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    Desconstruir a Existência


    Súcubo e Íncubo

    O melhor modo de despistar é dizer a verdade. 

    (Clarice Lispector em Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres)

     

     

     

    Ao lado desse rio corre um homem negro nu navegante. Um negro velho do vento que sopra aos espaços abandonados dentro das pessoas vivas na terra. Aperta o gatilho e dispara, o cego, um Cérbero no mundo dos mortais, como faz? Como faz com a palidez dos dias frios desse verão? O olho da rua alagado por lágrimas das nuvens, ruas desertas imersas na neblina do colorido verão brasileiro. As gentes estocadas por entre andares de prédios, os tijolos de Moema são mesmo o puro tédio. Como faz com a acefalia do populacho consumista, a cor terrosa nas espingardas seixo-cubistas? E a tremenda falta de água digno-banhável nos parques de São Paulo? 

     

    E com a espetacularização da queda de iguanas congeladas, centenas delas, do cimo das árvores da Flórida, comofaz? 

     

    É carnaval, e os assassinos nesta época sorriem quando se entregam. E dizem, tremendo tensos de prazer, por que, pois, deveria eu não fazê-lo? Erros são acertos invisíveis a longo prazo, em outro plano; no único que importa. O resto é resto, o resto é má vontade gangrenada no peito de moças velhas de mágoa. A cerração, escuridão causada por nevoeiro ou acumulação de nuvens na fala, na voz, na alma de algumas mulheres é sintoma do mais repugnante processo de autovitimização.

     

    Mil veces la puta asumida a la ofendida. 

     

    É carnaval, e as mulheres nesta época esquecem quando se entregam. É época de esquecer. E queimar as placas enferrujadas que sinalizam reformas jamais reformadas, deixar agir substâncias puras y naturales bajo la lluvia, en silêncio. Repetir sempre as mesmas cenas do Último Tango em Paris, rewind rewind rewind. Nós, crianças; nós, que choramos de janela aberta para que venha o vento aliviar enfim nossas deserções.   

     

    L'amour c'est pas pop.


     



    img/Camile Sproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 03h09
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    Paloma Negra

     

     

    É como a sombra de uma planta ao vento, movediça, a sombra existe num lugar que nunca antes existiu. Existe em todos os lugares que existem e que eu nunca verei. E que existem sem mim, em outras vidas. Estar viva é não ver tantos lugares, é não alcançar a própria vida. É estar aqui deitada no telhado de olhos fechados sem saber mesmo onde eu estou. Mas ainda assim, essas emoções tórridas indicam lugares onde pode ser que eu ainda esteja. Onde é isso onde eu estou? Há certo acerto geográfico emocional entre eu e os lugares e as pessoas, um algo mecânico que se encaixe dentro do meu corpo quando eu encontrar meu lugar?

     

     

    Estar viva é o único lugar

     

    O não-morrer é um  jardim desfocado e inseguro, e essa fragilidade aquece e nutre os amanhãs. A solidão no jardim pode parecer tediosa, inexplicável, inescrupulosa, nojenta. Insuportável. Mas de repente, sem causuística aparente, o coração dispara. E um pouco depois se compreende que a solidão é o único lugar e que quando se ama muito alguém não se ama o alguém, mas o único elo entre os seres humanos: a solidão. Ama-se a solidão do alguém. E então se tem taquicardia. E raiva, muita raiva por não encontrar naquela solidão uma corpulência, um motivo justo que se faça entender enfim o porque dessa ocupação interior, essa invasão da solidão de um homem nos escombros de uma mulher. O amor não é justo. Gostar muito de alguém é o maior terror que pode existir, se deslumbrar por uma nova solidão é absolutamente trágico. Querer, pensar, sonhar, imaginar, desejar: eis o longo prazo da crueldade; o curto das borboletas no estômago. Não há conforto em abrir-se ao meio, o entre carne-osso que se dilacera cuando outro mundo entra, entrou. É inacessível e está por aí dentro de mim. São explosões rítmicas contínuas no lado esquerdo do peito, o descontrole, o monstro do medo do amor eterno, os desencontros, a espera mortal e incerta por algo tão grande e sem sentido. Daí então se há de exigir a vida-própria de volta. Minha vida é minha. Devolve. Sai. Chove. Volta. E acaba, realmente. E cuando isso acontece a tristeza invade como um mar de ressaca, cheio e furioso. A tristeza vem  daquele lugar que ficou vazio sem o vazio alheio. E isso provoca a negação dos malefícios daquela invenção de amor, o que faz pensar que estar apaixonada, mesmo sem ser necessariamente correspondida, é um verdadeiro tesão. E egoísta, se quer sentir de novo toda a força de dentro de si ecoar outras solidões. É melhor doer muito do que viver sem sentir nada. Com medo. 

     

    O amor é o único lugar.

     

     

     

    img//camilesproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 17h47
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    A curva encovada

     


     

     

     

     

    No resvaladouro resvalo a carne dos seios no esplancnocrânio desprevenido EBÚRNEO dos homens-tigres. Isso dos alheios terem parecência com os de dentro. Ver a nós mesmos como veem os outros. Ver aos outros como eles próprios se veem. Ver a nós mesmos como apenas nós nos vemos. Há um algo teu em tudo que vês. Hasta en los agujeros. Buracos são espelhos. Há-se de estar no meio do espaço vazio, circunscrever o ar com os olhos, soltar as mãos. Às vezes algum material mordente. Extrair com os dentes o grosso da coisa-baça. Fixar alguém em algures. Não ver o alguém, mas algum algo do alguém. Como a disposição da roupa jogada no quarto de banho. Apreende-la e sentes tão perto a forma indefinível desse alguém. Viva e quente. Milimetrices. Um perigo, isso da parecência. É pegar do teu lá das funduras e atribuir. Colorir com as cores tuas o do outro. Tornar-se realidade, a maior das inverdades. Estes olhos de barro que moldaste em tuas mãos de ÚBERE-REI só são capazes de regurgitar. Abyssus abyssum invocat. E sem dizer nada vou me lavar no escuro. Os dentes moles os dentes desertores flotebundos em lágrimas lavadas pelo negrume da paixão semfim. O pântano não é lugar de compaixão, mas de enxergar um chão de olhos e derrelição e o vermelho dos dedentro. Os ovos flagelados na pele escalavrada de uma mulher desapropriada e ilegítima. A língua é um músculo e toda ela deve ser pesada. E os olhos? Quanto pesa um olho. Mais leve que um passarinho? Perguntar-se-lo à Bataille. Isso do peso da cara dos outros. Destituir-se de legitimidade significa jamais ter a coisa-posse dos homens, que tão naturalmente se adaptam ao mal convívio com objetos e correspondências e gentesgentesgentes;

     

     

     

    O rosto da cabeça é o mesmo do corpo?

    É o rostro das aves o rosto todo? 

     

     

     

     

    img camile sproesser 


     



    Escrito por Camile Spring às 05h05
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    Alopécia, o revés

     

     

    Lágrimas se lhe cortam os olhos, qual vista de nuvem chorosa, chuvosa sob cascos caldeiras corrimãos, o cheiro de madeira e mijo de gato em escura sala e silêncio, as escadas que rebentam no vento, no mais alto degrau da poeira que avoavoa e se desfaz aos pés de um senhor qualquer sentado em calçada quebrada, chumbada, esguia, o vórtice teu, o meu, sobreviventes fios de cabelos pendidos ao cume do crânio do velho, pocilgas pocilguentas sob as dobras, sob sobre, o saco de carne se arrasta de volta ao quarto, durmador dorme amor, te calas as vozes de dentro, és rubro sofrimento, és vaga, vagueias os pés nus em nós grossos de carne, cordões umbilicóides nos extremos deste leito, tateio ventres pestilentos, faço-me viva o entre-pernas as coxas macias, rosanegra beleza de pêlos cravados como rubis tortos rubis: a carne de dentro, as omoplatas MIRACULO omoplatas, as patas dos seios, as costas dos cheiros, o grito seco na goela grugulhenta o gomo molemolenga, seule comme ça, diz-se que foi passear, largou cão, patrão, a perdição de se estar entre o farfalhar de espelhos que nada luzem que não sombravultos rodapios em salto alto, o branco nas palavras de culpa, desculpa sei não, quem vê culpa que a carregue com os olhos, se le dá se le lê, quem de longe não se vê, o furor no espaço aberto, onde o ar cheira a víscera polvilhada de ceifado ouro e cego o verme das noites, mulher-verme que alimenta verme, no pós, donde te foste a alma pericular, caminhoar, coze o olho do colhão do touro e mete-o dentro de ti, scherzos e fugas, frugais frutas que pegas e amarfanhas por entre os que são chamados dedos, e assim sabes tua vida, amarfanhada por entre sobre, lasca de gorda rocha, liláses dizeres comolhechamas venha-te ler sobre meus ombros, não ainda não, me faço solidão solípse chamejante, ofego com lama entre os dedos dos pés, corro rouco, enrouquibrilhos em fios de choupos alagados, caracóis serpenteiam o rebolar dos patos, faço-me gota na terra, quedo-me argêntea sucção em raras tetas de loba silente, desaguilhoada, de esguelha o movimento despacio, terno voraz, coração a rebentar-lhe no peito, alopecia ao revés, se lhe crescem os cabelos curtos como parasitas, disseminam-se pintas na pele empalada, dorme a montanha solar

     

    espargida em disformes.

     

     

     

    img// camilesproesser


     



    Escrito por Camile Spring às 02h40
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    Fragmentos de um pulmão

     

    De respiração arrastada, a mulher de vermelho ainda existe. 

    Possui frêmitos brônquicos, lhe falta ar, lhe falta água. Sua vida é um punhado de fios cortados, espalhados pela floresta. Fios cirúrgicos usados, ensanguentados. Sangue-de-bicho. 

    Ao revirar os pulsos na cara, ela aperta os olhos com tanta vontade que é capaz de engoli-los. A mulher de vermelho é uma forma amorfa com nove orifícios em uso constante. Ela deseja tapá-los com cimento. Ela gostaria de abster-se da consciência de que os orifícios estão unidos pela manutenção sagrada da vida. Mete-lhe os punhos cerrados dentro da boca com força para destruir seu maxilar. Ela sabe que se fosse matéria maleável, suas mãos poderiam passear entre carne e osso. Suas mãos poderiam tapar-lhe de vez a respiração pelos canais turvos que lhe obstruem o ar. Suas mãos poderiam segurar a massa fecal na região final de seu cólon frágil e pleno de memórias. 

    A mulher de vermelho reclina seu rosto lentamente nas águas negras turvadas em concavidades nos chãos imundos, imundos, da noite. Refestela-se sempre só. É rudimentar, é bicho. Não há pessoa no mundo que lhe possa cuidar, deve para sempre ser só. Seu sexo está coberto com as nuvens cinzentas da tempestade e do caos, já não há homem para penetrar-lhe. Ela inundaria. 

     



    Como se algo a lhe doer permanentemente, vive a contorcer as faces, a mulher de vermelho. Invariavelmente, franze as sobrancelhas, permanece distante. Move-se como alga submersa em mar tranquilo. Ela não é mar tranquilo. Apenas não possui controle sob seu corpo para quedar-se estática. 

    Para todos, não é presença. Sem conveniências, não é simpática, nem muito educada, embora acredite ser. Não possui esperanças, e torna-se arrogante frente a crenças. É antiga, a mulher de vermelho. Possui a aura carregada dos velhos tempos em seus ombros, sua cintura. Não vive em tempo linear. Esta velha mulher de vermelho não carrega anos, mas ressacas. Uma mente brutalmente nebulosa, à mercê de um passado que sucumbiu nos aros do esquecimento, do desapego aos mais valiosos momentos. Eis as memórias apagadas no cinzeiro da mulher de vermelho. Ela fuma feito uma puta nojenta e consciente: seus macrófagos bóiam esverdeados, mortos nas cavidades negras de seu órgão insuficiente. 

    Ela quer matar alguém. Ela sabe que vai morrer. Ela quer assistir o rebentar da vida em olhos alheios, se não por amor, por ausência de vida. Suas pernas se movem com ressalvas, como se estivesse contrariada entre o desprezo completo e a busca desesperada por socorro. Por amor. Grita como se dentro d'água, ninguém a ouve. Ninguém a vê, quando acredita enxergar-lhe perfeitamente.   

    É bicho. Ataca-lhe a raiva própria dos cães, quando surge em sua frente o óbvio e comum controlador. Rechaça informações, a mulher de vermelho. Rasga jornais, rasga revistas, xinga, vira mesas, quebra taças. Chora até adormecer. Afoga-se.


    Não olhes muito para ela.

     

     

     

    img//camilesproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 03h26
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    Abatedouro

     

    O dia em que não voltei à casa jamais.

    Não me safo do momento em que olhei para o céu e prendi a respiração. Tombei. Quando despertei, estava em rua deserta, amuada em um canto sem luz. Os pensamentos não vinham, e com a mente silenciosa, quedei-me paralisada sem olhar para meu próprio corpo de cores. Não senti pavor, não senti frio nem calor. Senti-me numa bolha invisível a mim e a todos, alheia à tudo que ocorrera desde que estivera neste estado vivo da matéria. Não movia um milímetro em mim, posso sentir a não-respiração dos meus sacros pulmões amordaçados agora, agora que estou longe em definitivo das ratazanas de biblioteca. Em definitivo, não respiro mais. Tornei-me segadura do tempo, envergada para os lados perdidos de um campo secreto. Meu corpo endureceu, e sou tocada por ninguém em absoluto. Meus pequenos seios são hoje como cinzentos sopros gélidos de um eterno escravo espiritual, uma sombra amorfa e sem gosto que paira sobre o que foi abatido do meu peito. Da minha cintura escorrem lavas malditas que abrem rombos na pele macia de outrora. Sou mais nada que um vergalho pesado com resquícios pestilentos de fêmea desfeita. Sou nojenta como a verdade e cega como os vermes do poder. Revirei-me na sarjeta do passado, mordi o asfalto e perdi os dentes. E então, mortificada, recordei-me de que haveria em meus bolsos fundos d’alma, os dentes fortes do cavalo negro do tempo que dis-pa-ra lento e me faz extraviada. Delata-me, sou crime e lástimas por inteiro. Prostra-me, és miséria, és anêmico. Combalida e furiosa, venho de amores tempestuosos, naufragados em cais remoto e impossível. Pairo em miragens, sou toda deserto submerso em águas barrentas das costas da lama. Sublevo-me para cortar todos os cabelos da vaidade que ainda me restam.  Imoderada, peço equilíbrio aos recalcados musguentos da ilusão e da morte. 

     

    img//camilesproesser

     



    Escrito por Camile Spring às 02h25
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    Sem Título ou Koyaanisqatsi

     

    Ia dizer.

    Mas tenho água viva encalacrada na garganta e ela, se move, lentamente. Não abro os olhos então. Eles fechados vêem mais. Com acento. Vêem tentáculos coloridos e brilhantes da água viva que me cala e sorri. E eu choro sem abri-los. Lá fora é doido demais, culéga, quer brincar de viver? pra morrer? Dizem que Iemanjá abre e Exu fecha, e eu digo sim. Prefiro assim. Deleito-me no cálido coletivo humano, as intimidades costuradas pelo riso de um lobo. Upa, meus amados amigos taberneiros do coração. Em época de mulher inteira, encrespada pela própria respiração, o hobemgondemborâdeo quer pular corda. Quer viver triste pra morrer bem, permanecer na penumbra tribunalística dos machos perdidos S/A? ômodeus, aiuto. Uma reposição de verdades, uma contenção nas envergaduras da macheza, uma paz.  Aiuto, porque a maldade latente soa como o motor de um automóvel novo. E furam-me os pneus. E roubam-me a fechadura de um jeito todo especial, que me faz ter de entrar en el coche pela porta do co-piloto. É uma verdadeira festa no asfalto. Os olhares esguios, as aceleradas furtivas. Eu grito. E eis que lá no fundo vejo que a lembrancinha desta algazarra toda é um certeiro tiro na cara. Move-te água viva. Cala-me. Faz-me viva mais um tiquinho assim, quentinha no seio divinal da pazciência. Ó céus da boca. Ó Chauncey Gardiner, Kaspar Hauser. Ó Caldinhas minha, que pulsa la vida en las tripas, vá-te lá, ver pra saber. Ser pra escolher. E traz o marzão no bolso pra enxugar estes olhos ciganos da tempestade, mulher rara.

    Ensuite toujours ici avec nous. 


    Irregulares somos perfeitos, não em ângulo como as representações geométricas da existência, mas em méritos outros, escondidos em pequenas caixas pintadas à mão de mãe. Na palma da mão, olhar bem de perto, focar, enxergar bolhas de sabão embaçadas no resto do campo de visão. Tem alguém aqui?, além de Loris Lambys gigantes que caminham famintas por entre prédios neoclássicos neon, a achar graça de tanta destruição e imundíce. Las focas prateadas morrem morrem todos os dias, inconsciência coletiva. Vem comigo, mas só se for pra cair de rir e levantar pra chorar, e ser e estar, e como uma ratazana velha, engolir à exaustão. Mas que cara feia é essa que te põe triste mal comido quiçás, um ahhhf.

    Deito quente, somos tronco. Quem mesmo? 

    E viva Santo Antônio. 

     

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    Escrito por Camile Spring às 07h33
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    Às Monções

    “Às vezes, você fica ali, dentro dela, durante a noite inteira, para estar pronto se por acaso, graças a um movimento involuntário da parte dela ou da tua, lhe viesse o desejo de tê-la de novo, de fartá-la mais uma vez e de gozar apenas o gozo como sempre cego de lágrimas.” (Marguerite Duras, A Doença da Morte)

     

    Nunca gostei de garagens.

    Os subsolos, baldios, abrigam quê de medo e susto, um ser cego a espreitar no rastejo a entrada e saída dos moradores do Edifício La Spezia. Corro depois de fechar a porta do automóvel, corro para as escadas sem dar chance para ele me pegar, se esperasse distraída o elevador na garagem. E quando chego no térreo, cerro aliviada a porta das escadas com as costas, abro os olhos. Aprumo os sentidos, aperto o botão que me levará rápido pra longe de qualquer lugar que não seja eu. Os canos, o solo cinzento, as baratas e os carros. Com eles, as ruas que abrigam mortos dilatados no asfalto. São Paulo. Lá embaixo é frio e solitário, e, num pulsar de vida, tudo é diferente e nada mais importa. Alguém nasce, e eu vou morrendo por não ser muito menos. Muito menos. Pouco tempo foi suficiente, amor, oh tristeza em cima da mesa, essa que faz querer sumir, essa que faz subir um gélido sopro no peito. E aperta. Mas quem se importa com algo que é de ninguém, onde logo se vê, tudo é festa, e depois de ter um homem, se queda aliviada por haver sido vista de verdade. E basta. Mas nem tudo é festa, coração. O conforto está no passar dos dias, nas tarefas que escolhemos como propriedade e o resto é lucro nas conformes configurações. Devo então desacreditar completamente, amor não basta. E não basta. E não basta. Lamento-me nas paredes, escrevo ya no te quiero más, corto os cabelos, vou pras ruas, os anos passam e quando deito todas as noites te encontro passeando por mim. Agarro-me a teus cabelos macios, beijo a tua face cansada e adormeço com doçura. Mentira.

    No te perdono jamás si no estés conmigo, que lo sepas. Bien sientes que fuerte és lo que tenemos aunque no construimos nada. Das la cuenta y no seas tan despacio, si nos encontramos otra vez después de todo és tan lindo como natural que la vida se cambie. Quedate solo si quieres, pero libre para respirar el aire como un hombre de verdad.  

    E assopra a neblina pra clarear.

    E adormece fundo pra despertar, seja.

    Põe-me em meu lugar real e não neste sítio frio e culposo e eterno onde estou, calada e receosa como se de estar viva eu ofendesse. A ofensa, não nos olvidemos, é o efeito embaraçoso e covarde de um estado de reconhecimento, apropriação daquilo que nos acusam. E, no presente caso, quem acusa é um sonho visível, é uma vontade contínua, é a pulsação da própria vida. Adentramos-nos ali, não lamentes. Não há culpa que te permaneças longe de mim. Nem regues uma planta seca com lágrimas culposas por haver estado pleno sem. Arrivam-se finalmente nossas monções.

    Hoje, aqui, te permaneço como nunca.   

     



    Escrito por Camile Spring às 15h21
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    Retalhos

     

    Vi-me azul cinzenta à beira de estrada estreita. Eu menina macenta, menina boa de fugir aos gritos que não alastram som. Esgoto-me em pequenos grãos de sal que flutuam flutuam, assim, não me podes lamber e cuspir e beijar e morder, se morres. Tens que ser aqui, meu estrangeiro. Meu trigueiro homem. Olhe, escolho as suas mãos rudes sem horas no pulso fino. Sem conveniência, estes olhos romenos à cavalo.


     


    Deita aqui um pouco. Vem.

    Sabe, a vida, essa vida que vemos nos céus cravejados e estradas de terra, não é nada que ultrapasse os segundos da decisão. A decisão minha. A tua. As miudezas, os alfinetes, as merdas de vaca devem ser degustadas devagar, bem digeridas, pois somos dois monstros em busca de paz. Vá-te embora qualquer dia de si, se lasque fora e veja de cima esta sua cara. Veja quanta água, e depois olhe ao redor. Eu serei então o contorno dos sacis perdidos na densa mata, o sopro escuro e decisivo que arranca as folhas no outono. Eu serei então o fulgor arrebatador de um doce lar em chamas, como bem enxergas. E tu, maluco, que me pegues caprichoso. Que me pegues por inteiro, por todos os lados e buracos, que me faças livre de ti, em ti mesmo. Sabe, parado assim, olhando pro teto de sobrancelhas tensas e desamparadas, eu ali, grudada no teu peito, cheirando teus pelos de olhos fechados. O fogo da lareira estala e então levantas e me beijas. E te sugo até que vires um pedaço quente de seda. Veja de cima, estrangeiro, veja então se a vida é mais do que fogo e seda, a vida é o quê? 

    As pessoas querem quê de algo, qual, alí, naquela rua, alí, naquele edifício distante calculado. Sem vontade de fumar, fumas, sem vontade de beber, bebes. Que me sento na velha cadeira elétrica das lembranças, já não sei morrer. Quando vejo aquele lago enorme tinindo a luz do sol através de gotas de luz, estou só. E permaneço quieta, como em qualquer manhã, depois de acordar. O retorno no peso do sono, dos confins da alma, o despertar despacio e cauteloso da consciência. Eu, calada. Eu, quem. Eu, animal. Não. Eu, pétala caída esfacelada, daninha, sem singeleza para exprimir-me, herética. Localização, triste aqui essa ponte enterrada dos desejos, triste lá o atraso dos anos que se foram demasiado rápido, sem dar trela às estruturas. Sem pestanejar. Mal sabia nós dos ligamentos; diz, vou ser só, vou flanar de solidão, vou chafurdar no egoísmo, vou autoemitir a permissão para ser triste. Assumo a demência. Não apoiarei-me em pulsos finos? cá estou com meus, a queixar-me da boa vida. De mãos cheias, de seios inchados. O ventre livre. E ainda, caro estrangeiro, te vejo montado assustado no rabo das sujas cadelas que muito latem, vejo o carretel delicado dos teus pensamentos desfeito em nós, dependurado por entre as ruínas de um corpo. Um ossario de boi. He boi. He boi. Passa, fio, vá-te rápido, faz-me o favor. Esses som de ausência vem dos trigais, olhe, se uma espiga de trigo emitisse algum som ao se despedaçar em chamas este seria o som da tua ausência. E quando apareces, sou toda luto, aquele que se faz com a bagaceira da uva. Luto alcoólico de meias rendadas, a cinta-liga que prende a respiração alheia e me destrói. Vês agora um corpo entumescido de mulher amódita, que contempla a falta de ar embaixo das areias negras daquela velha praia.

    A luz que te entrecorta os olhos quando me vês entrar na cachoeira é filtrada. Gameleiras, plumerias, jasmins. As pedras se calam quentes sob seus pés. E olhe, então, estamos inteiramente vivos, foragidos um no outro, encobertos pela fúria da natureza.

     

     

    img//Camile Sproesser



    Escrito por Camile Spring às 18h52
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    No prado

    Escorriam-se cadavéricas as formigas por aquele pano velho molhado, e com sorriso trêmulo de mulher apocalíptica, suas águas lavaram a mesa, o doce, o cinzeiro. O cigarro, enganchado encharcado nos lábios semicerrados, machucados, denunciava o teor da vida em animação suspensa pelos próprios lábios. Lábios esses, plenos de segredos escondidos por entre glândulas, veias, lençóis. Ali há uma pedra, ali há uma mulher de costas, suada, inebriada pelas dimensões que saem das paredes piramidais que ninguém enxerga jamais. A mulher sopra com a boca donde se revolteam furiosos ventos que destroem o gesso maligno das perdas estancadas atrás das cadeiras. As perdas de verdade, como uma estrada, uma escada, sem retorno, sem fim. Como tudo que há de mais profundo, simples assim. Te sentas ali, e observas durante horas a parede, ali atrás, onde há tudo de menos óbvio, onde as respostas saltam ao ar, inflamadas, exauridas. O presente chegou e gritou para os confins de um poço fundo, o passado acordou. 

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo

    Coice do cavalo do tempo.

    Ninguém vai saber mais que ela, com a crina presa num coque alto, a mirar através das montanhas enfumaçadas da memória, que o tempo, amor, é um cavalo maldito que dis-pa-ra lento. E de onde estás vivo, se vives deveras, o encontras. A luta é árdua e infinita, mas o fim é descaradamente justo.

    Eis o epílogo da vida bandida.

    Eis-me o amor.


    (…)

    É nos braços da tua irmã que vai chorar, e que vai ser sempre uma criatura sem nada além de si. Mesmo sua irmã longe, mesmo sua irmã além do horizonte. Ela está aqui, como sempre estará. Não te ressintas como o cavalo do tempo, que justo e furioso, dá coice na vida, e bota tudo pra baixo. Sinta a força da natureza e fique só por horas, quieta, sem dormir, sem querer absolutamente nada. Quem não quer nada sabe muito. Sabe tudo. Minha querida, ouça, assim, as gymnopédies e gnossiennes de Satie, deixe a janela aberta, apague todas as luzes e cale-se. Mande todos os seus pensamentos, dos encantadores aos mais medíocres, pro diabo. Desligue máquinas, desplugue-se de tomadas, e fique assim, alheia dos seres e quereres e caralhos da existência. E seja feliz, enfim, e confie no vento e neste cavalo maluco do tempo. Você ama o suficiente para se calar, à julgar pela força que ainda está por vir, concentrada e bem direcionada. Ânimo,  observe com calma tuas novas pérolas, e ame muito este grande homem, teu homem sempre.

     



    Escrito por Camile Spring às 01h06
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    Alocromatia

     

    Ad paenitendum properat

             cito qui iudicat 


    Já são vinte para as quatro e ninguém chegou.

    É hora de chegar, ei, é hora de chegar. É hora de, enfim, apertar as brasas no peito das mãos e sentir o cheiro da carne escurecer a visão, enquanto um pai morre no quarto vazio ao lado. Saberá ele, enquanto morre, que meu cavalo negro galopa em direção ao jamais? Meu animal solitário, que na chuva chora e dispara contra a escuridão das matas selvagens e molhadas. Não. Ele não sabe e nem nunca saberá. Ele morre sem nem mesmo saber que está morrendo. A vida lhe escorre sem fracassos, apenas com um coração murcho, apertado entre memórias quase póstumas. Memórias frias, rígidas como a própria fuga da vida. Sabe, estes animais enrolados em plásticos desconhecidos e enlameados pelas estradas de terra do Brasil, afogados. Vocês sentem melancolia. Mas é vida, ora. Melancolia é não ficar de quatro e nunca haver se arrastado até o fim da estrada para sentir a beleza destes animais bem de perto. Alí, quando se aproxima de suas narinas e não há o sopro quente de vida, apenas paz. Pois a violência e a melancolia se manifestam intensamente naqueles que mais as repudiam, estes, que vivem a acreditar que estão seguros dentro da carcaça polida e courada. Estes, que fogem da natureza dos sentimentos a estancar as dores com a ignorância da razão. Estes, que se riem frente às regalias da beleza, mas se chocam e se enchem de intolerância e ausência quando a vida rebenta. Analisemos pelo esforço, o fracasso não é próprio de quem não se dá, mas de quem não se dispõe a olhar com franqueza. Arruina-se. Mala suerte? No. Malos ojos. Alocromatia, moléstia que perturba o senso das cores.

    Já é hora de chegada. Pode pensar que não estou bem, e fique à vontade. O ato não anula o fato, e duas pessoas só se encontram de verdade quando sem expectativas possuem algo uma da outra. E consequentemente, uma para a outra. Estar bem é um estado ordinário e uma condição social. Só se está bem para os outros, e mesmo quando se está forte ou amando, a prosperar o volume do espírito, o estar bem não faz jus às almas despertas. 

     

    ad partus ovium

    noscuntur pondera ventrum  



    Escrito por Camile Spring às 00h40
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    O Vapor

    E que eu me ponha em mim. Eu me tiro demais.                                                                          

    Abestalhando-se, besourinho? Sim. E depois nunca vai se lembrar das palavras, e dos gestos, e da vida. É só assim, é mesmo assim, te reclamo porque canso, ganso. Monstra, lontra gorda que se arrasta nas calçadas feito o patéta atleta da disneilândia do que cuidadosamente não importa. Pra mim e para mim, o que importa é exportar pra cá, nessa miudíce egoísta maravilha o que importei das camadas, transformar em palavras. Das calçadas desses econômicos, escassos, sulfúricos furiosos, infinitos dos adeuses – deuses  demoníacos do amor.                                                                                                                            

    Adeus, amor. Nem que seja só pra dizer. Adeus.                                                                                              

    Como vai você? Eu vou assim, ando a estar em tudo que é tão meu, apenas meu. Ou seja, eu. Você está longe? Se sente assim? Entendo, benzinho. Perto de um ponto sumário, imaginário fora dos eixos da terra? É exatamente assim que se gere, sugere dor, suor, piano. A noite adentra o quarto, lembra? Eu suspiro quando lembro dos abraços que não demos. Tem? É, eu concordo que devo ter destampado problemas demais de uma só mão. Minha mão anda queimada, sim, o vapor. Me cutuquei? Sim, desta vez como nunca. Cada um faz o que pode e como pode e quando pode porque somos tão absolutamente solitários e burros feito jiló de molho.                                                                                                              

    Poupe elogio, bem.                                                                                                                                                

    Você acreditava? Eu acreditava, embora nunca houvesse, de verdade no duro, sabido. Talvez jamais saberei. Mas fico comovidamente honrada que você acreditou em nossos erros gramaticais. Eu erro tão feio comiga. Fico sem miga. Não. Não. Fico assim, com migalhas de mim, e me rôo feito esquilo magro faminto de si.                                                                        

    Ma enfim, coração, não há de ser nada... Não quero mais te aperrear, precioso, hei de ir nessa. Eu também amo, sim. Relaxe. Deixe que minhas mãos ardam, até daqui uns estalos do tempo soarem e, lentamente, força surgir pra tapar essa panela quente e brilhante de barro a fervilhar alguns eus.                                

    Não te preocupe, bem.                                                                                                                                            

    Eu dou mesmo muita risada, mas ainda não enlouqueci pelo menos por completo. Onde queima? O vapor queima neorônios e partes sagradas do coração. Queima, dói, mas entende, amor, não me esvai com o torpor do calor, como a lenha, ou a pele de um animal atropelado.                                                            

    Solda-me feito aço.                      

    Mulher de lata? Não, bestinha. Aço molenga, molhado, vermelho. Mulhér, benzinho, você sente como é?

    É carne, muita carne e sangue. E chuva. Torrencial, o sangue e a chuva. E degraus de costela, degraus que guardam um oráculo infinito pequenino que pulsa forte, em cotidiana demasia, e dá choque, e nunca se cala, e pisca, assim, feito passarinho prestes a morrer perto do sol. E aí, coração, você deve estar livre, desentupido, para chorar muito. Na rua, no avião, na escola, no celeiro, na festa, no outono, no elevador, no metrô, e de preferência no chuveiro. Ou melhor no meio do mato. Vida, bem.                                                                        

    É um pouco assim. Mas é também amar demais, tem jeito não. Você sabe melhor que todos. Vivo, logo amo. Amo, e rebento.                                                        

    Amo, e acordar, esticar a carcaça do hemisfério norte ao sul e gritar FUNCIONA BRASIL!                

    Dormir solta dentro de mim. Com gavetas se abrindo e tudo voando aos brilhos, essas mágicas de estar vivo, de estar bem aqui.                                                                                                                                              

    Se ainda sinto a velha aflição de não entender e não conseguir formular a grande questão? O não-pertencer? Claro que sinto!  

    Eu ainda não consigo, só tenho ausências relâmpago, e de repente não ligo os cabos e não sei o que somos, digo, a forma humana, não entendo o que é isso tudo aqui, e como viemos parar, enfim, aqui.  E então aquela mania de ficar olhando fixo pra minha mão durante tanto tempo né… Os arrepios. Você estranhou, né, coração. Viu, passou. Quando eu era muito pequena acontecia todo dia, eu ficava fora sem qualquer noção do que somos, isso é, não entendia a forma humana de existência, era muito, sensacionalmente, estranho. 

    Agora só acontece voluntariamente. É. eu passei a cultivar a sensação. Como eu faço? Tenho que começar a olhar minhas mãos durante algum tempo. Depois vem a grande incompreensão, mas dura pouco. Uma pena.                                      

    Bom, bem, quero ir dormir. Preciso sonhar com umas paradas que andam surgindo por aí, nesse porto magnético das sortes, dos pensamentos, tentar entender pelo outro lado, meditar. É danado. Sim, eu preciso meditar. Nos vemos loguinho, sim?

     

    Vem, me abraça forte e respira, traga o vapor quente do meu corpo inteiro.

    Adeus, amor.

     

    Cuida.

     

     

     

     



    Escrito por Camile Spring às 04h30
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    Hoje é a curva

    Seu Orlando morreu.

    Não esqueci, porque destas coisas a gente não esquece.

    Não eram férias de julho, mas de janeiro, quando a gente ia dormir ansioso pra acordar logo e nadar, jogar taco, jogar bola e brincar mais nos dias quentes e longos dos verões com gosto de pastel e suco de maracujá do Décio que não voltam nunca mais.

    O Vale das Vertentes é cercado de mata fechada, é banhado por um lago e as flores, os pássaros e os bichos daqui sempre me pareceram pré-históricos de tão vigorosos. Que diga os insetos. Este lado de Serra Negra sempre teve energia toda especial.  

    Meus avós construíram essa casa no fim dos anos 60, e desde então nossas vidas florescem e se transformam dentro dela. Da mesma forma que minha mãe e minhas duas tias gêmeas cresceram aqui, eu, minha irmã e meus três primos, anos depois, crescemos aqui.

    E o tempo passou e varreu nossos elos firmes de criança. Os segredos de estado, as picadas, os tombos, a zueira toda e a intimidade. Hoje nos trombamos pelas ruas e mal nos reconhecemos. Mas essa é outra história, e fica pra quando eu estiver forte pra contar das perdas fatais, irreversíveis. Hoje estou com o coração nas mãos sob o mesmo céu azul exuberante do Vale das Vertentes. E quando coração fica na mão é sinal que se perdeu feio algo de valor inestimável, mas há em algum outro porto um navio escondido que fortalece, a solidão fortalece. E essa mísera consciência de solidão aperta forte, e dói.

    Podia ser segunda, sexta ou domingo, todos os dias eram iguais. De bermuda, camiseta e boné, saímos eu e minha prima Bruna com todos nossos oito anos de existência sob as rodas velozes e cor-de-rosas de nossas bicis envenenadas ladeirão abaixo. A enorme rampa de terra que guarda minha casa quadrada faz uma curvona quando chega no lago, e foi bem ali que a animadíssima perseguição chegou ao fim. Eu tava ganhando até aquela curva, mas essa curva aqui curvou os ares, o sol ardido. Trapaça feia, a roda dela raspou na minha e eu, curisco magricela, voei. Voei pro chão, minha barriga entrou no guidão e então o sol sugou todo ar da atmosfera e as pedrinhas enterraram minha boca seca. Quando abri os olhos cheios de terra vi cheiro de sangue nas mãos da cabeça branca do seu Orlando. Ele me pegou com asas de anjo, e voou com sua berlinda até minha mãe, que desceu correndo com a cara muito vermelha tremelicando a rampa da garagem de tão aflita que ficou com os gritos do seu Orlando. E então mais uma vez estávamos todos lá, na Santa Casa, esperando eu, a boneca dismilingüida, estar concertada.

    Seu Orlando me salvou a vida,e hoje ele perdeu a sua, e eu estou aqui sentada, olhando aquela curva. Hoje eu queria falar com a minha mãe, e dizer que não sou assim, tão ruim. Ninguém é tão ruim assim. Que as vidas se atrelam com o tempo, e o tempo atrela as vidas. Eu sou atrelada, mesmo deitada sozinha na grama do campão, olhando a gente jogar bola.

    Hoje levo pouco mais de oito anos de existência sob as rodas velozes do tempo, mas sou exatamente a mesma menininha.

    E eu preciso muito das pessoas que me são atreladas, porque muitas delas se desatrelaram sem minha permissão, no susto, nas outras curvas que a vida dá e te derruba, e o anjo não vem, e de repente, quem é sangue da gente permanece completamente alheio e não te quer mais, nunca mais, Fievel. E as perdas reais dos vivos se consumam com as desistências de quem não lida com a válvula com que se constrói as histórias de vida, a valiosa intimidade. Esses problemas que transformam a identidade de uma família, tolerância quando amor não basta, fragmentos, fragmentos de uma vida inteira. E assim perecemos, desatrelados à fraqueza de algum integrante da tripulação que comeu pouco feijão e abandonou o barco. E desse barco eu não saio jamais. 

    Hoje é a curva, e eu não caio mais.

    Quem perdeu hoje, de verdade, foi Dona Terezinha, esposa de Seu Orlando. Hoje vou acender minhas velas por eles, que hão de se encontrar diante outro vale, outras veredas. Eu hoje vou rezar na mata, e agradecer por ter no sangue três mulheres, mãe, avó e irmã, fortes demais, que não têm pouca história, nem pouco amor pra dar. Nem pouco nada. E vou agradecer pela vida, que sempre me dá tanto, sem que eu precise perder tudo de verdade pra acordar. Adeus ano velho, porque hoje é a curva, curva essa que chegou junto à da Maria Letícia, Coringa que me guia no karmanghia da existência, parabéns pelos 31 de ripa fina, mulher.

    Hoje é a curva, e daqui em diante vou tentar ser apenas o que eu faço do que fizeram comigo. E vou errar feio, mas ninguém é tão ruim assim. Vou ser minha versão incorrigível de mim mesma, assumidamente humana e adepta aos acertos e equívocos, assim como sou, eu protozoária, eu, filhote de labrador.

     Agora eu sento na ladeira e olho a curva. O anjo está ali, e se despede nos reflexos do lago. 



    Escrito por Camile Spring às 21h39
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    Karma Chameleon (I cum and go, I cum and go)

    Evapora-se o turquesa nos oceanos, quando tudo o que há nesta praia são cascas de banana que fazem mal, mas muito mal. Hum, mas se um dia eu chegar muito louco, deixa essa noite saber que um dia foi pouco. O bode é meu, a vaca sou eu, e não estou, não estou em nenhuma esquina de Truffaut, em nenhuma cama de Almodóvar, nem mesmo em algum céu de Kurosawa. Não estou dormindo, não estou nos bares quando pareço estar, em algum canto fora do campo de visão talvez esteja, não completamente sozinha porque agora há um incômodo, uma tensão sexual, um objeto ruim de pegar.

    Photobucket

    Agora há Paris, o Mario-que-me-come-atrás-do-armário e suas sinfonias clássicas nas madrugas de Sampow meu, a gente se encontra na hora do último vinho e se beija sem boca, e conversa com ninguém juntos, e depois bebe cerveja tcheca pra enganar as vontades chocas. Ele não me diz a idade pra eu não dizer a verdade, eu não digo, provavelmente, nada que preste nem pra rir, nem pra nada. Ele é mesmo um grande galã do trance. E não importa, porque eu não estou presente, eu não estou passado e muito menos futuro. Estou fora de temporada, fora de cartaz por tempo indeterminado, descascando, dançando em pirâmides nos subsolos de alguma cidade que nunca existiu na puta que pariu, ouvindo o Dalto cantar cuidabemdemiiiim então misture tudo dentrodenós, de pijamas, rendida, pronta pra ir embora de qualquer lugar a francesa, dando tiro de espingarda na lâmpada acesa. A vaca faz pliê, e agora eu preciso dormir e descansar meus sacos cheios de ar, inchados de vazio, sonhar com os aspectos mundanos das abstrações e dos homens farofas que são muito mais interessantes quando você não vê tão de perto. Ahn não! Chega de briga, estas reivindicações malacafentas de quem se nutre dos maus agouros alheios, das amigas, das fofocas. Chega de Paris na madruga, chega de inventar homens em peles de banana, eu não estou, não estou em nenhum tubo de ensaio no lab dos Paulistas Idiotas LTDA.

    E chega de ficar na praia sem protetor solar.



    Img//CamileSproesser

    Escrito por Camile Spring às 13h09
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    Dreamy Weather

    Photobucket


    É esta cidade e a maneira que ela se move diante nossos corpos de carne crua. E como acreditamos no que não sentimos de jeito nenhum, acreditamos em coisa demais. A noite entrevada mostra apenas uma luz acesa, que aqui da janela me faz querer constituir família e fazer sexo sem parar durante quatro horas com meu marido de dez anos, depois que as crianças finalmente pegaram no sono pesado. O ódio do sono, o famoso ódio do sono que dá nos bebês ansiosos para acordarem logo e observarem um pouco mais da existência. Um pouco mais das maçanetas, dos vãos geladinhos e confortáveis que só as crianças são capazes de desfrutar. Observar a cara de besta dos adultos que a essas hora já se esqueceram de tudo. As cores dos coelhos e girafas de pelúcia, o barulho da janela que se entreabre e briga com o vento a uivar lá fora. A risada alta dos pais enquanto jantam e ouvem algum disco velho do Erasmo. O cheiro da chuva nas primeiras horas do dia e o abraço apertado quase sufocante da sua mãe quando você começa a vida escolar. E a hora da preguiça no sofá, ainda com o uniforme, lendo um livro ou vendo desenho animado antigo, pescando de sono. Os lápis de cor e as canetinhas, o pé descalça o dia inteiro brincando de panelinha no quintal, a imaginação, a imaginação, os irmãos, os primos, os cachorros, as viagens, os esguichos, os lanchinhos e as pequenas cagadas e desastres inevitáveis aos descobridores do mundo. As broncas, os chiliques, o tédio, a ansiedade e os aspectos mais confusos dos primeiros tempos de vida em que se cruza o braço, faz bico e fica emburrada pra aprender que não se controla nadica, e o seu jeito não é o mais apropriado. As quedas, ahh, as quedas! Os joelhos eternamente machucados de menina fogueteira, o vestido todo sujo, minha mãe a perguntar todos os dias “…mas filha, você rola no chão?”, a cara preta da mão suja e suada no cabelo, na empadinha. As aventuras de Calvin e Hobbes, eternos heróis, o astronauta Spiff e os monstros escondidos pelo quarto. Fugir pelo menos três noites por semana para a cama da irmã de medo dos monstros nas prateleiras e de seu habitat natural, embaixo da cama, e ser recebida por resmungos “hha..nham...tá,dorme logo..hh” com abração quentinho de irmã mais velha. As adivinhações verborrágicas das músicas em inglês, verdadeira essência de Elton John nas longas estradas de agitação no banco de trás, ora rindo, ora chorando, ora cantando, ora sonhando. E a falta de noção geográfica “que cidade é essa?” no meio da rodovia, “faltam quantos minutos pra chegar?”de dez em dez minutos, e assim por diante nesse longo galope pela estrada colorida. A noite entrevada agora se ilumina apenas pela lua cheia, aquela luzinha já se apagou.

    Eis a cidade que se movimenta devagar diante nossas almas de algodão doce, e esse clima sonhandinho…



    Escrito por Camile Spring às 04h10
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