelas ruas, como Antoine Doinel e a saideira L'amour en Fuite. Isso sim me interessa e não responde a nenhuma pergunta.

     

    Godard teve razão quanto ao trunfo do imperialismo estético em decorrência ao econômico. Eu peço um lápis, alguém aparece com um cinzeiro, eu tenho vinho e peço água, me sirvo escondido de vinho no copo de água vazio. Alguém diz que o bar está fechando. A água está fechada, o bar está vazio. Vasculho a bolsa e acho o lápis, viro de uma vez o copo com vinho, apago o cigarro no cinzeiro e escrevo na parede

     

    VOILÀ LE PRINTEMPS

     

     

     

    Img// George Barbier



    Escrito por Camile Spring às 19h35
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    Coma Me

    Encontramos deitados ao sol os corpos de um homem e de uma mulher. O homem, que estava deitado sobre o corpo da mulher, tem suas pernas entre as dela, e atrás de sua orelha o buraco da bala com sangue coagulado. Na têmpora da mulher, havia uma ferida igual, feita pela arma que ela ainda empunhava. A mulher estava deitada de costas, com as pernas abertas, e a saia levantada permitia ver a parte de cima de suas coxas. A cabeça estava virada para a janela que dá para o jardim. A morte foi instantânea, e deve ter acontecido por volta das 05:30. Considerando a posição de seus corpos, devem ter mantido relações sexuais logo antes de morrerem.                         (François Truffaut. La Femme d'à côté)

     

     

     

    Das tardes, quem enxerga as linhas horizontais distantes que separam os amores difíceis, aqueles que não permitem aproximação, nem ausência completa. Os amores desmaiados, em coma, devem permanecer impassíveis após implantar secretamente um corpo estranho verdadeiramente incômodo na coronária circunflexa esquerda. São poucos os homens significativos, mas espalhafatosos, corpulentos, estancados nos sonhos de toda noite. Benditos sejam os sonhos que gritam. Malditos sejam os fatos que calam. Deveria haver o tempo passado por aqui, mas onde se encaixa, onde se encaixa?

     

    Onde se encaixarão em mim, agora, os homens que vivem sem mim, mas que em algum lugar da história, sem mim não viveriam. Onde devo deixá-los, se o que se esgotou não foi o amor, mas as possibilidades inerentes à realidade. Será que a saudade será para sempre companheira dos anos e anos que disparam impiedosamente. Dos nossos dias não há meio de sentir falta, das andanças, aquelas danças no solo de taco-taco. O sol apino e o dia seguinte completamente desnecessário à existência. Mas os dias de hoje correm com mais força, com a minha.

     

    Sozinha pelas notas agudinhas do piano me viro a mirar os seres ceifados, e por agonia três batidas em um mês, todos em mim. Andarei eu distraída e alheios os carros porram nas minhas laterais porque. Para onde tantas pessoas vão sem você. O esquecimento é uma saída sem volta e fica guardado na gaveta de emergência. A convivência é impraticável. Para os dois homens que amei demais, o coma é inevitável.

     

    Coma advindo de traumatismo emocional, daquele tipo que não volta nunca mais, mas abre os olhos em resposta a um chamado, pronuncia palavras inapropriadas e possui flexão anormal e estímulos dolorosos. Especificamente, nível 3 na escala de coma de Glasgow, que define como coma profundo, 85% de probabilidade de morte; estado vegetativo. Mesmo se quem te ame esteja sempre presente. Antes de você. Antes de conhecer você. Mesmo porque só é possível gostar assim, depois de tanta, quando não faz mais sentido, quando o Adeus já foi dito e este coma vígil é irreversível,amém.

     

     

    img// stephanie towell

     



    Escrito por Camile Spring às 00h39
    [ ] [ envie esta mensagem ] [ ]



    [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]