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    Desconstruir a Existência


    Nubelosa

    I know the bottom, she says. I know it with my great tap root; / It is what you fear. / I do not fear it: I have been there. / Is it the sea you hear in me, / Its dissatisfactions? / Or the voice of nothing, that was you madness? / Love is a shadow. / How you lie and cry after it. / Listen: these are its hooves: it has gone off, like a horse. / All night I shall gallup thus, impetuously, / Till your head is a stone, your pillow a little turf, / Echoing, echoing... 

     

    (Início de Elm, poema de Sylvia Plath em Ariel)

     

     

    Agora que o vento da noite inunda o mundo e quem o habita desigualmente desordenadamente com os olhos me calo embaixo de um pequeno caule amarelado. 

     

    Dizer coisas duras deixou de ser simples. 

     

    Nada que de mim se transforma em palavras me agrada, nem as vírgulas me parecem justas ou os pontos finais, sinceros como antes. Dizer qualquer coisa não digo quando poderia dizer, fico por não escrever, a tardinha de chuva e chá se transforma em coisa morta. Perco meu direito de escrever, assim. 

     

    Na lapa as ruas barulhentas tão vazias, há cães e pessoas e árvores e tão vazias. Sento-me na praça de camisola branca e leio um poema de Plath. Chama-se Elm, nunca hei de ter visto uma árvore dessas. Mas já estive lá. 

     

    Plath, Plath, Plath. Você deve mesmo ter sido uma mulher difícil de viver, um peixe colorido ofuscado pela própria cor. Inundada pelos segredos do ser. Saturada de tanto saber de si. E ainda tão triste. 

     

    As plantas da rua revoluteiam ao vento conforme atravesso para entrar em casa. De volta, deito no chão frio da cozinha, sinto o gelado nos pêlos, na lombar. Umas baladas de Chopin ecoam, ecoam. São o que eu tenho no momento. Chopin e meus cães. Um homem. Dias comuns que passam notáveis pela sua pureza. Seus silêncios e refeições. A bondade dos bichos deitados ao sol; uma estranha que corresponde ao sorriso que deixei escapar no metrô; o conforto de vislumbrar a luz quente vinda de alguma varanda suspensa ao longe. 

     

    Nesses momentos, sou tudo e todos. Vivo completa por todas as almas líricas que habitam o vento noturno, os bichos puros e os impuros, os loucos, as vítimas, as putas, as mães, os amores antigos, as ex, as atuais, os canibais, os garçons e até as esculturas. Sou o brilho no saco de lixo que guarda os pertences daquela mulher sem dentes na soleira da Estação da Luz. Sou tudo o que vejo, o que não gosto e o que não posso. Sou minha avó que escorre pelos meus dedos. Sou as pedras que carrego. 

     

    As palavras duras que me escapam.  

     

     

    img // camilesproesser


     



    Escrito por Camile Spring às 01h45
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    Crau

     

    Que o escravo que gira o moinho possa correr pelos campos / Que contemple o céu e gargalhe aos ventos claros / Que a alma acorrentada, encerrada entre trevas e suspiros, / E que jamais sorriu durante trinta exaustos anos / Se erga e olhe em volta

     

    William Blake em Prophetic Works, Unengraved

     

     

    O sentimento empalado por camadas vis de pensamento, 

     

    o pensamento traído, uma rajada de dores oblíquas no útero, qual ninho sagrado os pássaros humanos os ovos de carne. Alguém que não comigo está todavia em mim jaz eterno, quem sabe o amor ainda ausente trabalhe em plano outro, do que quer ser, quer ser livre, o amor sempre quer ser livre. 

     

    No longe,

    pelo transtorno é que me acho, nele e só nele estou e nele me reforço, no transtorno quero a todos os transtornados, meus velhos erros se calam e eis que pura estou, rica de horas que só existem em noites espargidas do transtorno, horas frágeis horas em ruas mais escuras, difíceis de enveredar. E vê, vou sozinha. 

     

    O pensamento traidor, uma rajada de dores alheias, causar dor aunque no se vea, ojos que no ven, corazón que si siente. Raso do que engana se só engana a sí próprio, se já muito enganei a mim pensando enganar aos outros. Alguém que assume verdade deixa de ser medíocre, mas alguém que deixa de mentir por medo e não por verdade é ainda medíocre. Deve ser. 

     

    Mas ainda assim, medíocres todos somos, medos todos temos. Por isso, não deixem de viver com um cão, um amor, uns drinks matinais. Não deixem de errar nem mandar seja quem convenha à merda, incluso essa que vos diz e caga regras há tempos, pois viver só custa a vida. 

     

    Valendo.

     

    img//camilesproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 02h33
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    Satangoss

    Quando se desespera, a estreiteza é uma falta de primitividade, é porque nos despojamos dela, porque, espiritualmente, nos castramos. 

    Søren Kierkegaard em O desespero humano

     

     

    Fora de onde estarei, 

    quando os olhos alcançarem a exatidão das formas terrestres eternas, quando o peito estourar enfim estarei nos brancos cantos das paredes que me prestam o sufoco confortante entre ruas e avenidas sem destino. O destino é um só, sempre o não-estar das coisas e objetos que me olham com rancor por não pertencer, o morrer é infinito e imediato, viver é estar aqui agora digitando letras letras dantes digitadas, o feito é refeito e mal acabado, as continuações são dramáticas demais, mas a casa está limpa. 

     

    As gentes ocupam seu lugar na cidade, 

     

    A gente cresce e de repente avista um sol mecânico e fosco entre prédios frios que estocam histórias de vida e me pergunto se minha vista anda turva, sou turva o sol turvo e melancólico como se pedindo socorro socorro, me tirem daqui, me dêem outra vista. Mas esse sol sou eu, que não preciso, enfim, de nada, vai passar, a dádiva está dada, a vida está bem aqui, nessa latinha que é o meu corpo, destampada, com uma granada pulsante em seu interior.

     

    O passado ocupa seu lugar no presente, 

     

    Agora estou sentada diante toda minha vida. Minha vida se confunde com muitas outras vidas, sem que todas tenham tocado efetivamente a minha. Será que, indiretamente, eu amo quem ama quem eu amo? Será que eu serei amada por simplesmente amar? Será que quando eu digo que amo alguém esse amor se dirige ao universo inteiro, aos moribundos, solitários, assassinos, milionários. E quando eu amo alguém, alguma vez serei capaz de deixar de amar, ou será o amor cumulativo, impossível morrer de verdade. 

     

    A dor ocupa seu lugar nas pessoas,

     

    As pessoas deviam dizer mais o que sentem sem medo da dor. Dor é sentir. Sentir dor, pura e simples dor, que ocupa os espaços guardados pela muralha de cada um. E se minha muralha se ergue sob o signo desesperador da verdade deverei eu penar as quedas dos trotes mais altos, o cavalgar truculento do cavalo negro da noite, 

     

    a crise da hiperconsciência que me situa efêmera em situações tão estáveis, ora, eu morrerei e tú morrerás. Não estaremos mais aqui. Essas ruas tomadas, nem rastro do que somos juntos, fomos bichos da cama da chuva na Lapa, logo debaixo das cobertas, musica e mil filmes japoneses de pés dados, filmes velhos os atores mortos eternos, eu ali naquele mar, sabe, no momento em que perdi de vez a razão estava sóbria, num raro tempo de clareza foi que perdi, quis sair como saem os eremitas tão seguros de si e vim assim, sem frio,

     

    mas com a vida tomada das saudades do dia que não mais existiremos.

     

    Arvo Part - Spiegel Im Spiegel

     

     

    img//camilesproesser



    Escrito por Camile Spring às 16h50
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    A Jangada

     

    Refugia-te, meu amigo, em tua solidão. Vejo-te aturdido pelo ruído dos grandes homens e crivado pelos aguilhões dos pequenos. 

     

    Dignamente, contigo, sabem calar os bosques e as penhas. Assemelha-te de novo à tua árvore,  à árvore de ampla ramagem, que escuta silenciosa, suspensa acima do mar. 

     

    (Friedrich Nietzche em Assim Falava Zaratustra)

     

     

    Com dor dores o despertar, e com ele a despedida da própria vida, a vida usada feito papel sulfite nas mãos de crianças apressadas, acossadas pelo tempo curto demais dos vivos, aqui se nasce aqui se morre, he boi he boi, toca pra lá a solidão digna dessas moscas de chuveiro, seja isso aquilo outro, seja aquilo outro isso, mas faça uso da falta de memória, utilitária e única falta de memória dos que por aqui passam rastejantes, enganados por si próprios, mas o não lembrar é perder, esgotar a possibilidade de algum dia assumir e enfim crescer, ir embora, mudarse de planeta, sarapatear nalgum colorido assim brilhante, sem tanta carne, sapatos, chuveiros, companheiros tão passageiros, o galanteio é sim um pouco triste, deixa você assim, com cara de boboquinha, prefiro essa falta de saber, o amor deve vir de lá, da escuridade do um no outro, do nãosou nãosei masvou, simples como boiar no mar, deixarse levar, rumo aos raios de sol que te seguem e na água te fazem único, da necessidade de ser exclusivo pra ser dois de verdade na terra, sou só tua, só tua, empodera e legitima e assegura e pacifica e enfim tem que ser assim, é bom que seja senão não há lutas, lutas de amor na madrugada, gritos na escada, a condição atrapalhada de estar tão junto e poder falar, falar tudo, e assim nos proteger do mundo, dividir o peso largo e profundo dos dias que nascem e morrem em ciclo vicioso na cidade grande tão sem fim nem esperanças, onde se separa o joio do trigo e o que resta é dormir e rezar para as contas atrasarem, as baratas não chegarem aos pés da cama nossa cama vermelha nossa vida de tentativas e a tristeza quando chega vem acompanhada, você dorme e eu muda me pergunto afinal por que viemos?

     

    fico sem resposta.

     

    O dia nasce, somos aquela jangada em constante reforma.

     

    E o mar nos espera.

     

    Brian Eno - By This River

     

     

     



    Escrito por Camile Spring às 01h58
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    Kaijyuu

    Nós perdemos sempre. O indivíduo humano será sempre essa região amaldiçoada em que não é exatamente que ninguém consiga penetrar, mas em que toda exploração é imperfeita, incompleta. E por isso deformadora. Até para o indivíduo mesmo. É o signo da maldição. 

    (Mário de Andrade em Cartas a um Jovem Escritor)

     

     

    Em teu pesadelo é que me acho. 

    Na temperatura extrema do teu centro é que queimo, sempre só, sempre urgente. Pestilento ir sem volta, jamais seremos dois, jamais estaremos inteiros. E com teus olhos nada sou que não seja medo, pavor, redoma. Sou eu tua redoma. Sou eu quem desperta teu negrume, pelo canal do meio, sou eu teu escravo escravocrata. Sou eu quem enxerga teu viés enviesado, te mato com os olhos, te afogo com meu sexo

     

    mas despertamos sempre,

    entre flores brancas e o encantamento com a comida, carne na carne, carne crua alho vinho. Neste tempo de guardar o sono de quem não carece de guardião, tempo de estar sozinho junto, escalando montes invisíveis, na queda destrutiva dos monstros submersos, os monstros somos nós, os nós de sempre, que encalacram e dizimam possibilidades outras, os nós antigos de marujo enveredados por outras partes, partes de um corpo alheio interligado, prostrado, à disposição. Um corpo rígido, mais delicado que um caído, um corpo sem desvio de atenções, manobras, memórias. 

     

    O passado não passou e jamais passará, mas se transmigra a todo instante; nos transforma em pássaros leves mais perto da morte, em bestas selvagens ávidas por qualquer desespero, em troncos queimados, pendidos em alguma montanha aos pés de um cego. Nos transforma no que ninguém vê, no limiar da região amaldiçoada um do outro sempre, cruzados, malditos. Já não existe proteção, mas a pequena ilusão de que somos livres tão juntos, de que somos fortes. 

     

    Já não existe o que não seja nós.

     

     

     

     

    Mirois - III. Une barque sur l'ocean / Ravel

     



    Escrito por Camile Spring às 17h52
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    Pata de ganso

    Negras são as nuvens ameaçadoras, e perturbadas as águas profundas, quando o mar do pensamento, ao primeiro sacudir de sua calma, atira para cima os seus mortos. 

    (Charles Dickens em Vento Noturno)


     

    Venha por fora ver o de dentro, entre as lâminas de um corpo aberto, celeste. Venha olhar o olhar cru cortante de uma mulher que faz quem olha se sentir sempre imbecil. A tirania do olhar é suprema, esfuziante, e no entanto ela não mora na dona do olhar, que pela lógica seria a tirana. Dentro da dona do olhar há o nó dos que enxergam como se pela primeira vez, o significado desmascarado, as gentes sem externas; títulos, diplomas, sobrenomes. Feitos heróicos para quem, não importa. Sob aqueles olhos não há parecência, passado. Vestes, valor, vaidade. Classe, gênero, idade. Sexo, nudez ou pudores. 


    Mas há o cansaço guindado mais alto que os gusanos do tempo, que se arrastam cegos há séculos na terra e pairam solos perto dos loucos do coração, qual paiol de pólvora listo à detonação, quente e fumegante, é o coração humano. 


    E sempre perto deste olhar há também a ofensa dos que olham sem compartilhar; dos lisos sem atenção; dos ofuscados na escuridade da luz alheia. Moldar-se com os acertos errados alheios - risos - a educação caduca em quem aponta, na ponta dos dedos dos pais errôneos, humanos, covardes. As velhas crianças, despertas (apenas) nas extremidades da existência, somos nós, sem qualquer possibilidade de madurez ou ilusão, sem a educação sombria e preconceituosa dos adultos honrados pelas escaleras de algum feito irrisório e dinherista. 


    Oh, canso-me-de-mim, quero é ver gansos e apenas gansos com seus conjuntos de tendões de músculos da coxa que se inserem distalmente na tíbia, na extremidade proximal desse osso, na região anteromedial da perna chamada pata. 


    Patas deslizantes de gansos flotantes na água, 


    E rir.


    Ferrante & Teicher - In the rain


    img//Camile Sproesser

     

     

     

     

     



    Escrito por Camile Spring às 14h15
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    Cromotons ante monotons

    Terminado o discurso, o visitante fez um gracioso e encantador rapapé com o seu pé calçado de elegantíssima botina de verniz, abotoada com botões de madrepérola, e, não obstante a robustez do seu corpo, imediatamente recuou um pouco, com a leveza elástica de uma bola de borracha. 

    (Nikolai Gogol em Almas Mortas)

     

     

     

    Desde o começo

    e me perdi, deve ser simples, acordar e levantar como fazem, todos que não levantam caem? O infinito é, enfim, o que não tem começo, não é coisa assim destas bandas, bandas do hemisfério inferior da bola ou mesmo do superior, como assim demarcaram alguéns, o veneno não pode ficar guardado, bem sei, tem logo que ser usado. Que fique claro, aquele que melhor sabe iludir-se a si próprio é o que melhor vive, sozinho ou com corpos espectrais, em declive com a cabeça pendida para qualquer lado, dá igual: izquierda, derecha, volver. Nada além dessas pequenas imagens que se formam dentro de nós por desejo ou preconceito, ninguém conhece ninguém, mas cria. Desde o começo.

     

    Enganamos-nos em nossos empreendimentos 

    É a coisa que estamos sujeitos

    pela manhã faço projetos

    E tolices o dia inteiro*

     

    E some, no desespero por qualquer conhecido canto onde o conforto preste como doença, some em algum ser humano que proporcione segurança como doença, em alguns casos sem mal estar, apenas monotons, íons descarregados, cantos nulos em paredes descascadas ou recém pintadas, tantofaz; coisas velhas, obviamente, guardam sempre muito mais. E some, na moléstia da retórica cotidiana nos cafundós das gentes, o EU CONTRA EU mais puro agora em doloridos pulmões, fins de festa, insetos que te mordem na cama. Insetos. Que se arrastam por um dia em sua complacência natural com a vida, complacência essa  altamente questionável, mas ancestral, bucólica. E questionar ainda é viver, com ou sem motivos sentimentais, a destruição se faz caminho quando o peso serve ao mais profundo desapego, objetos que estão aqui mas jamais serão meus, porque são um monte de lixo, e por isso se quebram sempre, se perdem. Como os seres humanos; carne que alimenta carne com o intuito de um dia ser verme que alimenta verme. 

     

    Que gran pesimista eres.

    Y si, pero mientras tanto, entre carne e verme há o susto, o amor, o whisky, as notas individuantes, o mar, as matas, as montanhas, sorvete, cerveja, ovelhas, cavalos, o vento. Música. Churrascos e enterros, família. Livros e tardes chuvosas, mantas quentes, samba. Chimenea. Futebol, aguardiente, moças e pernocas. Há o México, o sol, as formigas. O filme e o x-salada na cama, as ressacas. As belas mãos dos homens, a juventude. As vacas, as quedas d'água, o passado. Las ventanas abiertas, las hojas coloridas de los árboles gigantes, niños, perros y playas. 

     

    Si que hay. 

     

     

    *Voltaire em Zadig ou O Destino

     

     


     



    Escrito por Camile Spring às 05h29
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    Suspensão animada

    De otro tiempo (...) Tiempo que sólo existirá en la reconstrucción de la memória aislada, en el vuelo del deseo aislado, perdido una vez que la posibilidad de vivir se agote, encarnado en este ser singular que eres tu, un niño, ya un viejo moribundo, que ligas en una ceremonia misteriosa, esta noche, a los pequeños insectos que se encaraman por las rocas de la vertiente y a los inmensos astros que giran en silencio sobre el fondo infinito del espacio... 

    (Carlos Fuentes en La Muerte de Artemio Cruz)

     

     

    Levante-se por debaixo, 

    deslizante, sem que os homens dormentes do corpo possam despertar. Vire-se de lado, na espreita de um silêncio maior que o escuro da água. Despegue o vestido, sinta o frio invadir costelas e mamilos, não se mova. É a fragilidade extraordinária da carne no frio, a pele crispada, os pêlos acordados; a indignação total do corpo. 

     

    Mas é tempo de trégua o tempo de bar, gin com limão de pijamas, dois dias sem lavar-se a coluna, a cona. A falta de enxergar o corpo nu, sem-cus de capuz na rua, na névoa da escadaria sem troncos, solas, bundas. Sumir é inevitável, a mão fria que não escreve e não penetra a calcinha, a mão morta. Ausência na cabeça, ausência no coração, a vida em total suspensão na conclusão do primeiro quarto de século. Solidão animada solidão, as garrafas vazias no canto da cozinha, os corpos abraçados aos pés da montanha em alguma gaveta da memória. Neve, muita neve, apesar de não haver enxergado os desenhos dos flocos como disse minha irmã. Cada floco tem um desenho específico, mas eu não enxergo o que você enxerga, eu enxergo pontos finais e linhas curvas em lugar desses rostos, desses encostos que dançam pra não chorar e rezam pensando em mentiras. Fico menos, deixo de cuspir na cara dos outros de uma vez por todas, peço desculpas,

     

    lo siento mucho pero soy un animal,

     

    vivo animal, escuro que pertence aos montes altos de alguma tempestade. Soy caballo, criança, piano. Quero muito a todos os patos do mundo, quero às vibrações dos cegos e aos sons curtos e desformes dos mudos. Quero aos orifícios dos homens no momento da mais grandiosa ereção, beijar molhado a boca na hora da penetração, abrir feridas. Ser completamente rompida por um só homem para o resto da vida, 

     

    caminhar como caminham vagarosos os elefantes hacia la muerte.

     

    Satie - Gnossienne:1.Lent

     

     

     

    img//camilesproesser



    Escrito por Camile Spring às 17h49
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    Nadando no escuro

    Se te pareço noturna e imperfeita / Olha-me de novo. Porque esta noite / Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. / E era como se a água / Desejasse / Escapar de sua casa que é o rio / E deslizando apenas, nem tocar a margem. / Te olhei. E há tanto tempo / Entendo que sou terra. Há tanto tempo / Espero / Que o teu corpo de água mais fraterno / Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta. / Olha-me de novo. Com menos altivez. / E mais atento. 

    (Hilda Hilst em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão)

     

     

     

    De olhos vidrados vermelhos, vejo em quadrados vazados como janelas que nunca se fecham, rotas. Um vento gelado, marcado por passos largos em ruas estorvadas de São Paulo, me faz caminhar com o tronco tenso. É sempre noite. Todas as pessoas que passam por mim são iguais, exceto pela gordura. Estou solta às nove horas da noite de uma terça-feira, sem pátria, sem igreja. Desço rápido a rua Augusta por entre desertos alheios, corações de galinha, tripas no chão. 

     

    Desço rápido demais, uma fuga de quê, no Olimpo semideuses explodem em chamas, na Espanha a velha Asunción se banha nua no escuro das grutas, em Luján morre um cavalo. Em Luján devo estar morta. E desço, e desço, e desço. Um vinho do porto ali, um livro acolá, estou suja sem amar, ninguém por aqui, um engraxate me dá um-dois, desço mais. Em São Paulo os monstros saem sem culpa de dentro de mulheres suspensas, sós, naus.

     

    Não me culpe. Meus problemas indissolúveis constituem, junto à música, o principal motivo da minha existência na terra. Sou um erro brabo. Não luto. Desapareço em nuvens frias no abandono dos próprios erros, a carne que me constitui esmorece. Desejo ser uma coruja qualquer, uma coruja são todas as corujas. Não se assuste, se dizer a verdade é de fato o melhor jeito de despistar serei um labirinto. 

     

    Dispenso controle, desprezo a vaidade calculada dos mesquinhos, lineares, dominados. A raiva é o contrário de postergar, é doce como a tosse duma mulher que está parindo. Parir é o indulto de todas as mulheres, o útero é um altar de carne, intocado. A ideia de dupla penetração me comove, é amor. Não serei de ninguém, nem ninguém será meu. Terei três filhos homens, na terra faltam bons homens educados por mães selvagens, irascíveis. 

     

    Devo ser mais señorita, segundo o bourjois. Devo não dizer, mas nestes dias de frio nos trópicos tenho andado impetuosamente real para recolher-me. Estar dentro do mar de inverno, na chuva, é transmigrar de alma por alguns instantes, metempsicose; virar luz, ter coragem.

     

    Estar aqui é ver minha própria mão escurecer, é ser alguém a cada dia, distante de realidades mais severas, 

     

    mas frágil,

     

    como uma pequena asa de borboleta em campo minado. 

     

    Philip Glass - Morning Passages


    img// Camile Sproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 17h52
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    Um sopro qualquer

     

    Viver é fazer que o absurdo viva. Fazê-lo viver é, antes de mais nada, contemplá-lo (...) Uma das poucas posturas filosóficas coerentes é a revolta, o confronto perpétuo com sua própria escuridão. Ela é a exigência de uma transparência impossível e questiona o mundo a cada segundo (...) Essa revolta é apenas a certeza de um destino esmagador, sem a resignação que deveria acompanhá-la. (Albert Camus em O Mito de Sísifo)

     

     

    Dizem que eu caí.

    Não me lembro onde, pode haver sido no canto do salão, mas não há dúvidas; as marcas que ficaram são côncavas, extremas. Posso ter caído de um céu estridente e agora ser o silêncio das aves migratórias solitárias que percorrem muitos países sem parar, em estado de urgência. E que de cima vêem os abismos, a formação dos furacões, as deserções da terra. E desaparecem por entre nuvens cinzas cor-de-rosas sem jamais serem vistas. 

     

    Ouço o som das paredes, dos cantos das paredes que abraçam um corpo de mulher que franze a sobrancelha e grita pra dentro. Do outro quarto, ouvem-se rugidos. Não, não é um bicho; é o som de trompas de falópio rígidas, dentro de um vasto vazio pulsante chamado mulher. Aquela moça ali queria viver pra dançar, mas o fato é que tem dançado pra viver. E acreditado em muitas mentiras pra sobreviver. 

     

    Naquele dia, quando o pianista subia as escadas e ela esperava do outro lado da porta, viu duas moscas dessas pequeninas na parede. Com dois dedos, esmagou calmamente o casal. Quando ele tocou a campainha, ela chorava sem poder se controlar, esfregando os dedos na parede. Não pôde abrir a porta por um longo instante. Ele, quieto, ouvia ela chorar. Nunca mais se viram. 

     

    Mas para onde vão os tigres depois que já se foi a tempestade, quando o sol desponta tímido com seus raios benevolentes para secar as lágrimas dos secos; dos que não se molharam na chuva. Podres dos que não se deixam levar pela tempestade, podres dos que acreditam na misericórdia do tempo em colheitas emergentes. A vida covarde depende do medo, e o medo é sempre o medo de morrer. O medo é o poder dos fracos, e a morte, a conquista mesquinha dos fortes. E a vida, a vida o que é?

     

    A vida é a mancha negra

     

    com os restos das moscas

     

    na parede que ficou

     

     

    Ryuichi Sakamoto - Amore

     

     

     

    img/CamileSproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 18h23
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    Insalubre, o amor eterno

    Nos tornaremos amigos, porque eu já começo a sentir necessidade de lhe dar um soco no nariz. É melhor que saiba que não posso sentir a amizade sem dar socos. Temos que brigar de vez em quando e arrebentarmos as nossas cabeças - está ouvindo? Este é o significado do amor.  (Nikos Kazantzakis em Testamento para El Greco)


    Quando levanto, tudo levanta.

    Sou uma árvore que dorme pesado e abriga velhas senhoras abandonadas, cravadas por entre raízes grossas, permanentes. Ossários, santuários, jardins: nada além de lugares como estes, vazios de gentes, onde os olhos repousam nublados para se saberem cheios de vida nos fundilhos, perto da morte, quando sorriem aliviados. Ali, os pais figuram a parte mais triste da vida, mesmo na alegria; não é de se entender como geramos e somos gerados. Nada, nem a psicanálise, nem Albert Camus ou Ernst Becker, podem aliviar a aflição desse absurdo.

     

    No fim, o que mais dói é a saudade da juventude dos pais. As lágrimas derradeiras caem dali, do lugar que nossos pais ocupavam antes de cometerem o ato vulnerável de nos gerar. Somos extensões do que eles eram quando livres, sem culpa; extensões inconscientes do que deixaram para trás em nome do que os pais deles deixaram para trás e assim por diante. E no fim, somos todos crianças de novo.  


    Não se pode estar limpo e amar ao mesmo tempo, amantes são enfermos e sua secreção também jorra inesgotavelmente até o exaurir da vida, até o fundo secreto da carne amordaçada pelas duas partes uma na outra e germes sim se espalham e dizem sim sorrindo em sua sujeira sem nojo, el rojo que adentra las mujeres sin cesar, a escuridade úmida do atar-se arrancar-se golpear-se ao orgasmo nuclear que deixa os interiores humanos desabitados por alguns instantes, vagueabundos por estados invisíveis do sol, deixando-se programar dejavus sonhos vigílias lágrimas e outras mágicas condições efêmeras condições que se esvaem como qualquer papel queimando mas ficam 


    lá dentro 

    guardadas.  


    Mesmo que o tempo seja uma esponja 

    e apague


    alguém há de ser sua extensão.

     

     

     

    Zbigniew Preisner - II Dekalog

     

     

     

    img// Camile Sproesser



    Escrito por Camile Spring às 21h38
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    O esquecimento

    São passos marcados contra-corrente, passos trôpegos de dragão aferroado, 

     

    me deixe em paz 

    com os ouvidos atados em mandíbulas de feras cegas que gritam na escuridão de dentro de mim, no breu macilento do não querer, no vácuo, viver. 

     

    Um dia acordei e era noite, 

    isso de enfiar a cabeça em buracos errados e perder o bonde de um sono pesado pra assistir o morrer das negras nuvens se faz em estado de vigília, como faziam os romanos. Isso de gostar de quem não é capaz de gostar  produz uma substância umbrosa no ventrículo esquerdo do coração, radioativa, não raro bombeada para o corpo inteiro. Em tais circunstâncias, é de se pedir mui encarecidamente que deixem as falsas autoridades trancafiadas longe do corpo em questão: nada de bedéis, nada de seguranças, nada de polícia. Estes, afinal, estão fadados à lutar contra a desordem, ela, a única que serve de consolo nessas horas. Puro privilégio, a desordem. Para poucos e todos, juntos, eternos na desordem. 

     

    Não existe homem. Existe papel. E as mulheres são bombas uterinas enfeitadas de carne volumosa, a cinta-liga cor de rosa no vai-e-vem macio de algum desastre. 

     

    Naquela noite, quando acordou, ela contou uma linda história para ela mesma. Ergueu-se na cama, sorriu. Não quis saber de ler o jornal - o dia já se fora. Ligou o som e entrou no chuveiro. Chovia uma chuva fria. Ficou com a cabeça embaixo d'água por um longo momento, no escuro, e se deu conta que os sentimentos fortes, inventados, são simples de serem arrancados. São fugazes. Ela não queria que fosse assim, era injusto que tanto sofrimento pudesse ser estancado por vias tão ordinárias. Assustava-se com o poder do esquecimento; da consciência das próprias invenções, fantásticas, mágicas e tão puramente egoístas. 

     

    Era estranho estar só mais uma vez, desassombrada por algum desconhecido íntimo, ex-amado, ex-idolatrado. Ficou vazia, sentindo a água cair por suas costas, suas pernas, seus passos parados sobre o silencio interior. Era estranho se saber sempre só, de repente, como uma gruta deserta que às vezes abriga um fugitivo. Sintoma do esquecimento, a solidão consciente; sintoma de força.

    Ela estava pronta, 

     

    pronta pelo esquecimento,

    foi tramar a invenção de um novo amor.


     

    rabisco//camilesproesser



    Escrito por Camile Spring às 03h50
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    Bachiana

     

    Intensidade. Era apenas isso, tudo o que eu sabia fazer. 

    (Mora Fuentes, O Cordeiro da Casa)

     

     

    Sem enxergar muito, andar pelas ruas nebulosas da segunda à noite sozinha, trovoada, tentar voltar pra casa sem alcançar, tentar tentar, rodopiar exatamente no meio da rua vendo o cavaleiro fantasma à espera de minha deserção. Pode ir señor, vá à galope encontrar algum mundo que caiu do espaço e rolando está, silencioso, de coração em ruínas, vazio por dentro, nos ocos da cara, na carne-cara raspada pelos dentes de um garfo nas mãos de uma criança. A carne da cara do peixe. Dá igual. Serei feita do que, então? 

     

    Nervuras. 

     

    Disse-me que seu cavalo morreu, e no sonho a grávida sou eu. Sei que muitos sentem raiva e desejariam ser meus filhos, mas vejo a terra tremer, a gente morrer, morrer abraçado, de cílios dados, eternos. Não tenho medo, sei que estamos juntos no meio da geada, da nevasca, da víscera equina que bóia nas águas de Talcahuano. No meio do menino morto ali no chão. Ninguém vê? Ninguém pára. Vê? 

     

    Não vá morrer sem meu corpo ao teu lado, no verão, perto do mar. Beijarei  tua face de homem morto, teus olhos já sem brilho, tuas mãos geladas. Levarás um lindo sorriso distante, eu então sorrirei e morta contigo estarei. 

     

    Mas nessa rua ainda giro suja de vinho, giro. O fantasma já partiu em seu bretão castanho, ninguém aqui. Morremos e cá estou, viva, sem você. Sem ninguém. Um prelúdio poco animato de Villa-lobos ecoa ao longe, uma esperança, uma nesga de vida, uma insone ao piano com o velho cão que dorme tranquilo aos seus pés. De olhos fechados na escuridão, ela toca uma Bachiana tristonha, vestida com o camisão listrado de homem ausente. Sigo as notas, dou saltos de bailarina zonza pela rua, não vejo mais que um brilho ébrio. 

     

    De nervuras estou feita, vivo de vigiar o invisível tragicômico que faz o ar ser leve, meu riso surge de uma memória besta, íntima e quase imperceptível. Sei que nada é sério, embora tudo seja agudo demais. Vai ser gauche na vida, droit, gauche-droit. Emudecer, não ter ninguém. Ser a velha imunda dos 90 cães que escreve e ninguém lê. Casar-me, ser mãe de dois meninos polidos, incríveis. Mudar de país, amar uma linda mulher, não casar-me jamais. Trabalhar em trabalhos dos outros e endurecer, perder la ternura, não ter tempo pra nada. Ser a esposa de um pescador calado, suado, urgente. Viver de festa, levar a tristeza entre os homens para abafar a sua voz. Sumir; abandonar meus pais e amigos. Pegar em armas, matar políticos, muitos políticos do mundo inteiro. 

     

    A pianista finalmente dormiu. De onde estou, vejo suas costas tombadas sobre o piano. O cachorro me observa com ar de piedade. Vou correndo pra casa. Estou molhada, os cigarros molhados no bolso da calça. Acendo um, tem gosto de coisa morta. Faço um chá, tiro a camiseta, sento-me à mesa fumando. Arrasto a xícara para a beirada, mais um toque e no ar voam as linhas e os pontos que formam a xícara e o chá. O líquido se espalha, a porcelana se espatifa. Pego a garrafa de vinho aberta na geladeira, deito na cama com o gargalo na boca. Durmo. O telefone toca e o som dele invade meu sonho. 

     

    Como se espanta algo de dentro de si sem destruir-se um pouco?      





    rabisco//CamileSproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 18h38
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    Wen Wam

    Buenos Aires, fin de tarde, café, luz de lunes en Palermo.



    Son las hojas que cortan un rayo de sol hacia vos que miro, un brillo fuerte del verano porteño que nunca había brillado en esos ojos.


    Las calles están desiertas.

    Venta venta venta. Generoso vento, el aire que mueve todo, los pelos de tus pienas, de las manos, tus cilios, tu espalda. Llueve hojas rojas, llueven las horas. Mis brazos me parecem rotos, pero no están. No me obedecen, aunque los muevo sin parar. Mi cuerpo és mutante cerca del tuyo. No entiendo lo que dicen, dicen cosas sin control. Estoy mareada. Me miras y sonreí una sonrisa sin gracia, sin saber. Sin querer. Mi corazón dispara y yo me debruzo sin que me puedas ver la cara. No quiero ver la tuya. Estoy completamente frágil, lista.

    Hace docientos años que te quiero,

    las cosas que me dices, tu forma de caminar, la simplicidad en lo que miras, te ríes con el total de la cara en una montaña, mil millones de papagayos hacia vos, vuelas en el aire y miras las ventanas abiertas, los viejos sillones amarillos con lo bien que te hicieron ahí adentro. Eres libre para hacer exactamente lo que más quieres de la vida, se empiezan las distinciones, los pensamientos intercambiantes, la tristeza real. La hombreza ilusória y tan linda.

    No existo. Estoy pendiente en el aire como los angeles perdidos que les tocó sentir todo, sentir absolutamente todo muy fuerte como castigo: el amor, los sonidos, el vino, el calor, los sufrimientos del mondo. Esos angeles hacen bien a la existencia; son filtros que testan la intensidad de luz líquida en la tierra. Y sufren porque no pueden saber porque les tocó ese castigo. Que hicieron ellos? Serán tan sucios así? Tendrán garras purulentas mortales que hacen daño a la gente dormida? O serán santos milagrosos roseados, golpeados, enfermos de emoción?


    Si que somos.


     



    Escrito por Camile Spring às 21h21
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    Súcubo e Íncubo

    O melhor modo de despistar é dizer a verdade. 

    (Clarice Lispector em Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

     

     

     

    Ao lado desse rio corre um homem negro nu navegante. Um negro velho do vento que sopra aos espaços abandonados dentro das pessoas vivas na terra. Aperta o gatilho e dispara, o cego, um Cérbero no mundo dos mortais, como faz? Como faz com a palidez dos dias frios desse verão? O olho da rua alagado por lágrimas das nuvens, ruas desertas imersas na neblina do colorido verão brasileiro. As gentes estocadas por entre andares de prédios, os tijolos de Moema são mesmo o puro tédio. Como faz com a acefalia do populacho consumista, a cor terrosa nas espingardas seixo-cubistas? E a tremenda falta de água digno-banhável nos parques de São Paulo? 

     

    E com a espetacularização da queda de iguanas congeladas, centenas delas, do cimo das árvores da Flórida, comofaz? 

     

    É carnaval, e os assassinos nesta época sorriem quando se entregam. E dizem, tremendo tensos de prazer, por que, pois, deveria eu não fazê-lo? Erros são acertos invisíveis a longo prazo, em outro plano; no único que importa. O resto é resto, o resto é má vontade gangrenada no peito de moças velhas de mágoa. A cerração, escuridão causada por nevoeiro ou acumulação de nuvens na fala, na voz, na alma de algumas mulheres é sintoma do mais repugnante processo de autovitimização.

     

    Mil veces la puta asumida a la ofendida. 

     

    É carnaval, e as mulheres nesta época esquecem quando se entregam. É época de esquecer. E queimar as placas enferrujadas que sinalizam reformas jamais reformadas, deixar agir substâncias puras y naturales bajo la lluvia, en silêncio. Repetir sempre as mesmas cenas do Último Tango em Paris, rewind rewind rewind. Nós, crianças; nós, que choramos de janela aberta para que venha o vento aliviar enfim nossas deserções.   

     

    L'amour c'est pas pop.


     



    img/Camile Sproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 03h09
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